Leituras

Falsíssimo Veríssimo

Olavo de Carvalho

5 de outubro de 1999

Num recente debate no Fórum Sapientia, aprovei entusiasticamente a indicação do sr. Luís Fernando Veríssimo para o “Prêmio Imbecil Coletivo” de 1999. Para não ser acusado de favorecimento injusto, apresento aqui as razões que, no meu entender, adornam de sobrantes méritos o cronista gaúcho na disputa pelo ambicionado galardão. – O. de C.

O sr. Luís Fernando Veríssimo, que na juventude chegou a ser engraçado, tornou-se na idade madura um exibidor profissional de ódio político paramentado de indignação moral. Não há profissão mais rentável no Brasil de hoje. Em todo caso, o sucesso do tolo não é motivo para que se torne assunto destas crônicas, as quais não têm por objetivo insuflar no leitor a revolta contra aquelas banalidades invencíveis que a sabedoria recomenda aceitar com a mais resignada e indiferente mudez. Eu nunca tocaria no nome do sr. Veríssimo se ele não houvesse tocado num assunto que, por tê-lo lecionado desde 1978, tenho o direito de supor que seja da minha conta. Mais que tocar, ele aí mexeu e remexeu, não só com a inabilidade rombuda de quem soldasse circuitos de HD com um maçarico de funileiro, mas também com aquela desenvoltura presunçosa do palpiteiro que, se imaginando um pregador entre índios, crê poder sem risco de vexame fazer passar por sábia a mais compacta ignorância.

Num de seus recentes sermões à taba, o sr. Veríssimo, apelando a elementos de erudição latina adquiridos na noite anterior entre um bocejo e outro, ensinou à indiada que o problema dela era acreditar no trivium de preferência ao quadrivium. Os silvícolas, diante de diagnóstico tão atemorizante, ficaram preocupadíssimos. Mas, para não ser acusado de abusar da boa-fé popular, o sr. Veríssimo logo explicou aos primitivos do que se tratava. Trivium e quadrivium compunham, na educação medieval, o sistema das Artes Liberais — o primeiro dedicado à prática da retórica oca e pomposa (gramática, lógica e retórica), o segundo ao estudo dos mistérios sapienciais (aritmética, geometria, música e astronomia). O Brasil, concluia o sr. Veríssimo, estava na pindaíba porque nas afeições nacionais o trivium “superou as artes precisas, tornadas inconseqüentes pela irrelevância política. A gramática, a retórica e a lógica – ou a gramática, a retórica e a lógica a serviço das abstrações e do narcisismo no poder – definem a realidade. As palavras substituem os fatos” (O Globo, 17 set. 99).

Não vou aqui apelar ao expediente demasiado óbvio de dizer que o sr. Veríssimo, jamais tendo se notabilizado como praticante de artes matemáticas, e não tendo feito outra coisa na vida senão juntar palavras em vista do efeito desmoralizante que pudessem exercer sobre seus desafetos políticos, é em tudo e por tudo um profissional do trivium e, neste, especificamente da retórica, da qual o humorismo polêmico é uma das ferramentas mais típicas e indispensáveis.

Não farei isso por um motivo muito simples. Comparações históricas deslocadas do seu sentido originário para adaptar-se à força a um argumento contencioso voltado contra políticos do dia não fazem parte do arsenal da ciência retórica, aquela em que se notabilizaram os tratados de Aristóteles, Quintiliano e, para citar o mais ilustre entre os recentes, Chaim Perelman. São instrumentos da baixa retórica conhecida como erística — a técnica mais ou menos improvisada de simular argumentos para confundir o adversário ingênuo e impressionar a platéia leiga. Consagrei ao estudo desses instrumentos e dos meios de desmascará-los o meu livro Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão. A Dialética Erística de Arthur Schopenhauer (Rio, Topbooks, 1998), cuja leitura recomendo fortemente ao sr. Veríssimo, com a advertência de que este conselho não é anúncio comercial e sim prescrição de dever escolar. Se o houvesse lido, o sr. Veríssimo compreenderia que a retórica não faz mal nenhum ao Brasil, pelo simples fato de que há décadas está ausente do nosso currículo escolar (enquanto o francês ou o americano lhe dão lugar de destaque) e, sendo completamente ignorada, não pode ter culpa de que pessoas como o sr. Veríssimo ou seus desafetos pratiquem em lugar dela uma outra coisa qualquer, chamando-a de retórica.

Que a comparação do sr. Veríssimo é forçada, é. Mais não poderia ser. O trivium e o quadrivium não tiveram nunca o sentido que ele lhes dá. Ele foi parar tão longe do assunto que se torna difícil explicar onde errou, porque todo erro supõe alguma referência à realidade, e as Artes Liberais do sr. Veríssimo são apenas a imaginação de um caipira cuja distância dos estudos medievais se mede em escala interestelar. A lógica, por exemplo, nunca teve nada a ver com eloqüência — pelo menos no sentido atual e brasileiro do termo –, e a retórica excluía expressamente do seu domínio a mera arte oratória com que a confunde o sr. Veríssimo, concentrando-se antes na avaliação da credibilidade dos argumentos perante os vários tipos de públicos e correspondendo, mutatis mutandis, ao que hoje é a psicologia da comunicação, uma ciência “de fatos” que, se pode ser acusada de alguma coisa, é de pobreza de abstração. Quem quer que tenha dado ao menos uma lambida na Retóricade Aristóteles sabe disso, donde concluo que o sr. Veríssimo se absteve dessa experiência gustativa, talvez temendo que pudesse lhe ser letal.

Por isto mesmo ele não pode ser acusado sequer de praticar a erística. O argumentador erístico domina seu arsenal de truques e sabe quando trapaceia. Já o sr. Veríssimo age com plena inocência, porque não tem a menor idéia do que está dizendo. Comparando uma coisa que desconhece com outra da qual tem apenas uma vaga idéia, ele chega a conclusões que lembram as de um drogado recém-emerso de uma bad trip a conjeturar em vão onde está e o que foi fazer ali.

Desde logo, imaginar que as artes da linguagem lidem com “abstrações” enquanto as matemáticas se ocupam de “fatos” reflete aquela completa ignorância contra a qual não valem argumentos, melhor convindo, em tais circunstâncias, a chinela da mãe para mandar o sabidinho para a escola.

Em segundo lugar, dizer que os brasileiros preferem a lógica à música é algo tão extravagante que não compreendo que alguém o profira em estado de sobriedade. Bem ao contrário, o que se pode afirmar com razoável certeza é que a afeição dos brasileiros à musicalidade é tão extremada que chegam a fazer dela um substituto da lógica, persuadindo-se da veracidade de uma sentença tão logo afetados por suas qualidades sonoras. O próprio sr. Veríssimo, como se nota pelo caso presente, não parece submeter suas opiniões a outros testes senão o puramente auditivo.

Em terceiro, ignorar o papel central que a música e as matemáticas desempenham na retórica do poder contemporâneo — a primeira moldando a sensibilidade das massas, as segundas estruturando toda a ideologia científica que domina desde a política econômica até a administração de nossos corpos pelo establishment médico-sanitário –, já é elevar a cegueira às dimensões de um culto religioso.

Em quarto lugar, as Artes Liberais compunham um sistema coeso, de modo a permitir, justamente, que o pensar com palavras e o pensar com números formassem uma base única para a compreensão das ciências voltadas a realidades superiores que transcendiam palavras e números. Se há pois disciplinas que valem o mesmo, e entre as quais não se pode estabelecer nenhuma diferença de valor, são aquelas que compõem o trivium e o quadrivium, todas elas igualmente elementares e aliás perpassadas de estruturas comuns que tornam impossível separá-las, como por exemplo as associações entre as órbitas planetárias e as categorias da gramática, ou entre estas e os sólidos geométricos do platonismo. Expliquei alguma coisa disso no meu livreto Astros e Símbolos (1985), que está esgotado, se bem que não tanto quanto a minha paciência de ouvir gente como o sr. Veríssimo falar do que ignora.

E não é estranho que, tão despreparado para lidar com o assunto, o sr. Veríssimo embarque por fim na confusão, que se tornou obrigatória na nossa imprensa, entre “o poder” e “o governo”. Refletindo a incapacidade geral de discernir entre a organização jurídica nominal de um país e as estruturas mais profundas que a determinam — incapacidade que chega a ser espantosa numa geração que se gaba de marxista –, o ocupante mais ou menos casual de um cargo eletivo passou a ser “o poder”, enquanto o vasto império midiático que lá o colocou e de lá há de tirá-lo quando bem entenda se converte, por meio da performance do sr. Veríssimo e grande elenco, na personificação do não-poder, do excluído, do brasileiro pobre que geme inerme sob o tacão dos poderosos. Com truques como esse (também meio inconsciente, pois o sr. Veríssimo jamais seria esperto o bastante para pensar numa coisa dessas), a classe falante oculta o seu próprio poder, fazendo do governo o bode expiatório cujo ruidoso sacrifício permitirá que, por baixo das sacudidas periódicas na superfície do noticiário, ela permaneça, como Minas, onde sempre esteve.

Alguns dirão, lendo estas linhas, que abusei das minhas forças, que joguei décadas de estudo contra um pobre cronista sem pretensões eruditas. Mas o sr. Veríssimo, como aliás toda a geração de pessoas que hoje dominam o pequeno jornalismo e o show business, não apenas tem pretensões eruditas como se prevalece delas para se tornar uma espécie de maître à penserhabilitado a dirigir o curso do destino mental brasileiro, subindo infinitamente acima de suas sandálias de cronista de província nas quais seus rechonchudos pezinhos cabiam com perfeição.

Não há hoje sambista, roqueiro, comentarista esportivo ou apresentador de TV que se abstenha de posar de intelectual e dar lições. A causa disto é patente: uma certa corrente política, desejando exercer sobre o país a hegemonia intelectual, e só dispondo de raríssimos estudiosos sérios em suas fileiras, teve de improvisar “quadros” — que é como ela denomina as pessoas –, e rodear sujeitos como o sr. Veríssimo de um prestígio e de uma autoridade absolutamente desproporcionais às suas capacidades. O resultado é que hoje a denúncia do verbalismo nacional, tão decisiva para a correção dos nossos costumes, se converteu em imitação simiesca de si própria e se prostituiu em demagogia ornamentada de falsa erudição: o verbalismo criou anticorpos e se alimenta de auto-acusações.

História e Ilusão

Olavo de Carvalho

26 de setembro de 1999

Países como o Brasil, a Romênia, a Polônia, a Bulgária, sofrem de um terrível complexo de marginalidade porque sentem que foram excluídos da História. Olham com inveja para os “grandes centros” de onde vêm as correntes de acontecimentos e idéias, e choram ao contemplar sua própria insignificância.

Mas a “importância histórica” é quase sempre apenas uma ilusão lisonjeira, que nada tem a ver com a relevância objetiva dos homens, dos atos e das doutrinas. Afinal, o que é ser importante, historicamente? É ser falado e servir de pretexto, por meio do que se fala, à produção de mais falatórios e mais acontecimentos. Na quase totalidade dos casos, a soma destas pretensas conseqüências, em vez de pôr em evidência a sua suposta causa, termina por encobri-la e desfigurá-la completamente, até transformá-la em algo completamente diferente daquilo que foi e obrigá-la a servir a finalidades diversas ou opostas àquelas que originariamente as inspiraram. Se os fatos e idéias de uma época chegam a subsistir na época seguinte, não é em geral como forças agentes que produzem os efeitos que lhes são próprios, como a semente de maçã produz macieiras e os ovos de galinhas trazem ao mundo novas galinhas e não patos, mas sim como mitos que servem de pretexto à produção de efeitos completamente estranhos à sua natureza originária. Cada época serve-se do passado como de uma criada de cama e mesa, aproveitando-se dela para suas próprias finalidades, com o descaramento do grão-senhor que se deleita no corpo da escrava sem ter na mais mínima conta os desejos da sua alma.

O exemplo mais característico é a Revolução Francesa. O que, dela, mais veio a exercer influência sobre o mundo não foram os fatos ou idéias dos quais ela se constituiu efetivamente, mas um mito criado a posteriori por Karl Marx, o modelo denominado “revolução burguesa”. De acordo com este modelo, o crescimento da economia capitalista no Ancien Régime foi de tal monta, que exigiu uma reestruturação geral do sistema de propriedade e, conseqüentemente, a mudança da ordem jurídica; os aristocratas reagiram à mudança necessária e, em decorrência, foram para a guilhotina, inaugurando-se então a época burguesa. Em parte por sua elegância geométrica, em parte por dar ao movimento socialista o pretexto ideal para que se apresentasse como o inevitável capítulo seguinte da história, esse esquema entrou no vocabulário corrente das discussões políticas, foi absorvido nos livros didáticos e acabou por se apossar de todas as mentes ao ponto de passar, hoje, por uma verdade óbvia e autoprobante. Em seu nome fizeram-se novas revoluções, criaram-se países e correu sangue em quantidades que o próprio Robespierre, se as visse, desmaiaria de horror.

No entanto, a pesquisa histórica jamais deu a mínima confirmação científica à crença de que a Revolução Francesa foi uma luta de classes, muito menos a luta vencedora da burguesia em ascensão. Para começar, os aristocratas, malgrado seus preconceitos seculares contra o comércio e a indústria, já eram os maiores capitalistas antes da Revolução e continuaram a sê-lo depois dela. Em segundo lugar, as reações mais violentas ao novo regime não vieram da aristocracia, mas dos camponeses, em parte sob a inspiração da Igreja, cujos bens haviam sido confiscados em proveito dos capitalistas mais ricos que podiam comprá-las, isto é, em última análise, principalmente dos aristocratas, e só secundariamente dos novos capitalistas sem títulos de nobreza. Basta olhar o número de marqueses, condes e barões entre os donos das grandes indústrias e bancos para perceber que quem manda na França ainda são os mesmos senhores de antes de 1789. Os burgueses, é claro, estão lá, mas não em proporções substancialmente maiores do que no Ancien Régime. A única classe que efetivamente subiu, com a Revolução, foram os intelectuais: a constituição do novo sistema universitário e da indústria editorial moderna deu a eles a posição de soberania com que haviam sonhado durante o “século das Luzes”. E as únicas classes efetivamente lesadas foram os pequenos camponeses e os padres, aqueles sendo subjugados pelo Estado burocrático e espoliador, estes perdendo, junto com os bens da Igreja, todo vestígio de autoridade. Se fosse possível equacionar em termos de classes o que se passou na Revolução, o mais certo seria dizer que ela foi a luta dos aristocratas, capitalistas e intelectuais contra a Igreja e o povo, aquela sendo virtualmente excluída das classes dominantes, este tendo sua fúria aplacada pela ilusão dos direitos políticos outorgados como compensação pela perda dos antigos privilégios regionais e corporativos — um péssimo negócio, se considerarmos que a Inglaterra, respeitando até hoje esses privilégios, pôde construir com base neles uma autêntica democracia, enquanto a França revolucionária se precipitava numa seqüência alucinante de crises, golpes, revoluções, morticínios e ditaduras, para só no fin de siècle conseguir estabilizar, mal e mal, um regime democrático.

Se a Revolução Francesa, tal como foi na realidade, houvesse determinado o curso dos acontecimentos na Europa e nas Américas, fatalmente o centro produtor dessa mudança decisiva, a França, teria assumido as rédeas da História e se tornado a potência dominante no mundo. No entanto, desde a Revolução, a França não fez senão recuar perante a Inglaterra, a Rússia, a Alemanha e os Estados Unidos, até tornar-se hoje uma pseudopotência acovardada e servil, que vive das ilusões do passado e ridículas encenações de soberania.

Isso mostra que o fator decisivo, na produção dos efeitos da Revolução, não foi a verdade histórica do que se passou na França, mas sim o mito da Revolução burguesa, inventado por um alemão e bem aproveitado por americanos, russos e chineses.

Vista sob o ângulo da História das Idéias — que é a história das aparências –, a França moderna pode parecer um grande centro produtor do acontecer histórico, digno da inveja dos pobres países marginais em cujas opiniões ninguém fora deles jamais prestou atenção. Mas será mesmo invejável a sorte de um país com cuja História os outros fazem o que querem, mutilando-a, desfigurando-a e inventando-a a seu belprazer para usá-la em proveito próprio, enquanto ele próprio vai sendo, aos poucos, atirado à lata de lixo do esquecimento? Não será bem melhor o destino do país que, ignorado pelos outros, não se torna a vítima de uma auto-imagem ilusória inventada desde fora e pode, portanto, conservar suas idéias claras e seu autodomínio intelectual?

Compreenda o Timor Leste

por Mendo Castro Henriques

18 de setembro de 1999

O governo português abandonou Timor em 1975. A conjuntura da época é hoje mais clara. As Forças Armadas foram para Timor para promover os 3 D’s — descolonização, democracia, desenvolvimento — mas tingidas pelas cartilha marxista. O governador enviado, e primeira figura militar, era o então Coronel Lemos Pires, prometedor oficial de estado maior com uma missão talvez impossível. Na sua equipe contava-se o depois vice-ministro comunista dos governos provisórios vermelhos, o Tenente-Coronel Arnão Metelo.

Nascem em Timor-Leste partidos políticos, alguns dos quais advogam a integração na Indonésia. As divergências degeneram em confrontos armados. Entretanto, as Forças Armadas portuguesas entregaram armas de guerra modernas e munições à resistência timorense, então FRETILIN, hoje FALINTIL, onde Xanana Gusmão era um membro apagado do comité central. Tentaram substituir a liderança dos liurais, chefes tradicionais, por líderes eleitos “democraticamente”. Uma grande parcela de timorenses mais tradicionais se revoltou contra os marxistas com o apoio dos movimentos UDT e APODETI, sendo algumas das armas fornecidas pela polícia portuguesa do Capitão Maggioli, anti-comunista.

Cumprida o que era sua missão de deixar cair o poder na rua para que a FRETILIN dele se apoderasse, os militares portugueses evacuaram dia 26 de Agosto de 1975 para a ilha de Ataúro e depois para Portugal. Não foi bonito. Timor está a 11 horas de fuso horário de Lisboa, e na realidade está tão longe de todos e tão perto da Indonésia…

A guerra civil alastra por todo o território e enquanto se multiplicam as ameaças de intervenção indonésia, a Fretilin, liderada por Nicolau Lobato, expulsa de Díli os movimentos rivais da União Democrática Timorense e Apodeti e proclama unilateralmente a República Democrática de Timor-Leste, em 28 de Novembro de 1975, tendo como Presidente Francisco Xavier do Amaral.

Havia indicações ténues dos serviços militares de que Indonésia interviria mas não foram levadas a sério no plano português. Especula-se hoje se o PC da URSS e o PC português de então contariam com o Vietnam para cumprir o papel de cubanos da Ásia. Em 25 Abril de 1975 os vietnamitas entravam em Saigão e poderiam fazer novos focos revolucionários na Ásia, como os cubanos na Etiópia e em Angola. Era a idade de ouro do expansionismo soviético.

Sucedeu então uma santa aliança anti-comunista de EUA, Austrália e Indonésia. O General Suharto que liquidara 500.000-600.000 indonésios comunistas pró-Sukarno, aquando da sua tomada de poder, não iria permitir um mini-comunismo à sua porta. Atenção, o exército indonésio é um exército de guerra civil. Nunca defrontou outra nação. Suharto mandou invadir o pequeno território de Timor-leste. Em 7 de Dezembro de 1975 Tropas indonésias desembarcam em Díli e, nos dias seguintes, atravessam a fronteira e ocupam todo o território. Ignorando resoluções da ONU e tornou-o depois a “27ª província indonésia”. Até ver. A Austrália foi o primeiro e único país a reconhecer a anexação. Sabia-se já do Petróleo de Timor Gap que alguns comparam ao de Cabinda pelas suas ricas propriedades que o tornam importante para distilar combustível de aviação. Em 1989, a Austrália e a Indonésia assinam um acordo para exploração do petróleo no mar de Timor. Henri Kissinger, sempre pródigo em vacinas sangrentas preventivas nos outros, considerou que cinco semanas bastariam para resolver o assunto, segundo documentos publicados em The Nation.

Seguiu-se um longo massacre de timorenses. Nos anos seguintes, estima-se que morrem dezenas de milhares em resultado de uma política de genocídio e assimilação forçada. A população fugiu para as montanhas, fora das áreas urbanas. Mas como é difícil assegurar a sobrevivência no mato — situação repetida agora em 1999 — a população bombardeada, esfomeada, vítima de doenças foi morrendo. Foram criados campos de concentração (como em 1999) para os que regressavam, atingindo o número de 200.000 pessoas como então admitiu Holbrooke, secretário de Estado americano.

Portugal apresentou protestos na ONU, então órgão terceiro-mundista, e conseguiu que fossem votadas resoluções que mantinham Timor como território sob a administração portuguesa in absentia. Era uma consolação moral e uma vitória do direito internacional que de pouco aproveitou aos timorenses. Mas em torno dela cristalizou uma verdadeira união sagrada portuguesa, da extrema direita à extrema esquerda, dos ex-colonialistas aos neo-libertacionistas que viam talvez no povo sofredor de Timor o avatar de todos os injustiçados que eles sentiam presentes no fim do último império colonial (europeu) o português. Timor passou a fazer parte do inconsciente português e é de justiça que foi Duarte de Bragança, uma das primeiras personalidades públicas a realçar o caso.

Depois, sucedeu o inesperado. A Fretilin aguentou-se. Como os irlandeses do Norte desde Bloody Sunday. Com poucos homens mas esmagador apoio da população é possível fazer sobreviver uma guerrilha mesmo que insignificante militarmente como a Fretilin. Os líderes morreram, nasceram outros líderes. Xanana (José Alexandre) Gusmão afirmou-se a partir de 1979, começando a percorrer o território com um mini-grupo de 50 homens, procurando agrupar outras forças e iniciando a guerrilha contra o ocupante indonésio. A 10 de Junho de 1980 estavam em condições de atacar posições militares em Dili. Em resposta, o exército indonésio volta ao ataque. O resultado é um empate. Em 1981 Xanana é eleito líder da Resistência timorense, culminando um processo de reagrupamento de forças. Em 1983 os indonésios pedem conversações. O coronel Purwanto dialoga com Xanana em Março de 1983, e este exige a auto-determinação. O comandante indonésio e substituído pelo general Murdani que promete liquidar a resistência timorense até 5 de Outubro, dia das forças armadas indonésias, ou ABRI. A Indonésia inicia a política de “transmigração”, instalando em Timor-Leste habitantes de outras ilhas.

A luta continua mesmo sem apoios do exterior. Os timorenses são povos guerreiros e as armas capturadas ao inimigo são o mínimo suficiente. Em 1987, as Falintil são despartidarizadas e no ano seguinte é criado o Conselho Nacional da Resistência Maubere. Mário Carrascalão, nomeado governador pelos indonesios pratica uma politica do prato de lentilhas e de melhoramentos materiais. Solicita a entrada de capitais indonésios para criação de emprego para os jovens timorenses. A pressão internacional abre o território aos compagnons de route do capital: alguns turistas e jornalistas, nem todos pró-indonésios. Os timorenses aproveitam as oportunidades para fazer reivindicações. A visita do papa João Paulo II a Dili em Outubro de 89 e a do embaixador americano a JAcarta em Janeiro de 90 e do Núncio Apostólico em Setembro do mesmo ano ocasionam manifestações pela independência que são duramente reprimidas. O dilema das autoridades é muito claro; ou reprimem os timorenses e se isolam ou então reprimem toda a população que vem para rua.

Em 12 de Novembro de 1991 o massacre do cemitério de Santa Cruz, em Díli, em que as tropas indonésias assassinam centenas de timorenses, é testemunhado por jornalistas estrangeiros. O mundo viu pela CNN as imagens daquele massacre e pela primeira vez em vinte anos a causa da independência de Timor e a denúncia do genocídio contra o povo de Timor-Leste tornou-se global. Xanana reitera o que sempre disseram todos os patriotas “Convém não esquecer a razão de ser profunda de cada povo: o orgulho de ser ele próprio”. Em Novembro de 1992, Xanana é capturado, em Díli, por tropas indonésias. Julgado em Maio do ano seguinte, é condenado a prisão perpétua. O Presidente Suharto reduz a pena para 20 anos de prisão, em Djakarta. A guerrilha nas montanhas continuou. Os timorenses nunca comeram o prato de lentilhas que os indonésios lhes davam. E passaram sete anos.

Entretanto, sucedera muita coisa. O muro de Berlim caíra. A aliança EUA-Indonésia Austrália era redundante e a insatisfação sofreu uma aceleração rápida. A Igreja católica continuou a fazer pressão pela emancipação dos timorenses. Em 10 de Dezembro de 1996, o bispo Ximenes Belo e José Ramos-Horta recebem, em Oslo, o Prémio Nobel da Paz; foi uma poderosa chamada de atenção do mundo para a violação dos direitos humanos em Timor-Leste. Ao longo de 1997, a comissão de Direitos Humanos da ONU aprova uma resolução condenando Jacarta, com algum peso para Nelson Mandela. O dinheiro governamental português nunca faltou à resistência timorense. Mas nada mudara na frente interna indonésia. A Indonésia reforçava o seu dispositivo militar em Timor-Leste. Uma minha antiga aluna timorense disse-me uma vez “Que se pode esperar de um país em que a palavra ‘liberdade’ se diz merdeka”?

Os argumentos morais apenas calaram fundo quando, em termos sérios para os senhores deste mundo, a Indonésia foi gravemente atingida a crise dos mercados asiáticos. Era uma crise de há muito antecipada por vozes como a da Transparência Internacional que alertavam que a corrupção desequilibrava o crescimento dos tigres asiáticos. Caiu a confiança dos mercados e das entidades financeiras multinacionais. Em Maio de 1998, Suharto é forçado a demitir-se depois de meses de revolta popular ateada pela profunda crise económica. O novo Presidente indonésio, Iussuf Habibie, lança reformas democráticas. Em Janeiro de 1999, Portugal e a Indonésia abrem secções de interesses nas duas capitais. Em 5 de Maio, os ministros dos negócios estrangeiros de Portugal e da Indonésia e o secretário-geral da ONU assinam um acordo para a realização de um referendo de autodeterminação em Timor-Leste, sob a égide das Nações Unidas.

É um ponto misterioso sobre o qual ainda falta informação. Por que razão o presidente Habibi decidiu-se pela abertura democrática em Timor ? Habibi era um seguidor de Suharto que era um general de Sukarno. E está por decidir-se o que os generais de Habibi, como Wiranto, farão do actual presidente. Mas o certo é que Habibi permitiu a realização de um referendo com observadores da ONU enquanto o exército de ocupação indonésio permitia e acalentava uma onda de terrorismo desencadeado pelas milícias pró-indonésias. Formam-se milícias armadas — AITARAK — em parte com elementos do exército de ocupação, em parte com outros indonésios, em parte com etnias da fronteira com Timor indonésio que ameaçam massacrar e destruir.

A 30 de Agosto de 1999 — 98,6% dos recenseados votam no referendo de autodeterminação. O resultado, anunciado às 9h (hora de Díli) de 4 de Setembro, é uma esmagadora vitória da independência, com 78,5% dos votos. O pequeno povo timorense uma vez mais surpreendeu o mundo. Os indonésios também. As milícias e o exército indonésio lançam imediatamente uma campanha de assassínios, deportações em massa, pilhagens e incêndios, forçando a população a refugiar-se nas montanhas e obrigando a ONU a deixar Díli. Desconhecemos números e esse inventário e começa a ser feito.

Rompeu-se então a máscara da aliança EUA Austrália Indonésia. A Austrália — que vai ser uma república em 2000 e está em Timor a liderar a INTERFET, a força multinacional — cumpre a sua primeira missão de poder emergente no Pacífico e regulador pró-americano dos conflitos regionais. O seu protagonismo fá-la intervir maciçamente em Timor e inverter 180º a sua política externa para com a Indonésia. Os Eua estão por detrás a apoiar. A França está por causa da Nova Caledónia. A Indonésia tem que salvar a face e Timor é apenas uma pequena dor de cabeça para os 270 milhões de ilhéus, muçulmanos e cristãos. Tudo isto é previsível.

O que pode continuar a surpreender é o pequeno povo timorense. Ele tem um papel histórico a cumprir: o de demonstrar que os bens se começam a conquistar pela força dos valores morais antes do poder desordenado. Creio decisivo para Timor ser um povo lusófono, de falar e sentir o português que o projecta numa área cultural global e que o abre para além das suas pertenças regionais imediatas; como é decisivo a pertença cristã que o projecta numa área que cria por vezes expectativas que não se podem cumprir. Por tudo isto, é viável a independência de Timor dentro das suas pertenças lusófonas longínquas e pacíficas próximas. Miticamente, creio que se trata de um pequeno povo corajoso que não comeu o prato de lentilhas que lhe ofereceram e, como Jacob, emerge vitorioso das suas terríveis provações.

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