Yearly archive for 2000

A nação contra o crime, ou: primor de inocuidade

Olavo de Carvalho

Época, 24 de junho de 2000

O Plano Nacional de Segurança Pública divide-se em medidas irrelevantes e decisões suicidas

Metade dos itens que o presidente da República destacou ao anunciar seu plano de combate à criminalidade não tem nada a ver com criminalidade.

Ninguém pode ser contra a iluminação de periferias e favelas, mas bilhões de watts ligados não me farão ver que dano ela poderá trazer às gangues que ali exercem seu poder em plena luz do dia.

Centros de esporte e lazer inseridos num plano de combate ao crime subentendem a teoria – do eminente psicólogo doutor Leonel Brizola – de que as pessoas se dedicam a matar seus semelhantes porque não têm onde jogar futebol.

Preenchimento de vagas em repartições ou providências gerais sob o nome de “modernização” e “reaparelhamento” são medidas cíclicas, independentes do aumento ou do decréscimo do número de crimes.

A impressão que me fica é que o governo simplesmente ciscou idéias esparsas que já estavam para ser adotadas em vários campos e, diante da comoção nacional com a pletora de crimes, as reuniu às pressas sob a enfática denominação geral de Plano Nacional de Segurança Pública.

O plano só abandona o campo da perfeita inocuidade para entrar no das decisões temerárias e virtualmente suicidas, das quais duas são atordoantes. Proibir o registro de armas é o mais formidável incentivo já recebido pelo comércio ilegal desses instrumentos. A utilização direta das Forças Armadas no combate ao crime é ela própria um crime, que arrisca desmantelar o que resta dessas instituições.

Devotado a minhas funções de análise e crítica, odeio dar palpites na busca de soluções, mas a confusão na área de segurança já chegou a tal ponto que não resisto ao impulso de sugerir algumas coisas. Por exemplo: em vez de rebaixar as Forças Armadas a elemento auxiliar das polícias, o governo deveria restaurar imediatamente a Inspetoria-Geral das Polícias Militares, que serviu para inibir significativamente a corrupção policial. Em vez de proibir o comércio de armas, seria preciso incentivá-lo, condicionando a concessão do porte ao compromisso do usuário de submeter-se a treinamento especializado para servir, quando convocado, de auxiliar em operações policiais em sua área de residência. Isso disseminaria entre os cidadãos o senso de responsabilidade pessoal pela segurança pública, além de afastar da tentação das armas os ineptos e despreparados.

Acho que essas idéias podem ser úteis. Mas podem estar erradas, e aliás não são o essencial. O essencial e certo depende de nós, jornalistas, escritores, intelectuais, professores, artistas – os gerentes do imaginário coletivo e dos valores que movem a História. Se cada um de nós não fizer um exame de consciência, distinguindo em palavras e ações o que é desejo sincero de combater o banditismo e o que é intuito camuflado de incentivá-lo para em seguida fazer dele um pretexto de crítica pérfida, uma arma para a derrubada das instituições e para a instauração de nossas lindas utopias, nós nos tornaremos, se é que já não somos, uma poderosa causa secreta da ascensão imperial do crime. E nenhum plano policial nos impedirá de, para cada bandido preso, espalhar mais dez ou 20 pelas ruas.

Um acerto de contas com a astrologia

Entrevista de Olavo de Carvalho a Roberta Tórtora

Porto do Céu, Recife, junho de 2000

Como a Astrologia contribuiu para a sua formação?

Muito. Não existe possibilidade alguma de entendimento de qualquer civilização antiga sem o conhecimento da Astrologia. O modelo de visão do mundo baseado nos ciclos planetários e nas esferas esteve em vigor durante milênios e isto continua a estar, de certo modo, no “inconsciente” das pessoas. Apesar de algumas deficiências no modelo astrológico, foi ele quem estruturou a humanidade pelo menos a partir do império egípcio-babilônico, o que significa, no mínimo, cinco mil anos de história. A Astrologia é um elemento obrigatório, por isto quem não a estudou, não estudou nada, é um analfabeto, um estúpido. O trabalho mais vigoroso nas ciências humanas do século XX, por exemplo, só aconteceu depois da existência do Instituto Warburg, fundado em Londres por um milionário judeu fugido da Alemanha, que juntou, durante 20 anos, as melhores cabeças do século em torno de uma coleção de manuscritos astrológicos e alquímicos. Sem este estudo, a comunidade acadêmica nunca teria qualquer possibilidade de compreensão real das civilizações antigas.

Quais as conseqüências da perda deste conhecimento em nosso tempo?

A conseqüência é simplesmente não entender mais o passado. Se alguém não entende as civilizações antigas, não sabe mais onde está. É uma amnésia.

Como foi que o Sr. entrou em contato com a Astrologia?

Foi uma casualidade. O Dr. Müller contratou-me na época em que eu trabalhava no Jornal da Tarde para redigir um curso de psicologia baseado em astrologia, já que era argentino e não dominava muito bem o português. Depois destas aulas, um mundo sem limites se abriu para mim.

Qual é a sua relação com a Astrologia hoje?

O meu acerto de contas com a astrologia foi o curso “Astrocaracterologia”, uma espécie de conclusão que tirei dos meus vinte anos de estudo e que fechou a minha contribuição para o assunto. Eu equacionei a Astrocaracterologia de tal modo que, para avançar de onde parei, só mesmo a pesquisa experimental. Para se formar uma ciência, é preciso levantar uma série de conceitos; destes conceitos, tirar hipóteses; das hipóteses, um método e dos métodos, as pesquisas. A parte teórica eu pude concluir, mas daí para frente, a Astrocaracterologia deixou de ser problema teórico para ser de investigação científica. Eu não tenho condições de dar continuidade a estas pesquisas porque precisaria de tempo, gente e dinheiro. Voltar a mexer neste assunto só me deixaria desesperado, porque eu não poderia realizar as investigações necessárias para responder as questões que levantei.

É possível resgatar a Astrologia tradicional nos dias de hoje?

Não sei. Isto é um tremendo abacaxi. Primeiro: não existe uma só astrologia tradicional, mas milhares. Quando falamos “tradicional”, estamos nos reportando a certas épocas, onde esta Astrologia estava integrada completamente nas civilizações. Se a pergunta é “nas condições da nossa sociedade, é possível produzir uma astrologia tradicional?”, a resposta é “não“. Precisamos retomar o estudo astrológico de um outro plano, para estruturar uma ciência. Só que não fizemos nem uma coisa nem a outra. Os astrólogos não fizeram porque têm preguiça e os outros, porque têm preconceito. Só quem se interessou realmente pela Astrologia foram historiadores e filólogos, cuja função não é desenvolver a Astrologia, mas estudar o que ela foi e qual o lugar dela nas civilizações antigas. Estes fizeram a sua parte e levaram a coisa a sério.

O trabalho dos astrólogos, então, seria pesquisar junto aos textos antigos e desenvolver a astrologia enquanto ciência, já que é impossível o resgate da astrologia tradicional?

Eu não diria que esta é a única possibilidade. Você não imagina como esta sua pergunta é difícil. A resposta é: não sei (risos). Não sei.

O Sr. afirma no seu livro “Astros e Símbolos” que não é possível a compreensão da Astrologia sem a prática de um esoterismo vivente, só alcançado através de um compromisso com um exoterismo ortodoxo. É neste sentido que é impossível a compreensão desta e de outras ciências tradicionais em nosso tempo?

A própria descrição de esoterismo e exoterismo, que levei a sério por muito tempo, eu não aceito mais. Ela não é suficiente, é muito pobre, apesar de poder ser válida. Esoterismo e exoterismo são conceitos que só se aplicam tal e qual no conceito islâmico, onde existe uma fronteira, uma lei exotérica clara que funciona para todo mundo, e organizações esotéricas, que são para os que estão interessados. Esta fronteira, tão clara no mundo islâmico, não existe no mundo cristão e em outras tradições. Como é que podemos falar em esoterismo e exoterismo no contexto budista, por exemplo? Na obra de René Guenon, ele aplica este conceito a todas as tradições, mas isto é uma espécie de “islamização” das religiões e o próprio Guenon estava consciente disso.

A Astrologia, então, pode ser resgatada num contexto cultural, mas não a astrologia tradicional?

A Astrologia esteve integrada de algum modo às tradições, mas hoje em dia não temos mais tradição espiritual nenhuma. Temos, sim, uma devastação. Como é que podemos recuperar somente a Astrologia, se ela é apenas um pedaço do equipamento? Só podemos no sentido de estudo histórico, de compreensão do passado ou então sob uma forma de ciência, do modo como as ciências hoje são compreendidas.

Esta visão que o Sr. tem hoje é diferente da apresentada nos seus livros sobre Astrologia.

Os três livros que escrevi sobre Astrologia foram redigidos para um grupo de pessoas que estavam metidas até a goela no esoterismo islâmico. Para entender-se o que está escrito, é preciso saber para quem foi escrito. Nada do que está ali pode ser transposto para um público geral sem que sejam feitas as devidas conversões. Se eu fosse reeditar estes livros, no lugar de uma página, teria que escrever trinta. Com estas perguntas, você não tem idéia da complicação que me arrumou (risos). A maior parte das coisas que está me perguntando, eu terei que responder “não sei”. São talvez as questões mais espinhosas da nossa civilização e, no entanto, tem gente que dá palpites sobre elas a torto e a direito.

Esta perda das tradições espirituais tem alguma coisa a ver com a era de Aquário?

A era de Aquário é exatamente isto, a era da farsa, e já estamos nela. O Anticristo já está aí. Hoje, através dos meios de comunicação, é possível que dez pessoas mintam simultaneamente para bilhões e a farsa fica estabelecida.

Existe alguma espécie de compensação para os homens que estão vivendo na nossa época?

Sim. As pessoas são julgadas com menos severidade. Deus, nesta época, suporta coisas que em outros tempos não suportaria. Nós estamos conversando sobre coisas aqui que, no passado, demoraríamos uns vinte anos para compreender, só depois de rezar muito. Hoje não precisamos passar por diversas práticas ou rituais de iniciação para compreendermos uma série de coisas. Esta é uma espécie de compensação natural ou sobrenatural, da mesma forma que o julgamento de Deus sobre as almas torna-se muito mais brando. Se você está no meio da confusão geral e ainda está tentando descobrir o que é o certo, no meio de pessoas que não sabem mais distinguir o bem do mal, então você já fez muito.

O Sr. não utiliza os planetas Urano, Netuno e Plutão em suas análises astrológicas. Acha impossível estabelecer um simbolismo correto para estes planetas?

Não sei. Deixei este assunto de lado, porque achei que ele era mais um abacaxi. Se há alguém que não pode opinar sobre o assunto, este alguém sou eu. Não atendo para leitura de mapas há uns vinte anos, mas foi exatamente depois que deixei de trabalhar profissionalmente que comecei a estudar mesmo a astrologia. Se você está em dúvida a respeito de tudo e mexendo nos pilares de uma ciência, não tem como trabalhar com ela no campo da prática diária. Não dá para desmontar um carro e andar nele ao mesmo tempo. O questionamento teórico da Astrologia é muito profundo. Não utilizei Urano, Netuno e Plutão porque percebi que isto me colocava perguntas muito mais complicadas do que aquelas com que eu estava lidando, utilizando apenas os sete planetinhas.

O que o Sr. pensa das interpretações atribuídas a estes planetas descobertos nos últimos séculos?

Urano, por exemplo, recebe uma interpretação já muito ligada ao próprio espírito moderno. Certas organizações esotéricas agem, ritualmente, no sentido da interpretação que elas próprias atribuíram ao planeta. Os ciclos destes astros começam a trabalhar mais neste sentido, porque são reforçados pela ação humana. Eu não acredito, realmente, que um planeta possa trazer a ideologia da revolução francesa. Agora, quando se quer realizar uma grande mudança no mundo, saber da existência de um novo planeta pode ser maravilhoso, já que possibilita a realização de toda uma reinterpretação da história, com base nos significados que você mesmo quis atribuir a ele. Acontece a mesma coisa com Netuno e Plutão, mas isto não quer dizer que estas interpretações não funcionem, porque parcialmente estes efeitos podem corresponder ao dos planetas, embora sejam apenas uma parte destacada do significado total daquele astro. Até o sétimo planeta, os astrólogos contavam com uma interpretação estável entre várias civilizações e não dá para justificar estas interpretações apenas como produto ideológico de tais civilizações. Mas nestes últimos, você tem interpretações específicas da astrologia ocidental, feita quase que totalmente por sociedades secretas. Essas interpretações não tem universalidade, apesar de poderem ser parcialmente válidas. Acho que somente lá perto do século XXV que será possível entender este problema. A gente pode perguntar tudo, mas não ter todas as respostas de uma vez.

A astrologia está, então, numa encruzilhada?

Sim, ela está em uma confusão miserável. Nunca um século foi tão difícil de ser entendido contemporaneamente como este. Nós estamos vivendo numa era verdadeiramente terrível. O número de coisas que dá para saber e utilizar como orientação é muito pequeno. A humanidade sempre soube mais ou menos o que estava acontecendo, as decisões de reis e príncipes não eram mistérios inimagináveis. Hoje são. As pessoas poderosas estão distantes, cercadas por muros e muros de segredos e mentiras. Os instrumentos de ocultação são monstruosos. Mais do que na era da informação, estamos na da ocultação.

Diante de todas estas confusões incorporadas à Astrologia nos dias de hoje, ainda vale a pena falar sobre o assunto?

Se é para as pessoas entenderem o que está acontecendo, é claro que vale a pena. As discussões públicas sobre isto são muito problemáticas, e é preciso ter paciência para explicar tudo, o que numa entrevista é impossível. Vale mais é ensinar para aqueles que estão dispostos a estudar ao longo dos anos.

Sucesso total do I Congresso do Instituto Brasileiro de Humanidades

Hotel Mara, Vassouras, RJ, 17 e 18 de junho de 2000

Vista parcial da platéia.

Bate-papo no jardim do Hotel Mara.

Nelson Lehmann da Silva, Henriette Fonseca, Lúcia de Fátima Junqueira, Olavo de Carvalho.

O embaixador José Osvaldo de Meira Penna, presidindo a sessão, e o palestrante Fernando Manso.

Fotos de Wagner Wuo

Documentos do I Congresso do IBH

Série 1

A documentação do I Congresso do IBH será posta à disposição do público à medida que se torne disponível. Os resumos das palestras deverão aparecer aqui já nos próximos dias. A transcrição completa será publicada em livro e parcialmente reproduzida neste site. As fitas de vídeo, a cargo da É-Realizações, deverão estar prontas para distribuição dentro de algumas semanas.

I. Depoimento

ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

O Indivíduo, No. 15 – 23 de junho de 2000

Seria uma pretensão desmesurada minha resumir de forma adequada o que aconteceu no I Congresso do Instituto Brasileiro de Humanidades, ocorrido em Vassouras no último fim de semana. Acredito que maiores detalhes deverão ser disponibilizados nos próximos dias, inclusive as fitas das palestras e talvez até suas transcrições. Quero, pois, apenas dar uma idéia geral do que foi o congresso.

E, antes de mais nada, é preciso dizer que ele superou todas as minhas expectativas, tanto pela organização (considerando-se que foi o primeiro), quanto pelo altíssimo nível das palestras.

A idéia do Congresso era dar um panorama geral da obra do prof. Olavo de Carvalho, uma obra vastíssima, que se estende por praticamente todos os domínios do conhecimento humano, e, para tanto, o próprio professor escolheu oito temas centrais, apesar de deixar de lado outros temas igualmente importantes, como seus trabalhos sobre o simbolismo e sobre religiões comparadas.

Nenhum outro tema poderia abrir os estudos senão a pedagogia desenvolvida por Olavo, por sua vez decorrente de sua concepção da inteligência como “capacidade para apreender a verdade”. O tema foi muito bem apresentado por Ronaldo Castro de Lima Jr., apesar de ele ter sido chamado uma semana antes do Congresso para substituir a pessoa que inicialmente faria a palestra. Para os interessados no tema, um belo resumo das idéias pedagógicas do Olavo encontra-se no texto “Inteligência e verdade”, definido pelo próprio Ronaldo, em sua apresentação, como “preâmbulo iniciático” da filosofia do Olavo..

Estabelecido o conceito de inteligência, resta saber ainda como ela se desenvolve, isto é, estudar a psicologia humana. Os estudos do Olavo sobre assunto foram apresentados em duas palestras. Lúcia de Fátima Junqueira, em apresentação absolutamente brilhante, tratou do tema “A definição da psique e a astrocaracterologia”, mostrando como o Olavo foi buscar o conceito de psique subentendido em toda a diversidade de coisas que os psicólogos modernos dizem a respeito, e como, daí, ele partiu para o estudo do desenvolvimento do caráter no ser humano e, posteriormente, para uma tentativa de correcioná-lo com a figura do céu (daí o nome “astrocaracterologia”). Essa parte da obra é pouco conhecida por quem entrou em contato com o Olavo há pouco tempo, e não há nada publicado a respeito além do livreto O Caráter como forma pura da personalidade. Existem quilos de papel com transcrições de cursos sobre o assunto, e imagino que alguém deverá reuni-los e divulgá-los um dia.

A outra parte da palestra, com aplicações formidáveis em pedagogia, tratou do “Trauma da emergência da razão”, apresentado por Henriette Fonseca. A palestra foi uma grande novidade para mim, e parece que não há nem mesmo transcrições de aulas sobre o assunto, o que é lamentável.

O dito “trauma” é o momento no desenvolvimento cognitivo individual em que a intuição, que é a porta de entrada dos dados, encontra uma barreira onde não consegue penetrar; olha para algo e o encara não mais como substância, mas como pergunta. É aí que o sujeito busca elaborar uma síntese parcial temporária, a partir de sua experiência acumulada.

É evidente a importância do estudo dessa espécie de “ponto de partida” da racionalidade individual, inclusive porque os traumas cognitivos são muito mais importantes para o desenvolvimento do indivíduo do que os traumas afetivos, estes exaustivamente abordados pela psicologia moderna.

Depois da pedagogia e da psicologia, o que mais poderia vir senão a gnosiologia?

E, na palestra mais aguardada do Congresso, Fernando Manso apresentou com coerência e poder de síntese admiráveis as respostas do prof. Olavo às questões mais espinhosas da filosofia, como o fundamento da objetividade do conhecimento e as relações entre sujeito e objeto.

Essa gnosiologia, que é mais propriamente chamada uma “ontognosiologia”, será o tema do muito aguardado livro O Olho do Sol, ainda em fase de preparação, mas algumas de suas idéias centrais já podem ser encontradas na página do prof. Olavo, em textos como “Da contemplação amorosa”, “Kant e o primado do problema crítico”, “Descartes e a psicologia da dúvida”, “Ser e conhecer”, “A unidade de sujeito e objeto”, “Conhecimento e presença”, “Kant e a mediação entre tempo e espaço”, “Notas sobre simbolismo e realidade” e “Identidade e Univocidade”.

Uma observação: pela quantidade de textos que citei, já é possível perceber o valor do trabalho do Fernando, ao unificá-los e expor conceitos anteriormente expostos de forma esparsa sob uma perspectiva única.

A última palestra do primeiro dia foi proferida pelo próprio prof. Olavo de Carvalho, intitulou-se Da Anamnese ao Anagnorismos e versou sobre o “método anamnético” usado pelo prof. Olavo e que me perdoem mas não vou me aventurar a resumir aqui. Digo apenas que este método toma como modelo básico da certeza aquilo que apenas o indivíduo que os conhece testemunhou (os “atos sem testemunha” da frase que abre o site do Olavo) e, aumentando a consciência do indivíduo sobre a própria vida, os próprios atos exteriores e, principalmente, interiores, vai aumentando a sua confiança na própria inteligência para tratar de questões cada vez mais amplas, desde que ele as perceba como objetivamente importantes.

Claro que, a intuição sendo incapaz de ser expressa diretamente, mas apenas por seu reflexo discursivo, era necessário que, complementando a ontognosiologia e o método filosófico, o prof. Olavo desenvolvesse uma teoria do discurso. Ele não a desenvolveu propriamente, mas a descobriu implícita em Aristóteles, estabelecendo uma nova chave interpretativa para o sistema aristotélico.

A excelente palestra do nosso caríssimo amigo e freqüente colaborador Alexandre Bastos teve, justamente, como tema a “Teoria dos Quatro Discursos”.

Essa eu posso me aventurar a resumir da seguinte maneira: o discurso humano é uma potência única, que se atualiza de quatro maneiras diversas (i.e., segundo um determinado esquema de possibilidades), a poética, a retórica, a dialética e a analítica, que se distinguem entre si por seus níveis de credibilidade, que são, respectivamente, possível, verossímil, provável e certo.

O básico da teoria foi expresso no livro Aristóteles em nova perspectiva, lançado pelo prof. Olavo há uns três anos (um de seus capítulos está disponível em português e em francês). Mas Alexandre fez mais que repetir as explicações desse livro. Ele mergulhou nas centenas de páginas de transcrições de aulas do Olavo sobre o assunto, e daí extraiu uma maneira original de expor a importância da teoria e a demonstração de sua veracidade. De quebra, atacou as pretensões totalizantes da “nova escola de retórica” de Chaim Perelman e do formalismo lógico de Wittgenstein.

Ainda dentro da teoria do discurso, Pedro Sette Câmara, que dispensa apresentações, foi o responsável pela exposição dos “Fundamentos metafísicos dos gêneros literários”, teoria dos gêneros literários apresentada no livreto Os fundamentos metafísicos dos gêneros literários e definida pelo próprio Pedro, em sua palestra, como a única além da de Northrop Frye (à qual não se opõe, apenas enfoca o assunto de outra maneira) a propor seriamente uma resposta a respeito do que são realmente os gêneros literários.

O modo de existência dos gêneros literários é definido por Olavo como sendo esquemas de possibilidades que balizam as elocuções, da mesma maneira que as direções do espaço balizam a caminhada. São os modos de elocução.

Pertencendo ao mundo humano, são delimitados pelas mesmas condições que delimitam este: tempo, espaço e quantidade. Dessas determinações, e seus sucessivos entrecruzamentos, são deduzidos os diversos gêneros, sendo, por exemplo, o gênero narrativo decorrente do tempo, o gênero expositivo do espaço e o gênero lírico do número.

A palestra a seguir iniciou o tema geral da “filosofia da ação”, começando do começo: a filosofia da ética, apresentada por este que vos escreve.

Meu trabalho foi, essencialmente, o de coerenciar e reunir demonstrações que tinham sido dadas pelo prof. Olavo em textos e aulas esparsas, sendo que o núcleo do tema se concentrava no “curso de ética” pronunciado no Rio de Janeiro em 1994.

Se eu tivesse escrito um texto para a palestra, com certeza o disponibilizaria aqui, mas fiz apenas apontamentos e um conjunto de citações, que acabariam servindo mais para confundir que para esclarecer.

Dividi a palestra em quatro partes, cada uma delas, por sua vez, dividida em seções:

I- O objeto da filosofia ética, i.e., do que trata a filosofia moral ou ética? O mais importante, neste ponto, era distinguir a filosofia moral das diversas morais sociais, e identificar onde se manisfesta o problema ético.

II- A autoconsciência como fundamento da moral. Neste ponto, mediante rigorosa análise do cogito cartesiano, mostrei, seguindo o Olavo, a absoluta necessidade do princípio de autoria e de que forma ele fundamenta a moral.

III- Resposta às objeções kantianas à objetividade do conhecimento moral.

IV- A materialidade da moral baseada no princípio de autoria, que, embora pareça ser puramente formal, como diria Kant, na verdade, aponta (e fundamenta objetivamente este apontamento) para um valor moral muito claro: a unidade do sujeito.

Tenho certeza de que algum dia o “curso de ética” será revisado e publicado. Mas os princípios básicos dessa exposição estão na terceira parte do texto “Da contemplação amorosa”, bem como no capítulo do Jardim das Aflições sobre a “ética de Epicuro”.

A filosofia da ação continua na investigação sobre “natureza e formas do poder”, definido como tema nuclear das ciências sociais. Esta parte da filosofia política do Olavo foi bem apresentada por Luciano Saldanha Coelho, que seguiu a linha de demonstração dos textos do próprio Olavo sobre o assunto.

Essa linha é basicamente a seguinte: poder é possibilidade concreta de ação; ação é transformação deliberada de um estado de coisas; ação no sentido político é determinar voluntariamente as ações de outrem. Agir, no sentido estrito, é produzir obediência. Os tipos de poder decorrem, então, das motivações objetivas da obediência, que são três: a força física, o dinheiro e o carisma, sendo mais efetivo o poder quanto menos ele estiver “no” indivíduo.

Daí decorrem os modos do poder e suas divisões, com a teoria reformada das castas, que aplica os conceitos hindus de castas à sociologia, definindo as castas como o esquema geral dos modos de atuação dos indivíduos.

Dito assim, é difícil entender a importância dessas observações e a extensão de suas aplicações; isso só ficará claro para quem leia os textos inteiros. Mas algumas dessas aplicações podem ser encontradas no próprio Jardim das Aflições e nos artigos de jornal em que o prof. Olavo analisa a situação política do Brasil e do mundo. Eu mesmo, dentro das minhas muitas limitações, tenho tentado aplicar esses princípios à análise política.

A palestra que encerrou o Congresso foi cercada de suspense, porque não sabíamos se o Marcelo De Polli (webmaster da página do Olavo e expositor com enormes recursos didáticos, que não teve condições de usar), encarregado dela, teria condições físicas de apresentá-la, por ter sido tomado por uma forte febre dois dias antes da apresentação. Na hora, Marcelo acabou aparecendo e, com muitas dificuldades para falar, apresentou a palestra sobre a filosofia da História do Olavo, que parte da pergunta “quem é o sujeito da História?”.

Ora, estão sempre contando a história, mas nunca se definiu claramente a história de quem. Para ser sujeito de qualquer ação, é preciso que o ente preencha as seguintes condições: unidade substancial, unidade autoral e unidade subjetiva. Basta observar isso para notar que a história não pode ser história das classes sociais, porque estas não têm unidade autoral, nem das raças, nem das nações, pelo mesmo motivo.

De quem, então, é a história? Disse Marcelo, resumindo o Olavo: “o sujeito da ação histórica deve, ao mesmo tempo, transcender a duração da vida individual e ter unidade substancial, autoral e subjetiva.”

Não vou continuar a demonstração do Olavo, exposta pelo Marcelo, porque isso requereria que eu entrasse em inúmeras questões sobre ação histórica, mas vou dizer apenas que é possível ver o método decorrente dessa filosofia em ação no Jardim das Aflições, que usa a idéia do “império” como chave explicativa para a história da cultura nos últimos dois milênios, e desenvolve essa idéia mostrando a ação dos diversos sujeitos históricos.

O Congresso terminou aí, e foi um grande sucesso. Tanto que o próximo já está sendo organizado.

 

 

II. Anotações de Olavo de Carvalho

Feitas durante as palestras e projetadas na tela.

 

1. Inteligência, verdade e certeza

Ronaldo Castro de Lima Jr.

  1. Preâmbulo iniciático
  2. Evidência
  3. Verdade não é quantidade, é qualidade
  4. Parcial não quer dizer falso
  5. Função sintética do intelecto
  6. Virtude dianoética – conhecimento dos princípios
  7. Devolver a cicuta aos atenienses
  8. Integridade do conhecimento e do sujeito
  9. Moral, admissão da verdade
  10. Verdade como domínio, âmbito, a um tempo, do inteligir e do ser (viver)
  11. Intimidade do sujeito consigo próprio
  12. Tensão necessária a conhecer a verdade
  13. Amor e magia
  14. Inteligir e integridade – coincidência entre estrutura do sujeito e do mundo
  15. O texto é um guia para o iniciante.
  16. Conhecimento não é mero processo formal
  17. Dizer as coisas como são. O ser é medida da verdade. Logo, a verdade é uma dimensão do ser.
  18. Bondade e inteligência.

Observações dos ouvintes

MARCELO DE POLLI

O ambiente acadêmico e as condições existenciais do conhecimento da verdade.

LUCIANO SALDANHA COELHO

O problema da verdade e a verdade do problema (v. exposição Fernando Manso).

NELSON LEHMAN DA SILVA

Pressupostos. Comunicação. A verdade é comunicável?

VERA MÁRCIA

Comunicação superior-inferior num ambiente “inferior”. Função do “inferior”. Esoterismo e exoterismo.

ROMEU CARDOSO

Possibilidade da certeza.

NELSON LEHMAN

Aletheia. Verdade mostrada NA coisa.

 

2. A Definição da Psique e a Astrocaracterologia

Lúcia de Fátima Junqueira

Henriette Aparecida da Fonseca

  1. A DEFINIÇÃO DA PSIQUE

Lúcia de Fátima Junqueira

  1. Psicologia, biologia e cosmologia – Aristóteles
  2. Definição mais estreita do campo – psicologia experimental – séc. XIX
  3. Fenômenos psíquicos e ser da psique.
  4. A psique individual como tema autônomo – cristianismo.
  5. Estudo científico da individualidade – Freud e Klages.
  6. Quid est?
  7. Dois tipos de definições correntes: (a) aristotélicas (cosmológicas); (b) por enumeração de fenômenos.
  8. Método: hermenêutica do discurso dos psicólogos.
  9. Que outras causas um ato humano pode ter (não psíquicas)? (a) Físicas; (b) Lógicas; (c) Acaso. A psique é o 4º tipo de causa.
  10. Causa e necessidade – física e lógica.
  11. Acaso – multiplicidade inabarcável e irreconstituível de causas.
  12. Causas psicológicas agem através das outras três e não diretamente.
  13. Psique = zona de indeterminação onde as demais causas se combinam.
  14. Eficiência, liberdade, individualidade, criatividade, vontade de poder = características da psique.
  15. Eficiência – proveito do organismo individual.
  16. Liberdade – combinação de fatores. Diferença entre liberdade e acaso.
  17. Psique é fenômeno da ordem da liberdade e não da necessidade.
  18. Criatividade – combinações sui generis.
  19. Individualidade – Não há psique em geral.
  20. Vontade de poder – expansionismo.
  21. Expansão através da retração = introjetar as causas físicas, lógicas e acidentais.
  22. O homem coere as formas de limitação numa auto-limitação chamada Ego.
  23. Memória – abstração e generalização = imagem do mundo.
  24. Organização lógica e cronológica. Contar a própria história = Ego.
  25. Ego = limitação autobiográfica da psique, segundo cortes moldados nas demais necessidades.
  26. Escolhas e perseverança = destino.
  27. SEGUNDA PARTE. Caracterologia x psicologia generalizante
  28. Unidade singular do sujeito x constantes gerais humanas
  29. Caráter = Marca indelével de nascença.
  30. Caracterologias comparadas e astrocaracterologia.
  31. Klages – Caráter = direções da atenção, valores e motivações.
  32. Captação da individualidade é intuitiva, não se faz por quadros de classificação.
  33. Szondi.
  34. Le Senne.
  35. Caráter como estabilização progressiva.
  36. Jung = abordagem cognitiva do caráter.
  37. Astrocaracterologia – isolar dos demais o fator astrológico do caráter.
  38. Compatibilidade caracterologias-horóscopo.
  39. Hereditário e cultural – Isolar.
  40. Há algo que não é nem natural nem cultural = você mesmo.
  41. Isso é o caráter em astrocaracterologia.
  42. As posições planetárias têm algo a ver com o caráter mas não o produzem; apenas delimitam as possibilidades que o compõem.
  43. Causa formal e eficiente.
  44. Caráter = condição formal da individualidade.
  45. Investigação fenomenológica e não causal.
  46. O “que” antes do “por que”.
  47. Caráter – fronteira entre o psíquico e o pré-psíquico.
  48. Critérios para a comparação entre os horócopos e os elementos fixos da personalidade constatados empiricamente.
  49. Horóscopo = figura estática do céu. Caráter = figura estática da individualidade.
  50. Casas astrológicas.
  51. Correspondência (não analógica) entre dois sistemas. Sistema solar : caráter em geral. Horóscopo : caráter individual.
  52. Diferenciação das potência cognitivas.
  53. Intuição (Sol) Sentimento (Lua) Fantasia (Vênus) Vontade Reativa (Marte) Vontade Pura (Júpiter) Razão (Saturno).
  54. Doze casas.
  55. Em que medida a comparação é possível. Dois relatos idênticos, obtidos por método (a) biográfico-caracterológico; (b) astrológico.
  56. Dois aspectos do estudo da psique segundo OC : estático (horóscopo-caráter), dinâmico (camadas da personalidade).
  57. Camada : foco temporário da psique.
  58. Passagem de camada a outra, por absorção – gênero e espécie.
  59. Doze camadas.
  60. Traços de caráter mudam de valor conforme a camada. 12 níveis de interpretação.
  61. Camada I – Caráter.
  62. II – Hereditariedade.
  63. III – Aprendizado, ambiente cultural e social.
  64. IV – História pessoal afetiva, valores individualizados pela experiência.
  65. V – Espaço Vital (Kurt Lewin).
  66. VI – Habilidade, domínio obtido pela autolimitação do espaço vital. Resultados, efetividade. Distribuição racional de energias.
  67. VII – Papel social. Expectativas ante o outro. Reciprocidade.
  68. VIII – Forma estabilizada da personalidade. Auto-avaliação ( = “caráter” segundo Le Senne).
  69. IX – Personalidade intelectual. Fins transpessoais. Autonomia da cobrança interior.
  70. X – Eu transcendental. Dever universalmente humano encarnado na individualidade. Certeza.
  71. XI – Responsabilidade histórica. Ser julgado pela humanidade. Fins históricos.
  72. XII – Responsabilidade perante o sentido da vida. Juízo Final. “Caminhar diante de Deus”.
  73. Pesquisa científica em astrocaracterologia.

 

2. O TRAUMA DE EMERGÊNCIA DA RAZÃO – Henriette Aparecida da Fonseca

  1. Barreira ao conhecimento intuitivo.
  2. Tripla intuição ( OBS – Depois eu explico).
  3. Potência cognitiva – faculdade cognitiva
  4. Trauma da emergência da razão
  5. Faculdade não é camada
  6. Psicopatologia
  7. Ciclos de Saturno : história do quadro racional pessoal
  8. Busca da certeza a partir da experiência acumulada, por sínteses parciais temporárias.
  9. Experiência fragmentária x natureza totalizante da razão.
  10. O não-saber.
  11. Trauma antropológico: a conquista do domínio racional pelas sínteses parciais.
  12. Casa astrológica com Saturno: dado básico pelo qual o indivíduo começa a estruturação racional do seu cosmos.

 

3. A teoria dos quatro discursos

Alexandre Bastos

 

T4D como alternativa a teorias correntes

  1. Nova compreensão do aristotelismo
  2. Nova pedagogia
  3. Modelo de teoria histórica
  4. “Duas culturas” (C. P. Snow)
  5. “Dois hemisférios”
  6. Dupla via de demonstração: filologia e reconstrução ideal analítica
  7. História da filosofia: luta contra a entropia
  8. Dissolução da organicidade dos sistemas em “teses” isoladas conflitantes.
  9. Método genético de Aristóteles
  10. Werner Jaeger – contestação da unidade lógica do sistema
  11. “Dois sistemas” de Aristóteles: do platonismo ao empirismo
  12. Pierre Aubenque
  13. Contestações a Jaeger e Aubenque
  14. Racionalismo x empirismo – desmembramentos do aristotelismo
  15. “Intelectualismo”
  16. Aquisição x validação do conhecimento
  17. Experiência sensível x lógica
  18. Sensibilidade – memória – fantasia (imaginação & memória) – esquema fático – esquema eidético (Mário Ferreira e Jean Piaget)
  19. Fantasia – espécie
  20. Hugo de S. Vítor: imaginatio mediatrix
  21. Falta a “lógica da imaginação” no sistema aristotélico
  22. Andrônico de Rodes – estruturação das obras de Aristóteles
  23. Critério de Andrônico : ordem das ciências = ordem dos textos.
  24. Ciências teoréticas, práticas e técnicas
  25. Retórica e poética: ciências técnicas?
  26. Motivos para inserir a Poética e a Retórica no Organon.
  27. A mesma ciência pode ter um aspecto teorético, prático e técnico. Ex.: a dialética.
  28. Redescoberta da Poética no Renascimento
  29. Renascimento: fim do aristotelismo nas ciências ou começo do aristotelismo nas artes?
  30. Separação entre a elite acadêmica e os artistas na Idade Média.
  31. Solmsen: a analítica supera a dialética. (?)
  32. Desinteresse dos filósofos pela Poética aristotélica a partir do Renascimento.
  33. Retomada dos estudos aristotélicos no séc. XIX: Boutroux – Brentano – neo-escolástica.
  34. A retórica segundo Boutroux.
  35. Avicena e Sto. Tomás: 4 discursos.
  36. Duas direções da lógica: identidade e não-contradição (categorias e silogística).
  37. Progressiva independência da silogística até o século XX.
  38. Formalismo. Perda da conexão lógica-ontologia.
  39. Inexistência de uma hierarquia de valor entre os 4 discursos.
  40. Eric Weil: a dialética É o método científico em Aristóteles.
  41. Escola de Port-Royal: a lógica como “arte de pensar”.
  42. Analítica: coerência intrínseca do pensado (não do pensar).
  43. Diferença de funções e não de valores.
  44. Modelo da ciência platônica: a geometria.
  45. Evidência (sem contradição unívoca).
  46. “Sócrates é mortal” não é evidência intuitiva.
  47. Evidência e prova.
  48. Nexo evidência-prova. Transmissão da evidência ao interior da prova.
  49. Evidência do nexo.
  50. Idéia pura de ciência.
  51. Dialética: busca da evidência; analítica: transmissão da evidência ao interior da prova.
  52. Dialética: logica inventionis (lógica da descoberta).
  53. Descoberta dos princípios.
  54. Analítica parte das certezas; a dialética parte dos problemas.
  55. A analítica é inútil sem a dialética (Weil).
  56. Dialética: sucessão de percepções intuitivas das contradições até à percepção dos princípios subentendidos.
  57. Suporte simbólico e ritual da metafísica.
  58. Chaim Perelman – nova retórica.
  59. Confusão dialética-retórica em Perelman.
  60. Retórico e retor.
  61. Retórica como técnica e como teoria. Abandono da teoria retórica desde o Renascimento.
  62. Filosofia x retórica (Perelman).
  63. Retórica: fornecedora dos problemas.
  64. Conflito de opiniões = pressuposto da dialética.
  65. Dialética: compreensão profunda do discurso retórico.
  66. Valor filosófico da Poética. Conhecimento do possível.
  67. Graus de credibilidade.
  68. Verossimilhança: estabilização do possível.
  69. Forçosidade e credibilidade – a forçosidade (lógica) é inversamente proporcional à credibilidade (psicológica).
  70. Atualizar em imagens os conceitos.
  71. Prova analítica da necessidade de 4 discursos a partir do conceito de discurso.
  72. Intuição e discurso – Unidade e proporcionalidade
  73. Teoria do discurso e teoria dos gêneros subentendem uma teoria da ação.

AMÍLCAR ROSA

Imaginário, escolha e passagem entre camadas da personalidade.

 

4. Os gêneros literários

Pedro Sette Câmara

 

  1. Status quaestionis
  2. Épico, lírico e dramático.
  3. Tentativa de classificar os gêneros pelo conteúdo.
  4. Falta de correspondência entre as obras e seus supostos gêneros.
  5. Fracasso das classificações empíricas.
  6. Os gêneros são esquemas de possibilidades.
  7. Wellek & Warren: teoria institucional.
  8. Condições da existência corporal: tempo, espaço e número.
  9. Do número decorrem o verso e a prosa: descontinuidade e continuidade.
  10. Raios e círculos. Seu simbolismo direto e inverso.
  11. Denotação e conotação. Falsa distinção de prosa e verso. Seria preciso cruzar esse critério com o de continuidade e descontinuidade para tornar possível uma classificação.
  12. Narrativo. Tempo – contínuo e descontínuo.
  13. Triplo tempo. Eternidade, perenidade e temporalidade.
  14. Eternidade – Imperativo (amr)
  15. Perenidade (aoristos). Tempo das parábolas. Possibilidades reatualizáveis.
  16. Narrativa contínua e descontínua – ficção e história – repetível e irrepetível.

 

5. Ética

Álvaro Velloso de Carvalho

 

Filosofia moral não é disciplina independente

  1. Éticas sociais e filosofia moral
  2. Organismo e organização
  3. Demanda moral do indivíduo e da coletividade
  4. Busca de princípios universais
  5. Universalidade não é obrigatoriedade geral prática; é apenas validade teórica.
  6. Dos princípios decorrem os critérios para o julgamento das éticas sociais historicamente existentes.
  7. Moral e tipologia das condutas.
  8. Identidade do agente
  9. Conduta socialmente condicionada e julgamento individual autônomo.
  10. O sujeito cartesiano ou lógico não é o sujeito da ação moral.
  11. Caráter abstrato do ego cartesiano.
  12. Abstração da memória é impossível.
  13. Memória, continuidade, sujeito, ego.
  14. Memória é pessoal e intransferível.
  15. Autoria.
  16. O princípio de autoria é constitutivo do sujeito.
  17. Transformações involuntárias podem aumentar os meios de ação voluntária.
  18. Absorção progressiva da responsabilidade imputada, na medida da ampliação mesma dos meios de ação.
  19. Absorção da responsabilidade pelas ações meramente possíveis.
  20. Autoconsciência não é natural nem cultural. É possibilidade inerente à natureza e aos papéis sociais, atualizada pelo princípio de autoria.
  21. A identidade não pode provir da absorção de papéis sociais, porque esta absorção pressupõe o auto-reconhecimento.
  22. Fazer e padecer. Sujeito e objeto. Dualidade de funções inerente à consciência individual.
  23. Mundo de recordações pessoais – orbe de responsabilidade.
  24. Princípios de autoria e de absorção da responsabilidade imputada = mandamentos –1 e –2.
  25. São decorrências da unidade do real.
  26. Princípio de autoria está na base da distinção entre real e imaginário. O real só existe para quem sabe que é autor de seus atos.
  27. A objetividade do conhecimento é função da liberdade moral que aceita o princípio de autoria.
  28. Conhecimento objetivo e sinceridade.
  29. Responsabilidade pelos atos interiores.
  30. O primeiro princípio cognitivo é o primeiro princípio moral.
  31. O fundamento da moral é o mesmo fundamento do conhecimento em geral.
  32. Conhecimento por admissão: reconhecimento da impossibilidade da dúvida radical.
  33. Honestidade intelectual: não fingir que sabe o que não sabe nem que não sabe o que sabe.
  34. Não há diferença efetiva entre juízos de realidade e juízos de valor.
  35. Resposta à objeção kantiana de que esses princípios são formais.
  36. A unidade do sujeito não é um preceito formal, mas um bem real, visado pelos atos do sujeito.
  37. Ampliação do círculo de responsabilidade = decorrência do princípio de autoria.
  38. Responsabilidade e autopreservação.
  39. Repressão da consciência moral (rejeição da culpa) vai contra a integridade do sujeito. É, já, a morte.
  40. Doença psíquica consiste apenas em diminuição da esfera da psique, isto é, em absorção dela pelas demais 3 causas.
  41. Absorção da responsabilidade = caminho do bem = caminho da saúde mental.
  42. Abdicação da liberdade abstrata (sartreana) = conquista da liberdade concreta.
  43. Metanóia.
  44. “Viver sem culpas” é a mãe.
  45. Aceitação do estreitamento das possibilidades = aceitação da morte = aceitação da vida.

 

6. Natureza e formas do poder

Luciano Saldanha Coelho

 

  1. Domínios ontológicos irredutíveis
  2. Produzir, destruir e orientar-se
  3. Objetos do poder: objetos materiais, corpo humano, idéias e crenças.
  4. Dieta = assembléia dos produtores (e trabalhadores)
  5. Império = nobreza de toga e nobreza de espada.
  6. Igreja = cultura e tradição.
  7. Dois aspectos em cada poder. Ativo e passivo.
  8. Polo ativo – unidade e concentração do poder.
  9. Polo passivo – multiplicidade e divisão.
  10. Dieta: polo ativo = produtores, homens ricos (concentração da riqueza); polo passivo = trabalhadores (divisão da riqueza)
  11. Império: polo ativo = milícia, casta armada; polo passivo = justiça (distribuição).
  12. Igreja: polo ativo = cultura (concentração do saber); polo passivo = tradição (distribuição, equalização das crenças).
  13. O poder segundo B. Russel. Conceito nuclear das ciências sociais = todas as proposições gerais podem ser reduzidas a proposições sobre o poder.
  14. Erro de Russel : deduzir diretamente proposições particulares, antes de ter o arcabouço teórico geral.
  15. Exigências do conceito nuclear. (1) geral; (2) determinado; (3) adequado.
  16. “Poder divino” não é poder no sentido desta ciência.
  17. Que é o poder (no sentido humano)?
  18. Poder = possibilidade concreta de ação.
  19. Ação = transformação deliberada de um estado de coisas. (Conservação deliberada é também transformação, neste sentido).
  20. Ação no sentido estrito (político) = determinar voluntariamente as ações de outrem. Produzir obediência.
  21. Tipos de poder vêm das motivações objetivas da obediência. 1 – Força física. 2 – Dinheiro (riqueza). 3 – Carisma.
  22. Lugar do poder. Só a força física “está” no seu portador.
  23. Só o poder carismático implica obediência automática.
  24. Quanto menos o poder “está” no portador, maior é esse poder.
  25. Modos do poder (…)
  26. Força física: gerativa, operativa, curativa, destrutiva, coadjuvante (atua sobre a imaginação).
  27. Dinheiro. Força delegada por uma ordem pública.
  28. Poder carismático – delegado pelos seguidores.
  29. Castas – Tipologia independente da estrutura social historicamente existente.
  30. Clero – governantes – produtores – braçais.
  31. Castas e classes – distinção.
  32. Classes – distinção econômica, isto é, feita segundo o ponto de vista da casta produtora.
  33. Ex.: Lula – proletário ou governante? É um membro da casta governante, oriundo da classeproletária.
  34. O poder está sempre na casta sacerdotal e na governante, independentemente da estrutura econômica vigente.
  35. Uma classe não pode “tomar o poder” no sentido estrito. Forma-se apenas uma nova casta sacerdotal, que forma uma nova casta governante.
  36. Máfia é casta governante (armada).
  37. Casta sacerdotal – ex.: profetas e fundadores de religiões; místicos, mestres, etc.; filósofos e ideólogos, “intelectuais”; escritores e artistas; jornalistas, publicitários etc. ; show business; beautiful people.
  38. Constante de Jouvenel: concentração progressiva do poder. Constante de Ellsworth Huntington: aproximação progressiva. Constante de Malthus: crescimento da população. Constante de OC: apropriação dos meios de ação naturais.
  39. Corolário da constante de Jouvenel: expansão dos direitos é expansão do poder.
  40. Expansão da profissão científica produz concentração do poder.
  41. Planejamento estatal da cultura. Preparação do ambiente psicológico para a introdução das mudanças tecno-científicas.
  42. Iron Mountain Report. Crise ecológica como substituto do nazismo e do comunismo no papel de inimigo.
  43. Mutação planejada do sentido dos símbolos naturais.
  44. Controle externo da psique.
  45. Ruptura entre camadas profundas e superficiais da psique.
  46. Política = interface entre as nobrezas.
  47. A política é a continuação da guerra por outros meios (inverso de Clausewitz). Política é a disputa não violenta dos meios de violência.
  48. Divisão dos poderes de Locke & Montesquieu é puramente normativa e abrange somente divisões internas do Estado. Os três são eminentemente absorvíveis uns pelos outros, exceto no que diz respeito à absorção do judiciário pelo executivo.
  49. Distinção entre essa divisão e a divisão das castas.
  50. Estado, economia e cultura.
  51. Cultura no Brasil = instrumento da economia ou do Estado.

 

7. Tipos espirituais e castas

Paulo Mello

Não fiz anotações durante esta palestra, improvisada e excelente. – O. de C.

 

 

8. O sujeito da História

Marcelo De Polli

  1. Condições do sujeito da ação: Unidade substancial, unidade autoral, unidade subjetiva
  2. Horizonte de consciência (a) contemplativa; (b) decisória. Limites do raio de ação.
  3. O indivíduo tem possibilidade de ação histórica até certo ponto, dependendo de seu horizonte de consciência decisória.
  4. Raça não pode ser sujeito da ação histórica, pois não tem unidade autoral.
  5. Classe, nação, cultura, etc. Idem.
  6. O sujeito da ação histórica deve, ao mesmo tempo, transcender a duração da vida individual e ter unidade substancial, autoral e subjetiva.
  7. Entidades que atendem a esse requisito: tradições espirituais; organizações esotéricas e sociedades secretas; dinastias reais e nobiliárquicas.
  8. O rito imprime no fundo da imaginação um novo conjunto de símbolos que delimita as possibilidades de concepção e ação.
  9. As entidades que podem ser sujeitos da história têm mecanismos rituais de auto-reprodução que asseguram sua unidade e continuidade.
  10. Atuação dessas entidades não é política, é espiritual e simbólica.
  11. Castas não são sujeitos da história.
  12. Unidade do Império romano é dada pela religião romana; a troca de religião dissolve o Estado.
  13. Maçonaria na Revolução Francesa – todos eram maçons: o Rei, os nobres, os revolucionários.
  14. Personagens do drama histórico atual: Império leigo maçônico (EUA); tradições (judaica, islâmica, cristã); dinastias européias.
  15. Missão unificadora auto-atribuída pelo Império americano.
  16. Importância do elemento secreto na história moderna.
  17. Estado laico.

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