Truculências

Olavo de Carvalho


Zero Hora, 10 de agosto de 2003

Nosso embaixador em Havana louva os fuzilamentos de dissidentes como exemplo a ser imitado, o líder do MST promete “acabar com todos os fazendeiros”, e a menor suspeita de que haja nisso alguma indução à violência é condenada como delírio paranóico. Em contraposição, a TFP faz uma inofensiva passeata em São Paulo — e imediatamente pululam advertências apocalípticas contra o ressurgimento da “direita truculenta”.

Truculento, isto sim, é desnível entre as abordagens, que trai de imediato a escolha prévia, o partidarismo louco que não quer saber da verdade ou da justiça, mas apenas de esmagar o adversário, seja lá ao preço que for.

Se a diferença do grau de “truculência” entre as duas organizações estivesse apenas nos discursos, ela já seria grande o bastante para que qualquer tentativa de inverter-lhe as proporções já se denunciasse, instantaneamente, como falsificação malévola.

Mas a diferença não é só de palavras. É de atos.

O MST, além de invadir, saquear e incendiar propriedades, já seqüestrou funcionários do governo, matou guardas de fazendas, degolou um cidadão em plena praça pública.

Nada de longínquamente parecido consta do “curriculum” da TFP. Por que então ela é que é “truculenta” enquanto o MST é um lindo e respeitável “movimento social”?

Resposta: o sentido do termo “truculência” muda conforme o acusado se desloque de um lado para outro no espectro ideológico. O grau máximo de truculência não consiste em invadir, saquear, aterrorizar e matar. Pode-se fazer tudo isso sem truculência nenhuma. Pode-se fazer tudo isso com delicadeza, bondade, etéreo idealismo e toneladas de “ética”. Truculência, mesmo, é ser direitista.

Mas onde se publicam aquelas advertências? Em jornalecos de partido? Em panfletos de propaganda? Nada disso. Publicam-se nos grandes jornais, assinadas por articulistas tidos como profissionais sérios, sem compromisso ideológico, devotados tão somente à prática do melhor jornalismo.

Quando Antonio Gramsci dizia que as ordens do Partido revolucionário deveriam pairar sobre o universo mental coletivo com a autoridade invisível e onipresente “de um imperativo categórico, de um mandamento divino”, era a isso que ele se referia: a opinião mais partidária que se possa imaginar, a distorção ideológica mais extrema já não poderiam ser identificadas como tais e seriam aceitas como os protótipos mesmos do pensamento isento, equilibrado, suprapartidário — a encarnação pura da voz da razão. Na mesma medida, a opinião adversa, mesmo expressa com serenidade, mesmo apelando à autoridade dos fatos e argumentando da maneira mais racional possível, estaria impugnada a priori como extremismo, fanatismo e — para cúmulo de ironia — “preconceito”. E é claro que a simples exigência de um confronto honesto seria tomada como criminosa adesão às opiniões condenadas — uma regra que alguns leitores não deixarão de aplicar a este mesmo artigo, fazendo de seu autor um partidário da TFP malgrado as reiteradas e inúteis expressões de sua discordância com os princípios dessa organização.

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