I. Rodericus Constantinus Grammaticus
II. Rodericus
Constantinus Grammaticus 2
III. Disfarçando o mico
IV. Rodericus
Constantinus Grammaticus 3
V. Rodericus
Constantinus Grammaticus 4
VI. Recado atrasado a
Rodrigo Constantino
Como Rodrigo Constantino (Rodericus Constantinus
Grammaticus,
aquele do “entre mim”) prometeu me ensinar a debater e exigiu que em
vez de observações soltas eu produzisse um comentário linear ao seu
artigo sobre Voltaire e a Igreja, disponho-me aqui a fazer isso, em
capítulos, levando até o fim o exame dos seus argumentos (digamos que o
sejam), mas advirto que não considero esse empreendimento, de maneira
alguma, um debate de opiniões. Não há debate entre o conhecimento e a
ignorância. Constantino está excluído de qualquer discussão séria sobre
assuntos religiosos ou filosóficos por seu absoluto despreparo e sua
confiança cega em chavões populares, que ele toma como portadores de
certezas indiscutíveis ao ponto de que a simples ameaça de contestá-las
lhe causa espanto e indignação, como é típico do provinciano ao ver
desafiadas as crenças usuais do seu meio limitado.
O
propósito dessas linhas não é de maneira alguma debater com Rodrigo
Constantino, mas apenas mostrá-lo aos leitores como anti-exemplo, como
amostra de tudo o que não é e não deve ser um estudante. Se por acaso
ele tiver a presunção de se alçar à condição de meu debatedor, terei o
direito de exigir que minha análise de seu artigo seja também examinada
linha por linha, impugnada afirmação por afirmação, com provas e
exemplos históricos. No mínimo esse meu professor de arte dialética
deveria estar informado de que a regra mínima do debate honesto reside
na igualdade de exigências de parte a parte. Qualquer coisa que ele
venha a me objetar, e que não se apresente com todos os rigores formais
de um comentário linear será rejeitada desde logo como desconversa e
mera expressão de sentimentos irracionais. Digo isso porque nas páginas
da comunidade “Olavo de Carvalho” no orkut ele simplesmente
esfarelou a conversa, atirando para todos os lados ao mesmo tempo,
misturando como doido todos os níveis de significado e até apelando ao
recurso porco do bombardeio de perguntas em desordem (estratagema 7 de
Schopenhauer), além de impugnar como argumentum ad hominem a
minha alegação de sua ignorância do assunto, provando assim ignorar
também o sentido do termo latino a que apelava. Aqui não aceitarei
essas impertinências. Para maior facilidade do referido, bem como dos
demais leitores, numero os parágrafos do seu texto, bem como os do meu
comentário.
TEXTO
1. “Muitos
acham que religião não se discute, mas eu não concordo. Afinal, o tema
é sagrado apenas para os que assim o consideram, e estes não têm o
direito de exigir dos demais o mesmo tratamento de reverência.”
COMENTÁRIO
1.1.
Desde os seus primórdios, a religião cristã sempre se abriu à
discussão, como o evidenciam os escritos dos primeiros padres, quase
todos eles compostos em resposta aos críticos da nova fé ou a
divergências internas quanto ao seu significado. É absurdo que alguém
entre num debate sobre o cristianismo ignorando o dado mais elementar
da sua história, isto é, que a nova religião não surgiu como uma
doutrina pronta, mas como fato de ordem espiritual e histórica, só
adquirindo forma doutrinal aos poucos e, precisamente, ao fio das
discussões internas e externas. Mais tarde, foram os filósofos cristãos
que desenvolveram ao máximo a arte da discussão dialética (disputatio),
o que seria uma extravagância inexplicável se não apreciassem a prática
do debate, seja entre si, seja com os filósofos judeus e muçulmanos.
Isto são fatos tão abundantemente comprovados pela História que não
deveria ser necessário insistir neles se o presente estado de
teratologia cultural brasileira não fizesse brotar por toda parte
palpiteiros arrogantes que ignoram tudo dos assuntos que pretendem
discutir. (V. NOTA no fim deste tópico.) Em todo caso, um bom sumário
da evolução das discussões medievais encontra-se em Alois Dempf, La
Concepción del Mundo em la Edad Media (Madrid.,
Editorial Gredos). Por fim, resta considerar que, ao longo da História,
talvez nenhuma outra comunidade tenha produzido tantos debatedores e
polemistas admiráveis como a comunidade cristã, de Sto. Tomás até
Donoso Cortés, Newman, Chesterton, Bloy, Veuillot, Bernanos e os nossos
Leonel Franca e Gustavo Corção entre outros inumeráveis, o que
permaneceria um enigma incompreensível se fosse próprio da religião
cristã furtar-se ao debate.
1.2. Quem excluiu a
religião do campo dos debates racionais foi, em primeiríssimo lugar, o
próprio Voltaire. Suas opiniões quanto a esse ponto antecedem e
preparam o dogma positivista que veta a discussão de tudo o que não
esteja ao alcance dos cinco sentidos. Como deísta, ele acreditava que
existe um Deus criador e bom, mas que nada mais se poderia saber a
respeito, sendo inúteis e perniciosas não só as investigações dos
teólogos mas todas as especulações de Spinoza, Leibniz, Wolff e outros,
às quais ele não opunha argumento nenhum mas apenas a chacota fundada
numa interpretação caricaturalmente pueril dos textos. O próprio
Voltaire confessava não entender as doutrinas desses filósofos, mas
atribuía isso à insensatez intrínseca dessas doutrinas e não à sua
própria falta de tirocínio filosófico, fazendo da inépcia a virtude
suprema do intérprete e reprimindo em seus leitores o desejo mesmo da
investigação filosófica.
1.3. O passo seguinte
nessa “proibição de perguntar”, como a chamou Eric Voegelin, foi dado
por Immanuel Kant, logo imitado pelo positivismo comteano e seus
sucessores diretos ou indiretos. Isto pode ser conferido em qualquer
manual de história da filosofia. Kant foi o inventor da oposição
radical moderna entre “fé” e “conhecimento”, que bloqueava
automaticamente a possibilidade da discussão racional dos fundamentos
da religião.
1.4. Por fim, Max Weber, um herdeiro
intelectual do positivismo, consolidou o muro de separação entre
“fatos” e “valores”, tornando estes últimos o objeto de puras escolhas
individuais, externas ao debate racional.
1.5.
Rodrigo Constantino já começa, pois, o seu artigo com uma brutal
inversão, ao atribuir à religião e não aos seus críticos modernos a
iniciativa de excluí-la do rol dos assuntos debatíveis. É um erro
medonho, elementar e bárbaro, mas não posso imputá-lo à malícia
genuína, pois nenhum malicioso seria tolo o bastante para
proclamar, com ares de tanta certeza, uma bobagem tão facilmente
impugnável.
NOTA ao parágrafo 1
O
direito à livre expressão de opiniões implica, da parte dos possíveis
ouvintes, o direito de não lhes prestar a mínima atenção. O direito à
expressão não é a mesma coisa que o direito à atenção
pública. Este, por sua vez, é proporcional à sinceridade do interesse
pelo assunto, a qual se mede facilmente pelo tempo e pela seriedade
concedidos ao seu estudo. Isso quer dizer, sumariamente, que o
ignorante das bases elementares de uma discussão não tem, moralmente, nenhum
direito a solicitar e menos ainda a exigir a atenção do público, muito
menos em pé de igualdade com aqueles que dedicaram sua vida inteira ao
estudo do tema. Rodrigo Constantino, que ignora tudo da história da
Igreja, bem como da história da Filosofia, e tenta compensar seu vácuo
de conhecimentos ciscando às pressas informações numa fonte tão incerta
quanto a Wikipedia, não tem nenhum direito à minha atenção ou à atenção
de qualquer leitor sério ao opinar sobre essas matérias. Não o
reconheço como interlocutor, não o considero qualificado nem mesmo para
ser meu aluno, de vez que lhe faltam o senso da sua própria ignorância
e o simples pressentimento de que os assuntos em que opina têm atrás de
si uma tradição milenar de estudos, sem o acesso à qual é impossível
até mesmo a informação perfunctória sobre o “satus quaestionis”. Não
acredito que ele seja totalmente desonesto, apenas monstruosamente
inculto e presunçoso. O único direito que lhe reconheço nesta questão é
o de calar a boca antes de se expor a uma humilhação completa que
talvez ele não seja capaz de aproveitar como lição útil.
TEXTO
2. “Acredito
que a crença religiosa dogmática é a maior inimiga da liberdade, e por
isso creio que o tema não só pode como deve ser debatido sob a luz da
razão.”
COMENTÁRIO
2.1. A
idéia da liberdade, no sentido moderno de livre escolha individual, só
surgiu no mundo como um dogma da Igreja. No mundo antigo era um
conceito totalmente desconhecido. Nos países islâmicos ainda é ignorado
e não faz sentido em face da prevalência da doutrina da predestinação.
O
que se entendia como liberdade no mundo greco-romano era a simples
capacidade de agir com base no poder individual (força física,
propriedades, escravos, exército particular), o que naturalmente
implicava a distinção entre os cidadãos livres e os demais.
A
idéia da liberdade como um elemento constitutivo da natureza humana e
portanto como um direito natural de cada pessoa independentemente de
sua condição social e de suas propriedades foi uma novidade absoluta
trazida ao mundo pela religião cristã. Foi com base nessa idéia que a
Igreja combateu e finalmente aboliu a escravatura romana. (NOTA) Hoje
todos desfrutam desse direito como se fosse uma obviedade conhecida
desde o começo dos tempos, e não uma árdua descoberta que teve de lutar
contra a incompreensão de toda uma estrutura mental consolidada por
hábitos milenares.
2.2. Ortega y Gasset já dizia que
os principais inimigos da cultura são os “señoritos satisfechos” que
desfrutam do legado da civilização sem ter a menor idéia de como foi
conquistado e, por ignorância das condições que o geraram, acabam por
destruí-lo.
Suprimam o dogma cristão da liberdade
humana e, em poucos anos, ideologias fundadas em hipóteses científicas
(ou, se quiserem, pseudocientíficas) eliminarão toda liberdade civil,
argumentando que os seres humanos são bichinhos programáveis sem a
menor necessidade ou possibilidade de exercer a liberdade. Essas
ideologias não surgiram só no campo nazista ou comunista, mas florescem
abundantemente no campo cientificista-materialista ocidental.
2.3.
Mesmo supondo-se que o dogma cristão fosse inimigo da liberdade humana,
continuaria sendo um exagero pueril rotulá-lo “o maior” deles. Só para
exemplificar, tomemos o período tido como de maior opressão religiosa
no Ocidente, da fundação da Inquisição em 1232 até sua extinção em
1834, e comparemos com os regimes totalitários modernos.
2.3.1.
Ao longo de toda a sua existência, o tribunal teve inimigos poderosos e
foi abertamente criticado na Igreja, sobretudo nos círculos mais
próximos do papa. Vocês conseguem imaginar um ministro de Hitler
fazendo discursos contra o Holocausto, ou um assessor de Stalin
condenando publicamente o Gulag?
2.3.2. Todo
processo de heresia seguia um trâmite regular. Apresentada a acusação,
o tribunal delegava um inquisidor para que fosse pessoalmente buscar o
acusado e discutisse com ele, até à exaustão, os pontos suspeitos de
heresia. A discussão podia se prolongar por muitos anos, e o inquisidor
deveria conhecer o pensamento do acusado em todos os seus detalhes. No
processo contra Pedro Abelardo, por exemplo, o inquisidor escolhido foi
S. Bernardo de Clairvaux, por ter estudado as suas obras e por ser seu
amigo de infância. A condenação só vinha quando o próprio acusado se
obstinava até o fim em manter suas opiniões, a despeito de todas as
tentativas de persuadi-lo do seu erro. Vocês conseguem imaginar
semelhantes escrúpulos nos tribunais da Revolução Francesa, onde o
intervalo entre a acusação e a decapitação era de semanas ou dias?
2.3.3.
“Heresia” significa uma doutrina não católica ou anticatólica pregada
dentro da Igreja por alguém que continua a intitular-se membro dela e a
desfrutar da sua proteção. As doutrinas de outras religiões, ou
apresentadas explicitamente como não católicas, não eram passíveis de
processo por heresia. O objetivo desses processos não era eliminar o
pensamento divergente, mas apenas manter a unidade interna da própria
Igreja (NOTA). Enquanto os heresiarcas eram processados, os livros dos
pensadores judeus e muçulmanos não apenas continuavam a circular
livremente mas eram estudados e debatidos nas universidades e tidos em
alta conta pelos filósofos cristãos. Vocês são capazes de imaginar o
Partido Comunista da União Soviética punindo apenas os seus dissidentes
internos e deixando circular livremente nas universidades os livros de
Alexis de Tocqueville, Friedrich von Hayek, Ludwig von Mises?
2.3.4.
A necessidade de preservar a unidade da Igreja era algo mais do que
mero auto-apego de um grupo doutrinal. A Igreja era o principal fator
unificador da civilização européia, então sob o ataque constante dos
muçulmanos, unificados, do seu lado, pela religião islâmica. A
fragmentação da Igreja tornaria a Europa indefesa contra os muçulmanos,
e por este motivo, não por “fanatismo dogmático”, as heresias foram
condenadas exatamente como hoje o seriam os crimes de alta traição num
país em guerra. O que quer que pensemos dos métodos usados pela
Inquisição, assim como dos abusos criminosos que não deixaram de ser
cometidos em seu nome, não há como negar que, sem a sua ação, o
desmembramento da Igreja e a ocupação da Europa pelos muçulmanos seriam
praticamente inevitáveis. Hoje o nosso Rodericus Constantinus
Grammaticus se chamaria Al-alguma coisa e, sob a vigilância da polícia
religiosa, guardaria suas idéias voltaireanas para si mesmo, sob pena
de decapitação. É uma delícia poder desfrutar dos benefícios da
civilização ocidental e cuspir no túmulo daqueles que os fizeram chegar
até nós.
2.3.5. Em termos quantitativos, a
perseguição religiosa no Ocidente cristão não tem comparação possível
com a sangueira desmedida inaugurada pela Revolução Francesa. Segundo a
pesquisa histórica recente (v. Henry Kamen, The Spanish Inquisition),
a mais temível das inquisições, a espanhola, executou no máximo vinte
mil pessoas ao longo de quatro séculos, ao passo que a Revolução
Francesa fez dez vezes mais vítimas em menos de um ano. E seria imbecil
atribuir a sangueira revolucionária apenas aos jacobinos. Os
girondinos, dos quais os liberais modernos se apresentam como herdeiros
ideológicos, foram os primeiros a pregar a matança como panacéia
revolucionária para os males da França.
2.3.6.
Apresentar pois o dogmatismo religioso como “o maior inimigo da
liberdade” é apenas forçar a linguagem para criar do nada uma impressão
de realidade. É um peido verbal que se espalha no ar para lançar sobre
os circunstantes a culpa pelo mau cheiro.
NOTA ao parágrafo 2.1
No
sistema romano, os escravos não podiam ter família nem propriedades. As
relações sexuais eram coletivas para que os escravos não soubessem quem
eram seus pais, não tendo portanto nem mesmo a possibilidade de
disputar a herança de objetos de uso pessoal.
TEXTO
3. “Foi o que fez Voltaire, o ‘Pai do Esclarecimento’,
segundo Karl Popper. Em seu livro O Túmulo do Fanatismo,
Voltaire liga uma metralhadora giratória, mas munida com sólidos
argumentos, contra o fanatismo religioso.”
COMENTÁRIO
3.1. O livro chama-se Examen
important de milord Bolingbroke ou le tombeau du fanatisme.
Foi escrito por volta de 1736 e publicado em 1767. Seus “sólidos
argumentos” históricos são de cabo a rabo plagiados da Histoire
critique du Vieux Testament,
de Richard Simon (1678). Na época de Voltaire, essa obra já havia sido
submetida a exames críticos devastadores, (Jacques-Bégnine Bossuet, Défense
de la Tradition et des saints Pères, 1693, e La Politique
tirée de l’Écriture sainte, 1709 ; Antoine Calmet, Dictionnaire
historique et critique de la Bible,1722-1728).
Voltaire omite as objeções apresentadas por esses autores, saltando
sobre o status quaestionis
e repetindo as acusações de Simon (sem citar a fonte) como se fossem a
última palavra no assunto. Isso mostra, no mínimo, que ele tinha
consciência de estar escrevendo apenas para uma platéia popular, alheia
às investigações eruditas e à verificação de fontes, podendo, pois,
permitir-se as maiores barbaridades sem grande risco de ser contestado.
Que, passados dois séculos e meio, esse pastiche irresponsável seja por
sua vez citado como fonte fidedigna, é algo que só pode acontecer na
periferia do mundo, num ambiente provinciano alheio à vida intelectual
civilizada. A crítica anti-religiosa de Voltaire já foi bem estudada e
o consenso geral dos historiadores é que ela vale apenas pela
virulência do sarcasmo, não pelo conteúdo histórico ou filosófico,
constituído na maior parte de invencionices e sofismas cujo ridículo o
estudante treinado reconhece à primeira vista, como por exemplo o de
que todo cristão é egoísta porque cuida da salvação da sua alma em vez
de fazer o bem aos outros. Voltaire, embora fosse uma inteligência
menor, tinha o próprio gênio em tão alto conceito que chegou a
proclamar : « Jesus precisou de doze homens para construir o
cristianismo ; eu provarei que basta um só para destruí-lo. »
A resposta dos tempos foi implacável. « Para nós, hoje, a sua obra
em conjunto já não existe », conclui Otto Maria Carpeaux na História
da Literatura Ocidental. Sobram uns poucos contos, que ainda fazem
rir, e o Éssai sur les Moeurs,
que dá testemunho do nascimento da sensibilidade histórica européia sem
lhe acrescentar propriamente nada. Principalmente da sua crítica à
religião resta muito pouco : « O antipascaliano Voltaire
morreu para sempre.» Carpeaux, é claro, não previa o advento de Rodrigo
Constantino.
3.2. O livro de Voltaire
não é contra « o fanatismo », mas contra a religião cristã e
a judaica em si mesmas. Constantino usa o termo « fanatismo »
porque segue a moda de rotular de fanáticos todos os crentes de
qualquer religião que seja – um truque semântico destinado a lançar
sobre os cristãos e os judeus a culpa do que os radicais islâmicos
fazem contra eles. Significativamente, Constantino usa o mesmo rótulo
infamante para qualificar a minha pessoa, malgrado o fato patente de
que, na rápida discussão à qual ele se referia, eu não defendesse
nenhum artigo-de-fé de religião nenhuma e sim apenas a exigência da
informação culta em debates a respeito. Não havendo portanto limites
para a abrangência do termo « fanático », devo concluir que
ele não significa nada além da confusão de maus sentimentos que Rodrigo
Constantino nutre por certas pessoas.
* * *
NOTA: ainda sobre a liberdade de opinião
Pela
lógica mesma do princípio de liberdade de expressão, há uma diferença
entre a mera expressão de opiniões privadas num círculo de amigos e a
opinião alardeada em público por alguém reconhecido como "opinion
maker". No primeiro caso, a liberdade só é limitada pelas conveniências
sociais e pela reação do grupo. O segundo implica algumas obrigações
incontornáveis. A mais importante delas pode ser resumida assim: Nenhum
formador de opinião tem o direito de tomar partido desta ou daquela
corrente de idéias sem conhecer previamente, e com igual extensão, as
demais correntes em disputa sobre o mesmo ponto. Isto é assim porque as
idéias não existem no ar, puras e isoladas, mas fazem parte de uma
trama social de discursos que se entrechocam, se complementam, se
reforçam e se neutralizam, seja simultaneamente, seja na sucessão dos
tempos. É só da visão abrangente desse conjunto que se obtém a clara
percepção do sentido de cada uma delas.
O cidadão
privado, sobretudo jovem, tem todo o direito de ler um livro isolado,
entusiasmar-se pelas idéias do autor e sair apregoando num círculo
pessoal a sua veracidade final e imbatível, sem a menor consciência do
que outros disseram a respeito dos mesmos pontos ou diretamente contra
essas idéias.
O formador de opinião não tem esse
direito, pois ao fazer isso estará transmitindo a seus leitores e
ouvintes uma visão deformada e falsa. O sentido e importância das
idéias não pode depender da casualidade de um sujeito ter lido um livro
e não outro, ou outros. O sentido e a importância das idéias depende do
seu lugar na trama integral da cultura e, mais ainda, do seu lugar na
história dos debates a respeito do mesmo tema. O formador de opinião
que defende idéias soltas, sem o conhecimento desse contexto, é na
verdade um deformador, um produtor de crenças aberrantes e sem sentido.
Rodrigo Constantino entusiasmou-se por um livro sem
ter a menor idéia de que esse livro ocupa um lugar bem determinado, e
abaixo de modesto, já não digo na história da filosofia, onde não ocupa
nenhum, nem no da ciência das religiões, onde é solenemente ignorado,
mas no campo bem mais limitado da mera polêmica religiosa e
anti-religiosa. Esse lugar é o de um plágio vagabundo de obras só um
pouquinho mais sérias. Mesmo no conjunto de obras do autor – Voltaire
–, o livro mencionado está entre os mais datados e superados pelo
tempo, não só pela constatação do plágio mas porque o avanço posterior
dos estudos de história e ciência das religiões tornou absolutamente
inaceitáveis as interpretações pueris que ele faz dos textos bíblicos.
Ao
brandir esse livro como argumento anti-religioso para impressionar uma
platéia que sabe ainda menos que ele, Rodrigo Constantino provou ser
apenas um charlatão, com o atenuante de ser um charlatão inconsciente,
já que ignora as regras mais elementares do debate cultural e nem mesmo
ouviu falar da obrigação de informar-se sobre o status quaestionis
antes de sair alardeando, como argumentos fulminantes, velhas bobagens
a que jamais algum estudioso de religiões deu a mínima importância.
A
confusão que ele cria com isso é ainda mais danosa porque, nas
condições atuais do Brasil, a consciência do que é um debate cultural e
de quais as suas exigências estruturais desaparece velozmente do
horizonte de visão da massa estudantil, reduzido a dimensões exíguas
pela pobreza do repertório oferecido pelas universidades e pela mídia.
A necessidade de conhecer o status quaestionis,
por exemplo, é completamente ignorada por professores universitários e
articulistas de jornal. Quando a mencionamos, entendem que é mera
exigência pedante, sem importância prática para o entendimento da
matéria em debate, quando ela é na verdade o único meio possível de
obter esse entendimento.
Dessa ignorância resulta
um efeito pior ainda, que é o hábito geral de raciocinar a partir de
meras palavras e suas definições nominais, sem ter em conta o abismo
que pode haver entre essas formas dicionarizadas e as realidades
correspondentes no mundo dos fatos. As discussões tornam-se assim meros
arranjos de frases que, quando bem sucedidos, são aceitos como
persuasivos e verdadeiros ante quem desconheça a substância da matéria
em debate, pois quem a conhece sabe que esses improvisos verbais passam
longe de uma verdadeira discussão do assunto.
O
resultado geral é uma barbárie verbosa e oca, na qual toda discussão
séria se torna impossível e mesmo a prova mais detalhada e substantiva
só pode prevalecer se por acaso vier a suscitar também admiração como
feito de retórica.
Não é um acaso que, nesse
ambiente, o próprio entendimento do que sejam "razão" e "ciência" se
torne inviável, e as palavras correspondentes, reduzidas a
estereótipos, sejam brandidas como símbolos de autoridade na defesa de
ódios e preconceitos totalmente irracionais.
Quando
Rodrigo Constantino menciona entre as "críticas embasadas" que
encontrou do livro de Voltaire a afirmativa de que "os judeus são um
povo de ladrões" ou de que o objetivo de todos os grandes santos,
místicos e profetas fundadores de religiões é "dominar e enriquecer
quanto puderem", ele chafurda na mais baixa irracionalidade no instante
mesmo em que imagina personificar a razão e a ciência.
A
miséria da sua falta de consciência de si é tão deplorável, tão
patética, que eu preferiria nada dizer a respeito, só consentindo em
dizer alguma coisa porque sei que essa miséria é contagiosa e temo pelo
futuro de seus leitores.
[Continua]