Posts Tagged MST

Os autores do espetáculo

Olavo de Carvalho


Jornal do Brasil, 18 de maio de 2006

Não tenho razões para gostar do sr. Cláudio Lembo. No dia em que lhe fui apresentado – um encontro a que compareci na esperança vã de obter seu apoio para projetos culturais que teriam podido, talvez, desviar um pouco o Brasil do rumo de uma tragédia anunciada –, ele aproveitou a ocasião para fazer bonito ante uns esquerdinhas presentes, rotulando-me ultradireitista e recomendando-me a leitura da Bíblia para aplacar meus maus instintos políticos. Nada respondi. Limitei-me a tirar do bolso o velho exemplar do Novo Testamento e dos Salmos que me acompanha há anos, para mostrar que não tinha lições de religião a receber de um deplorável puxa-saco de seus próprios detratores.

No entanto, não posso assistir calado ao esforço geral da mídia para lançar sobre ele a culpa integral da desgraça ocorrida em São Paulo. Não se trata apenas de injustiça. É uma operação diversionista, calculada para ocultar da opinião pública os verdadeiros agentes causadores do episódio, cujas identidades, sem isso, saltariam aos olhos de todos, por ser demasiado óbvias. Para enxergá-las, basta juntar os fatos:

1º. Os bandidos rebelados confessaram ter recebido ajuda e treinamento do MST, entidade estreitamente associada à camarilha petista dominante e que por sua vez recebeu as mesmas coisas de outra organização amiga do governo, a narcoguerrilha colombiana.

2º. O presidente da República é pessoalmente responsável pela presença, nas ruas, dos doze mil delinqüentes que espalharam o terror e a morte entre a população paulista. Não tem sentido acusar o governo estadual de estar despreparado para a situação e ao mesmo tempo inocentar o governo federal que a gerou. Ao soltar os bandidos, sabendo que mantinham contato telefônico com seus chefes presos e que estavam preparados para ações terroristas de grande porte, a Presidência da República petista ateou fogo num Estado da Federação e ainda se aproveita das chamas para queimar nelas a reputação de um miúdo adversário local.

3º. É absolutamente inconcebível que uma operação de guerra de proporções colossais, envolvendo três entidades subversivas da importância do PCC, do MST e das Farc, fosse preparada sem que alguma notícia a respeito chegasse à coordenação estratégica da esquerda continental, o Foro de São Paulo, cujo fundador e presidente crônico, em licença temporária, é mais conhecido hoje em dia como presidente do Brasil mas jamais cessou de trabalhar por essa organização.

Como a única ocupação da mídia chique deste país, há quinze anos, tem sido ocultar ou minimizar a realidade para manter o povo sob o controle da gangue esquerdista a despeito de todas as intrigas internas que a dividem, a missão foi cumprida mais uma vez. Mas agora a realidade é grande e sangrenta demais para desaparecer por artes mágicas de copy-desk. Um ataque assassino de características nitidamente insurrecionais foi desencadeado com a cumplicidade direta ou indireta da Presidência da República, se não sob a sua orientação. Não há, no fundo, quem não saiba disso. Mesmo o cérebro de uma população entorpecida por décadas de “revolução cultural” não consegue cegar-se de todo para tamanha obviedade.

Isso não quer dizer, é claro, que o conhecimento público dos fatos trará algum dano a seus autores. Num país civilizado, qualquer ligação mesmo remota de um presidente da República com os autores daquela barbaridade implicaria sua imediata remoção do cargo e sua responsabilização penal. Mas o Brasil já foi domado e adestrado para responder com sorrisos de adulação a todos os insultos e agressões que venham de fonte ideologicamente aprovada. O país vai curvar-se, com servilismo boçal, a mais esta imposição cínica das elites iluminadas que o guiam infalivelmente para o abismo.

Quanto ao sr. Lembo, está sendo feito de bode expiatório porque tem a sonsice e até o physique de rôle apropriados para isso. Não entende o que se passa, nem sabe a quem serve com o grotesco espetáculo da sua impotência. É um bobo, mas não é culpado senão disso.

A eloqüência dos fatos

Olavo de Carvalho

Diário do Comércio (editorial), 17 de maio de 2006

Mesmo depois que a insurreição geral do crime organizado, com o apoio do MST e das Farc, subjugou e humilhou a maior capital latino-americana, ainda haverá quem negue o avanço da subversão comunista no continente e, desviando a atenção pública das verdadeiras forças ativas por trás desse descalabro, busque entorpecer as consciências com as explicações “sociológicas” de sempre.

Mas, apesar de todo o prestimoso diversionismo da mídia e dos bem-falantes, é muito difícil não enxergar, nos acontecimentos das últimas semanas, um complexo de ações coordenadas do Foro de São Paulo para quebrar a espinha da nação brasileira e entregar o nosso povo, de joelhos, aos agentes da revolução continental.

Se os líderes da insurreição criminosa que espalhou o terror na cidade de São Paulo admitem francamente ter sido treinados e ajudados pelo MST, e se o dirigente máximo deste movimento, ao mesmo tempo, oferece ostensivamente a ajuda da sua militância ao agressor estrangeiro que sob os olhos complacentes do nosso presidente invadiu os postos da Petrobrás, a mensagem dessa conjunção de fatores é bem nítida: não há autoridade, não há soberania, não há ordem nem lei acima do comando subversivo continental.

Pouco falta para que a Nação, atônita e amedrontada, aceite essa mensagem com a naturalidade de quem se curva a “um imperativo categórico, um mandamento divino”, para usar as palavras com que Antonio Gramsci definia a autoridade do partido revolucionário.

A articulação e o timing foram perfeitos: com poucos dias de distância, o governo da República ensina o país a curvar-se servilmente ao insulto que venha da fonte ideológica apropriada, o MST proclama orgulhosamente seu direito de lutar contra o país, o indulto presidencial solta 12 mil presos e a “democracia direta” dos homens armados impõe o toque de recolher a vinte milhões de brasileiros. Alguém ainda é idiota o bastante para achar que foi tudo uma coincidência fortuita, que ações enormemente complexas como essas que estamos vendo podem ser improvisadas do dia para a noite, sem nenhuma comunicação entre os vários focos geradores da revolução continental?

Pelo menos o líder dos criminosos rebelados, que confessa ter estudado muito Lênin, sabe que isso é impossível. Também o sabe o fundador e presidente crônico do Foro de São Paulo, temporariamente afastado para exercer o papel de presidente do Brasil.

Os fatos estão visíveis, mas muitos brasileiros ainda insistem em não tirar deles as conclusões mais óbvias e incontornáveis. É que, nessas criaturas, o medo da chacota cínica superou o instinto de sobrevivência. O cérebro delas está chegando àquele ponto de entorpecimento em que já não é possível distinguir o vivo do morto.

Psicologicamente, é esclarecedor que essa explosão de brutalidade e arrogância sobreviesse nos mesmos dias em que o seminário Democracia, Liberdade e o Império das Leis rompia um silêncio de décadas. A longa e sistemática supressão das idéias liberais e conservadoras criou o vazio no qual o establishment esquerdista plantou o complexo de preconceitos e inibições que desarma a sociedade e instila nos delinqüentes a confiança ilimitada – e, como bem se viu, justificada – no seu poder de ação.

Nós todos, participantes do seminário, estávamos conscientes de que é nosso dever tirar o País das mãos dos criminosos que o desgovernam e o atormentam. Cada palavra que ali se disse refletia um sentimento de urgência quase desesperada. Em torno de nós, os fatos, com a eloqüencia cruel dos tiros e do sangue, nos davam mais razão do que desejaríamos ter.

Política amebiana

Olavo de Carvalho


Jornal do Brasil, 16 de março de 2006

A esquerda, como as amebas — com as quais também se assemelha pelo quociente de inteligência e por só poder prosperar em ambiente fecal –, multiplica-se por cissiparidade. Cada nova leva de esquerdistas separa-se de seus antecessores, chamando-os de direitistas e obtendo assim autorização para cometer sob novos pretextos os mesmos crimes que eles cometeram. Esse velho truque — tão velho que já nem sei se é truque ou é vício — tem ainda a vantagem de destituir de sua identidade a direita genuína e empurrar o eixo da disputa política cada vez mais para a esquerda.

Os primeiros a ser usados nesse engodo foram os girondinos, na Revolução Francesa. Desde então, a coisa não parou mais. Só no Brasil ainda há cérebros suficientemente letárgicos para não perceber o quanto ela é previsível.

Se o leitor tiver a bondade de consultar dois artigos meus, de 27 de maio de 2000 e 11 de março de 2004 ( www.olavodecarvalho.org/semana /paulada.htm e www.olavodecarvalho.org/semana /040311jt.htm ), notará que aí foram anunciados de antemão, sem a menor dificuldade, os dois desenvolvimentos mais recentes do esquerdismo local: a redução do cenário eleitoral a uma concorrência entre petistas e tucanos e, uma vez vitorioso o PT, a subseqüente ascensão de setores radicais que condenavam o partido governante como vendido e “neoliberal”.

Na retórica usada para legitimar as mudanças, o termo “esquerda”, tal como invariavelmente acontece nessas metamorfoses verbais, não aparecia como conceito objetivo, mas como rótulo publicitário com significado móvel. A esquerda define-se a si própria como lhe convém em cada etapa, redesenhando os inimigos reais e imaginários conforme a impressão que deseja transmitir à platéia. A mente esquerdista é toda constituída de automatismos cênicos sufocantemente repetitivos. No Brasil, porém, o exercício habitual desses cacoetes ainda é eficaz o bastante para ludibriar o eleitorado de novo e de novo, chegando até a ser aceito como “ciência política”, dada a absoluta incapacidade nacional de distinguir entre ciência e propaganda. O sr. Luiz Werneck Vianna, por aparecer dizendo que o PT e o PSDB são “as torres gêmeas da ordem burguesa”, é celebrado pela Folha de S. Paulo como grande intelectual e quase um profeta. Esse primor de tirocínio amebiano jamais seria mencionado aqui se o referido não aproveitasse a ocasião de tão elevados pensamentos para criar uma teoria a respeito deste colunista. A teoria é a seguinte: não representando os interesses de uma classe em particular, não sou propriamente um intelectual, mas um puro “produto da mídia”. Intelectual, para esse protozoário gramsciano, é só o sujeito que recebe dinheiro dos bancos para forçar a alta dos juros, ou do MST para cavar novas doses de subsídios estatais. Não vou discutir o argumento, por duas razões. Primeira: nada do que eu alegasse contra ele poderia lhe fazer tanto mal tanto quanto o seu próprio enunciado. Segunda: repetidamente acusado de bater em menores de idade após cada confronto que tive com intelectuais de esquerda, renunciei para sempre a essa prática impiedosa.

***

Entre os órgãos da grande mídia direitista que, segundo o sr. Alberto Dines, domina o mercado nacional, esqueci de mencionar na semana passada o valente tablóide Inconfidência , de doze páginas e periodicidade mensal, impresso por um grupo de patriotas mineiros com dinheiro do seu próprio bolso, para onde jamais volta.

***

O senador Renan Calheiros está propondo uma emenda constitucional que dispensará o Estado de pagar dívidas transitadas em julgado se os credores não lhe derem os descontos que ele bem entenda. A brasileira será a primeira Constituição do mundo que consagra o direito estatal à pilantragem absoluta. Não se pode negar que a idéia tem forte respaldo nas nossas tradições culturais.

***

Ao proibir as palmadas em bumbuns de crianças traquinas, nossos congressistas legislaram em causa própria: alguém os alertou de que suas mães estavam sabendo de tudo o que eles aprontam.

Veja todos os arquivos por ano