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De Sócrates a Júlio
Lemos (A filosofia e seu
inverso II)
Olavo de Carvalho
7 de abril de 2012
I. A filosofia e seu inverso II. De Sócrates a Júlio Lemos III. Os filodoxos perante a História
O sr. Júlio Lemos, que não perde a oportunidade de puxar uma discussão,
chama Sócrates de “chato-mor” por ter praticado o mesmo costume dois
mil e quatrocentos anos atrás.[1] Mas aí cessa toda a semelhança. Entre
outras inumeráveis diferenças, é notório que Sócrates chamava seus
adversários pelos nomes, enquanto o sr. Lemos, ao criticar os vícios da
filosofia circundante, deixa sempre ao leitor a incumbência de
descobrir quem seriam os viciados, se é que eles existem fora da cabeça
do articulista. Tão avesso é ele à menção de pessoas de carne e osso,
que seus artigos de crítica deveriam vir precedidos do disclaimer: “Qualquer semelhança
com a realidade é mera coincidência.” Os diálogos socráticos, ao
contrário, sempre se travam com personagens reais da vida ateniense e
tratam de problemas cuja presença na sociedade é patente aos olhos de
todos. Sócrates combateu bravamente a corrupção da polis, ao passo que o sr. Lemos se
mantém a uma prudente distância deste baixo mundo, consagrando seus
talentos a especulações lógico-matemáticas – ou a discussões com
filósofos hipotéticos – que não
ofendem as autoridades constituídas. Talvez ele se envergonhe um pouco
disso no íntimo, mas em suas declarações públicas o que transparece é,
ao contrário, aquela ostentação de superioridade distante, quase blasée, do profissional tarimbado
que consente, por mera caridade, em dirigir umas palavrinhas ao amador
intrometido.
Todos sabemos em que consiste essa superioridade: o sr. Lemos
desempenha, no teatro imaginário que ele desejaria lotar de uma platéia
real, o papel do argumentador rigoroso, científico, universitário, em
contraste com os palpiteiros que “fazem filosofia de modo tosco,
deixando de lado a especulação para inculcar nos ouvintes e leitores
critérios morais, condenar comportamentos ou provocar a indignação”.
Entre os culpados de semelhante descalabro, ele inclui Sócrates, Platão
e Aristóteles, sempre ocupados em indicar aos incautos o caminho do
bem, da sabedoria e da felicidade – tarefa que, segundo ele, cabe à
“ética prática” ou às técnicas de “auto-ajuda”, pouco ou nada tendo a
ver com a autêntica e séria filosofia, representada eminentemente, ao
que tudo indica, pelo próprio sr. Júlio Lemos.
Em apoio das suas singelas pretensões, ele apela à autoridade do
Bem-Aventurado Cardeal John Henry Newman, o qual, proclamando no
Capítulo 5 de Idea of a University[2]
que “o conhecimento é uma coisa, a virtude é outra” e que “a filosofia,
por mais iluminada, não fornece nenhum comando sobre as paixões, nem
motivações influentes, nem princípios vivificantes”, cita o exemplo de
um personagem do romance Rasselas,
Prince of Abissinia, de Samuel Johnson – um filósofo que, diante
da filha morta, confessava não receber nenhum consolo da ética de
autocontrole que havia ensinado a seus discípulos (o sr. Lemos, com o
rigor que lhe é peculiar, conjetura que o homem é um pitagórico, quando
com toda a evidência se trata de um estóico). O episódio antecipa o
protesto lancinante de Franz Rosenzweig, que, espremido numa trincheira
da I Guerra, entre pilhas de cadáveres, notava a perfeita impotência da
filosofia acadêmica ante a carnificina mundializada.
Seria ótimo se o sr. Lemos, antes de usar um texto clássico como
porrete, aprendesse a lê-lo. O trecho citado não contrasta a filosofia
moralizante com a “filosofia científica” que o sr. Lemos tanto aprecia,
mas com a fé cristã. Quando Newman sugere que o ensino da filosofia, em
vez de fazer falsas promessas de salvação, deveria tratar mais
modestamente de desenvolver no estudante as virtudes intelectuais, o
sr. Lemos, tentando fazer do cardeal um apologista da escola analítica avant-la-lettre, insinua que essas
virtudes consistem tão-somente em “precisão conceitual, clareza e rigor
lógico”, isto é, as qualidades padronizadas da comunicação científica
no sentido atual. Qualquer tentativa de ir um pouco acima disso é,
segundo ele, pura superstição. Newman, no entanto deixa claro que não é
nada disso. O que o ensino da filosofia pode e deve desenvolver,
segundo ele, é “um intelecto cultivado, um gosto delicado, uma mente
cândida, equitativa e desapaixonada, uma conduta nobre e cortês” (a cultivated intellect, a delicate taste,
a candid, equitable, dispassionate mind, a noble and courteous bearing
in the conduct of life). Quem, lendo essas palavras, pode falhar
em compreender que as virtudes intelectuais a que o cardeal alude são,
também e intrinsecamente, virtudes morais, precisamente aquelas que,
segundo o sr. Lemos, a filosofia não pode ensinar de maneira alguma?
Pois Newman, explicitamente, faz delas o objetivo mesmo do ensino da
filosofia numa universidade (they are
the objects of a University).
Só o que Newman acentua é que essas virtudes são inferiores às da
santidade cristã. É o caso de exclamar, como o cidadão lisboeta a quem
um turista perguntava se sabia a localização do Mosteiro dos Jerônimos:
“Ó raios, e quem é que não sabe?” O cardeal esclarece, com toda a
razão, que a educação filosófica “produz não o cristão, não o católico,
mas o gentil-homem”. Ele está longe de desprezar as virtudes do
gentil-homem; ao contrário, professa advogá-las e insistir na sua
importância. Adverte, apenas, que elas não são garantia de santidade,
nem mesmo de conscienciosidade; que podem mesmo estimular o pedantismo,
a arrogância e o espírito de controvérsia. Tudo isso é de uma obviedade
exemplar, mas só o sr. Lemos pode enxergar aí um apelo a que a
filosofia se abstenha de todo ideal moral e se concentre na pura busca
da exatidão lógica, tomada como um fim em si. Quando Newman fala de
“estudo desinteressado”, ele está se referindo, ostensivamente, apenas
à clássica distinção entre artes liberais e servis. Estas últimas visam
a finalidades utilitárias, aquelas ao aperfeiçoamento da mente humana.
Ao descrever esse aperfeiçamento como uma síntese de valores
cognitivos, éticos, estéticos e sociais, condensando-a no símbolo do
“gentil-homem”, ele exclui antecipadamente, e da maneira mais
categórica possível, a interpretação que o sr. Lemos quer impingir às
suas palavras. O “estudo desinteressado” desinteressa-se de suas
aplicações técnicas, industriais e econômicas, não de seus efeitos
psicológicos e morais na mente do estudante, que são, segundo Newman,
sua própria razão de ser.
Também não escapará ao leitor atento o detalhe altamente significativo
de que, como exemplos de falsos salvadores, Newman cita somente
filósofos de segundo time, como Sêneca, Cícero e Catão, e também, por
ironia, Lorde Francis Bacon, um dos precursores da “filosofia
científica” do sr. Lemos (a menção passageira a Sócrates tem outro
sentido, como veremos adiante). Nem uma palavra sobre (muito menos
contra) a filosofia cristã de Sto. Tomás, de S. Boaventura, de Duns
Scot, de Raimundo Lúlio, cujas finalidades edificantes e até
catequéticas rebrilham a cada página desses autores. Quanto à filosofia
antiga, da qual a cristã medieval deriva em linha direta, o cardeal, em
vez de fazer troça de seus ideais morais ou de reduzir sua
contribuição, como o desejaria o sr. Lemos, ao desenvolvimento da
lógica, das matemáticas e das ciências físicas, faz dela um dos pilares
da própria condição humana:
“Enquanto formos homens, não podemos escapar de ser, em grande medida,
aristotélicos, pois... em muitos assuntos, pensar corretamente é pensar
como Aristóteles; e somos seus discípulos querendo ou não, embora
possamos não sabê-lo”. Um desses assuntos foi, decerto, a lógica, e o
que Aristóteles pensou a respeito é que ela não é nem mesmo uma parte
integrante da filosofia, e sim apenas um treinamento preliminar que,
uma vez absorvido, pode ser esquecido no fundo e deixar espaço a
modalidades menos formalizadas de investigação, mais compatíveis com a
natureza esquiva de certas questões. Embora ensinando que a lógica é a
forma por excelência da prova científica, Aristóteles adverte que em
todas as investigações o problema fundamental não é a exata
demonstração lógica, mas a descoberta das premissas, na qual a lógica é
absolutamente impotente, devendo ceder lugar à dialética, à retórica e
até à imaginação poética. Uma filosofia que pretendesse reduzir-se à
lógica, ou mais ainda à lógica das ciências, seria no entender de
Aristóteles-Newman a aberração das aberrações.
Newman, seguindo nisto a tradição das universidades medievais, divide
os estudos em três níveis: as artes utilitárias, as artes liberais (que
ele chama indiferentemente de “filosofia” ou “ciência”) e a religião
cristã. Se o segundo nível não deve usurpar as prerrogativas do
terceiro, também não deve rebaixar-se ao primeiro – o que, observo eu,
aconteceria necessariamente se a filosofia se reduzisse à lógica e o
aperfeiçoamento da mente à conquista da “precisão conceitual, clareza e
rigor lógico”, fazendo abstração das qualidades éticas, estéticas e
sociais que segundo Newman compõem a inteligência bem formada. Se a
filosofia não assegura a salvação da alma, isso não significa que seja
moralmente inócua ou que a única qualidade requerida na sua prática
seja, como pretende o sr. Lemos – deformando nisto monstruosamente o
pensamento de Newman –, o “amor
aos estudos”. O amor aos estudos, sem o correspondente amor à verdade,
é um convite àquele pedantismo, àquela presunção acadêmica que Newman
condena com tanta veemência, e da qual as lições do sr. Lemos fornecem
uma amostra indisfarçável. Pior ainda seria reduzir o amor à verdade a
um simples conjunto de precauções lógico-técnicas, omitindo que sua
conquista é uma luta constante de toda a alma, envolvendo sentimentos,
hábitos, valores e, acima de tudo, o esforço de autoconhecimento sem o
qual a “verdade” se torna uma fórmula oca, pronta para ser repetida no
palco universitário ou numa tela de computador sem nenhum ato de
consciência correspondente. Se, neste como em outros assuntos, “pensar
corretamente é pensar como Aristóteles”, cabe lembrar que, segundo o
Estagirita, a verdade não está nas proposições e sim no juízo, no ato
interior da inteligência humana que as aprova ou desaprova. Esse ato só
pode ser efetivado por um ser humano real: tudo o que a técnica lógica
pode fazer é simbolizá-lo, no papel ou num HD, por um signo negativo ou
positivo.
Se é indiscutível que a filosofia não fornece nem deve prometer a
salvação da alma, menos convincente é a argumentação do cardeal contra
os poderes consoladores da meditação filosófica nos instantes de perigo
e sofrimento. Em primeiro lugar, ela faz caso omisso do precedente
histórico de Boécio, que, condenado à morte, encontra na prisão a consolatio philosophiae. Em segundo
lugar, passa, sem a menor justificativa, ao largo da conduta heróica de
Sócrates diante do tribunal que o condenou (já veremos o que o sublime
sr. Lemos tem a dizer a respeito). Em terceiro, omite que a síntese
escolástica de fé e razão implica, quase que por necessidade
intrínseca, o apelo auxiliar à razão como reforço da fé nos momentos
difíceis da vida.
O exemplo a que Newman recorre – o filósofo de Rasselas – é ainda mais desastroso,
em primeiro lugar por ser fictício, em segundo lugar por presumir que o
pranto diante de uma filha morta seja um vício redibitório, um
argumento fulminante contra as crenças de um pai sofredor. Se assim
fosse, as lágrimas da Virgem Santíssima ante o cadáver de Nosso Senhor
Jesus Cristo teriam dado cabo do cristianismo de uma vez para sempre.
E, caso não chegassem a fazê-lo de maneira convincente, a debandada dos
apóstolos, o grito de desespero do Filho abandonado no alto da Cruz e
as três defecções de Pedro antes de o galo cantar completariam o
serviço para Voltaire nenhum botar defeito.
Nenhum exemplo de fraqueza humana depõe jamais contra a dignidade de
uma crença, religiosa ou filosófica, nem atenua o valor da mensagem que
aparenta desmentir. Reconhece-o o próprio sr. Lemos, ao afirmar que, se
um filósofo “entende mais de ética tomista que São Felipe Néri e
privadamente age como um irresponsável, a culpa não será da ética
filosófica, mas dele”. Infelizmente, o nosso professor de rigor lógico,
após admitir essa obviedade, ainda imagina dizer algo de substantivo
contra a filosofia como modo de vida ao alegar que “é muito comum que o
moralismo filosófico ande de mãos dadas com a perversão privada”. À luz
daquilo mesmo que ele disse na frase anterior, a resposta cabal a essa
observação é: “E daí?”
Já expliquei mil vezes – pensando, nisto, como Aristóteles – que o argumentum ad hominem só tem
validade cognitiva quando é também, e inseparavalmente, um exemplum in contrarium, o
desmentido factual de uma generalização anterior, como por exemplo
quando Hobbes, após proclamar que os seres humanos só agem por desejo
de poder, professa escrever o Leviatã
para o puro bem da humanidade sofredora, sem nenhuma ambição pessoal;
ou quando Maquiavel, ensinando que o Príncipe deve matar seus
colaboradores tão logo chegue ao poder, se omite de incluir nisso o
principal dos colaboradores: o autor do plano, isto é, ele próprio; ou
ainda quando o burguês Karl Marx, afirmando que só os proletários podem
ter uma visão objetiva da história, passa a nos oferecer algo que ele
jura ser a primeira visão objetiva da história. Fora desses casos, o argumentum ad hominem só vale como
truque sujo ou, no melhor dos casos, como vaga sugestão de uma
possibilidade a ser investigada.
Mesmo que todos os moralistas do mundo fossem imoralistas na prática,
isso em nada deporia contra a dignidade ou a necessidade da moral, sem
mesmo levar em conta a possibilidade de que as denúncias de imoralismo
sejam obras de intrigantes mal intencionados. Nesse sentido, a
observação de Newman, de que muitos filósofos foram ridicularizados
como hipócritas, entre os quais Sócrates (nas Nuvens de Aristófanes), é o
protótipo mesmo do argumento suicida,
que se rebela contra o próprio argumentador, já que a literatura
satírica voltada à denúncia da hipocrisia religiosa, desde os Carmina burana a Rabelais, de
Bocaccio a Molière, de Diderot e Stendhal a Alessandro Manzoni e de
Cervantes a James Joyce (sem contar os papas atirados ao Inferno de Dante), transcende
infinitamente, em volume, qualidade e importância histórica, tudo o que
os gozadores de todos os tempos escreveram contra os filósofos. E será
preciso lembrar que ninguém no mundo foi (e é ainda) mais alvo de
chacotas do que o próprio Cristo?
Um ponto que Newman não consegue esclarecer é o da relação exata que há
entre a formação do gentil-homem e a educação para a fé cristã. Dizer
que a primeira não basta para produzir a segunda é mais próprio do
Conselheiro Acácio que de alguém que deseja elucidar o problema. Que,
no entanto, toda educação liberal seja inútil na catequese da gente
simples, do povão – coisa que o próprio Newman não afirma – já é algo
de bastante duvidoso, como se vê pelo fato de que os primeiros esforços
de alfabetização universal partiram da Igreja mesma, no tempo de Carlos
Magno, e de que as artes mecânicas, praticadas com afinco, terminaram
por despertar na inteligência alguma curiosidade de ordem científica ou
filosófica que elas mesmas não podem, por si, satisfazer. Mas e a
formação religiosa do erudito, do professor, do sacerdote, do monge?
Será a educação preliminar da alma nas virtudes mundanas do
gentil-homem uma etapa dispensável ou então nada mais que um
adestramento técnico sem nenhum peso moral em si mesmo?
A História responde, decididamente, que não. Newman inspira-se no
exemplo da universidade medieval do século XIII, mas hoje sabemos, e
ele na época não poderia saber, pois só a historiografia posterior o
revelou, que aquela instituição, longe de representar o cume da
educação na Idade Média, não constituiu senão a cristalização tardia,
institucionalizada, mais formalizada e menos vigorosa, daquilo que se
ensinava nas chamadas “escolas catedrais” dos séculos X a XII.[3] E o
que nestas se ensinava eram precisamente as qualidades do gentil-homem
– “um intelecto cultivado, um gosto delicado, uma mente cândida,
equitativa e desapaixonada, uma conduta nobre e cortês” – como
preparatórias à aquisição das virtudes cristãs, no mesmo sentido em que
Clemente de Alexandria proclamara ser a filosofia “o pedagogo que
conduz ao Cristo”. O ensino aí alcançou tais alturas, e tão visíveis
eram os seus frutos de bondade e sabedoria, que se afirmava, na época,
que os anjos mesmos o invejavam. Malgrado o seu fulgurante e breve
prestígio intelectual, as universidades que vieram depois, com toda sua
história de greves, arruaças e até morticínios e a sua queda posterior
numa esterilidade deprimente, jamais mereceram nem mereceriam louvor
semelhante. Não é injusto dizer que os Estatutos da Universidade de
Paris em 1215, transformando a filosofia em profissão regulamentada e
meio de ascensão social, muito contribuiram para a perda da inspiração
recebida das escolas catedrais e para o afluxo de toda sorte de
carreiristas ávidos de poder e prestígio, inflados de habilidade
técnica e alheios aos ditames da moral religiosa e até mesmo secular.
Não espanta que já em 1229 eclodissem ali motins estudantis que duraram
dois anos e deixaram um rastro de cadáveres por toda parte.
Relevante, para a compreensão desse processo, é a seguinte diferença.
Enquanto as universidades privilegiavam o ensino formalizado, baseado
em textos e documentado em novos textos, criando os monumentos de
exposição escrita que hoje representam para nós a figura visível do
escolasticismo, as escolas catedrais faziam exatamente o oposto: de um
lado, não visavam à produção de “obras filosóficas”, mas de
personalidades humanas que se destacassem pela beleza, força,
equilíbrio e pureza de intenções, sem a menor preocupação de deixar
documentos que atestassem a sua passagem sobre a Terra; de outro lado,
davam menos importância, na prática pedagógica, ao estudo dos textos ou
à aquisição de técnicas do que à influência direta do mestre como
exemplo vivo das virtudes intelectuais e morais a ser infundidas no
discípulo.
Aproximavam-se notavelmente, sob esse aspecto, do círculo socrático e
da Academia platônica originária. Os melhores intérpretes do platonismo
– Paul Friedländer. A. E. Taylor, Paul Shorey, Julius Stenzel, Eric
Voegelin e Giovanni Reale, entre outros – ensinam que jamais esteve nos
propósitos de Platão criar uma doutrina formalizada, condensada num
sistema de proposições que pudesse ser repassado, impessoalmente, a
destinatários genéricos, como num tratado de química ou de lógica.
Escreve Stenzel: “Ele não concebeu jamais o aprendizado como coisa de
puro intelecto, mas sempre como uma influência total de homem a homem,
como um ser formado e modelado pela íntima relação e sociedade com
outro ser humano”[4] Mesmo no concernente aos aspectos mais
aparentemente “impessoais” e “ científicos” do seu ensinamento o mestre
não prescindia do exemplo pedagógico pessoal. Taylor: “Uma das
convicções mais firmes de Platão era que nada que valesse a pena
aprender podia ser aprendido por mera ‘instrução’: o único método de
‘aprender’ a ciência era engajar-se efetivamente, em companhia de uma
mente mais avançada, na busca da verdade.”[5]
O que tornou ainda mais imprescindível essa influência direta de alma
para alma foi a circunstância social mesma em que se originou o círculo
socrático. Sócrates não entra em cena puxando discussão contra idéias
quaisquer, nem muito menos, como o sr. Lemos, desafiando uma corrente
minoritária (a filosofia como “norma de vida”) que ele mesmo declara
ser alheia à filosofia “séria”. Ao contrário: Sócrates se volta contra
tudo aquilo que, no meio ateniense, é opinião dominante, tida como
respeitável e séria no mais alto grau. Graças ao próprio empenho de
Sócrates e de Platão, a doxa
ateniense nos aparece hoje coberta de ridículo, mas na época ela era
tão respeitada que desafiá-la podia ser punido com a morte, como de
fato o foi. É apenas um estereótipo escolar dizer que, contra essa
constelação de crenças estabelecidas, Sócrates opunha o apelo à
“razão”. Da razão faziam uso tanto ele quanto seus contendores,
argumentando, silogizando e concluindo. Se Sócrates o fazia com mais
destreza do que eles, a superioridade qualitativa não implica uma
diferença de substância. A diferença específica de Sócrates reside num
estrato mais profundo da experiência da discussão. Enquanto seus
adversários repetem idéias correntes, apegando-se à segurança dos
papéis sociais que lhes infundem a ilusão de estar certos por pensar de
acordo com a maioria, ou com a classe dominante, Sócrates fala apenas
como indivíduo humano, sem respaldo em qualquer autoridade externa. E
não apenas faz isso, mas apela ao próprio testemunho íntimo de seus
contendores, o que equivale a despi-los de suas identidades sociais e
induzi-los à confissão direta, sincera, humana, de seus verdadeiros
sentimentos. Um dos recursos de que ele se serve para isso é convidar
cada um a imaginar sua própria morte e a vida no além-túmulo. A
realidade da morte e a perspectiva do julgamento dissolvem as
defesas sociais – as “racionalizações”, diria um psicanalista – e
equalizam os seres humanos na consciência de seu destino concreto. O
mero confronto de opiniões transfigura-se em diálogo entre as almas,
culminando na periagoge, a
virada de 180 graus na direção da consciência que abandona a miragem
coletiva e, voltando-se para dentro, aí descobre as bases permanentes
da sua existência.
Forçar os espectadores a despir-se de sua identidade civil e política
para levá-los contemplar sem defesas a fragilidade da condição humana
era já o objetivo da tragédia grega, que por isso mesmo escolhia como
herói, com freqüência, o estrangeiro, o desconhecido, o rejeitado e
marginalizado, de modo que todo senso de identificação nacional ou
social cedesse lugar à humanidade nua e crua das experiências
fundamentais. Daí que Nicole Loraux, num ensaio memorável, definisse a
tragédia como “o gênero antipolítico” por excelência.[6]
Foi só quando a tragédia já ia perdendo eficácia como forma simbólica
que uma nova modalidade mais diferenciada e explícita de apelo à
humanidade profunda se tornou necessária e possível. Mais que pela sua
técnica argumentativa, deficiente sob tantos pontos de vista, Sócrates
é notável pela sua argúcia psicológica, ou psicopedagógica, da qual não
encontramos similar antes de Montaigne (século XVI), de Pascal (século
XVII) e do advento da novelística moderna no século XVIII. Ao longo de
todos os diálogos socráticos, não se trata nunca de desmantelar
argumentos simplesmente, mas de despertar o senso moral por meio de um
aprofundamento cognitivo das experiências fundamentais. É impossível,
aí, separar o que é “investigação filosófica” do que é “educação
moral”, já que esta orienta aquela e recebe dela o seu fundamento
experimental.
Acontece que nem sempre a operação é bem sucedida. Às vezes o ouvinte é
tão apegado à sua identidade social que não pode imaginar-se desprovido
dela, nu e indefeso, nem por um minuto. No afã de esquivar-se da
experiência íntima, de furtar-se à periagoge,
ele apela a todos os subterfúgios, que vão do raciocínio fantasioso[7]
à chacota e às palavras ameaçadoras, ou então retira-se do diálogo. Aí
a conclusão que se impõe é que estamos diante da inversão formal e
paradigmática da figura do filósofo: o filodoxo, “amante da opinião”.
Essa oposição não é casual, nem mero artifício de retórica. A estrutura
inteira da República e de
outros diálogos está montada em cima de pares de opostos aos quais
Platão dá um sentido estável e que se incorporam na sua linguagem
técnica. Nem todos esses pares, no entanto, sobreviveram na história da
filosofia: alguns conceitos separaram-se de seus opostos e adquiriram
uma vida ficcional autônoma sob a forma de fetiches verbais
consagrados. Explica Eric Voegelin:
“Platão criou seus pares de conceitos no curso da sua resistência à
sociedade corrupta que o rodeava. Da luta concreta contra a corrupção
circundante, no entanto, Platão emergiu vencedor com efetividade
histórica mundial. Em conseqüência, o lado positivo dos seus pares
tornou-se a ‘linguagem filosófica’ da civilização ocidental, enquanto o
lado negativo perdeu seu status
de vocabulário técnico... A perda da metade negativa destituiu a
positiva do seu sabor de resistência e oposição, e deixou-a com uma
qualidade de abstratismo que é profundamente alheia à concretude do
pensamento platônico... A perda mostrou-se maximamente embaraçosa no
par philosophos e philodoxos. Em inglês temos philosophers, mas não philodoxers. A perda é, neste caso,
peculiarmente embaraçosa, porque, na realidade, temos uma abundância de
filodoxos; e, como o termo platônico que os designava se perdeu,
referimo-nos a eles como ‘filósofos’. No uso moderno, portanto,
chamamos de filósofos precisamente as pessoas contra as quais, como
filósofo, Platão se opunha. E uma compreensão da metade positiva do par
se tornou hoje praticamente impossível, exceto para uns poucos
eruditos, porque, quando falamos em ‘filósofos’, pensamos em
filodoxos.”[8]
Newman, falando em “filósofos”, pensa precisamente em filodoxos,
sem saber que o faz. Daí a ambigüidade um tanto constrangedora com que
ele deprecia as ambições moralizantes dos filósofos ao mesmo tempo que
se declara adepto e seguidor de uma filosofia tão obviamente
moralizante como o é a de Aristóteles. Daí também a gafe monumental de
acompanhar Samuel Johnson quando este faz troça das lágrimas de um pai
diante do cadáver da filha.
Mas o filodoxo não se define só por sua oposição à pessoa do filósofo,
e sim, ainda que sem percebê-lo, ao próprio fundamento último da
filosofia platônica (e, por extensão, de toda a filosofia cristã):
“Platão, explica Voegelin, fala do filodoxo como o homem que não pode
suportar a idéia de que ‘o belo, ou o justo, ou o que quer que seja,
sejam um e o mesmo.’”[9] Voegelin lembra a sentença de Xenófanes: “O Um
é o Deus”. Podemos também evocar os “transcendentais” de Duns Scot, Unum, Verum, Bonum, que se convertem uns nos
outros. Tanto em Platão quanto em Aristóteles ou em toda a filosofia
escolástica, o Supremo Bem não é um “valor”, muito menos uma “criação
cultural”, mas a realidade suprema, o ens
realissimum, fundamento primeiro e objeto último de todo
conhecimento.
A repulsa que isso causa à sensibilidade moderna é notória. Desde Kant,
a separação abissal e intransponível entre “realidade” e “valor”
consagrou-se como um dogma incontestável da mitologia universitária,
sem que ninguém perceba que ela se auto-anula no momento em que,
professando expressar um dado incontornável da realidade, se consagra
como um valor cultural.
Max Weber, hipnotizado pela visão do abismo intransponível, mas
ansiando por encontrar um fundamento moral que justificasse sua busca
da verdade científica, chegou a cair numa crise de paralisia nervosa,
ficando cinco anos inutilizado num sofá, por não conseguir escapar do
engano trágico que fazia de uma situação histórica passageira um
princípio fundante de todo conhecimento científico. A “independência
entre as esferas de valores”, como ele a chamava, é o dogma central da
filodoxia. Ela não resulta da natureza das coisas, mas do fato de que,
apegados a suas identidades sociais de professores, de cientistas, de
artistas ou de pregadores, muitos indivíduos, em certas épocas, se vêem
incapacitados de descer à profundidade interior em que se revela a
unidade da experiência humana: confundindo a incompatibilidade
entre suas linguagens profissionais respectivas com uma separação
ontológica objetiva entre os domínios da realidade, não têm sequer a
hombridade weberiana de reconhecer que estão doentes. Realizam, assim,
a profecia de Heráclito, segundo a qual os homens despertos vivem num
mesmo mundo, ao passo que os adormecidos refluem para seus respectivos
mundos mutuamente incomunicáveis. Vários sintomas assinalam essa
patologia. Um deles é o que denomino “moral arbitrária”: o sujeito
proclama que os valores morais não têm nenhuma base científica nem
defesa racional possível, mas continua agindo exteriormente como se
acreditasse no bem e na virtude, ou naquilo que ele assim denomina.
Sugere, assim, que sua conduta ética, ou aparentemente ética, não
deriva do Supremo Bem, mas da sua própria, misteriosa, arbitrária e
inexplicável bondade pessoal. É a forma de autobeatificação mais
querida dos intelectuais céticos e materialistas.
Outros, como o próprio sr. Lemos, preferem consagrar a separação
abissal entre fatos e valores como se fosse ela mesma o valor supremo,
daí proclamando que a “ética prática” não tem nada a ver com a sua
“filosofia séria”. O sr. Lemos, com toda a evidência, confunde
filósofos com filodoxos porque ele mesmo é um destes últimos.
A fé inocente com que ele aceita como absoluto a intransponível o
divórcio entre o real e o bem, tomando simples nomes atuais de
profissões ou de disciplinas (“ética prática”, “auto-ajuda”, “ciência”,
“filosofia” etc.) como se correspondessem a divisões objetivas e
eternas na estrutura do cosmos, evidencia que ele não entende, nem
muito menos assume como sua, a obrigação número um do filósofo, que é a
busca da unidade para além e por cima de todos os abismos e
dificuldades que a cultura – a doxa
– pode ter espalhado ao longo do caminho. Separando o Verum e o Bonum, ou antes, aceitando
acriticamente essa separação tão cara à doxa contemporânea como se fosse um
dado inquestionável da realidade mesma e não a simples cristalização
histórica de uma notória dificuldade de comunicação entre escolas e
estilos de pensamento, ele toma a desordem da cultura como se fosse a
ordem cósmica e, portanto, bloqueia – para si mesmo e para quem lhe dê
ouvidos – toda
possibilidade de aspiração ao Unum.
Se, depois disso, ele continua se apresentando como um porta-voz da
“razão”, é evidente que ele jamais se perguntou o que pode haver ainda
de “racional” num mundo de onde a unidade foi expulsa de uma vez para
sempre e a divisão convencional do trabalho se tornou o único princípio
metafísico restante. Ou seja: a “razão” de que ele se gaba é um
estereótipo verbal apenas, não algo cuja experiência ele tenha jamais
sondado em profundidade ou sequer imaginado que devesse sondar.
Raramente se viu a devoção servil à doxa
brilhar com tão obsceno esplendor.
Desde a posição existencial frágil e vacilante em que isso o coloca, é
inevitável que ele não possa argumentar senão falsificando o sentido
dos textos que cita e cometendo, sob a ostentação de “rigor lógico”, os
ilogismos mais pueris e desengonçados. Como mesmo isso não baste para
camuflar sua insegurança, ele parte para a psicose historiográfica e,
como diria uma velha expressão popular francesa, pète plus haut que son cul: sem
qualquer explicação, sem nos dar nem a mais mínima idéia do que pode
havê-lo conduzido a tão inusitada opinião, ele declara peremptoriamente
que o heroísmo de Sócrates antes os juízes foi “uma lenda”, e inclui o
filósofo entre os que, como o personagem de Rasselas, “fracassaram na
adversidade”. A tranqüilidade fria e como que desinteressada com que
ele se dispensa de tentar justificar essa enormidade só pode
explicar-se pela confiança absoluta que ele deposita naquilo em que
crê, como se o houvesse testemunhado com seus próprios olhos. Não se
preocupem, portanto: o sr. Lemos esteve lá, viu tudo, e nem todos os
testemunhos do mundo o demoverão da certeza de que no momento decisivo,
Sócrates, em vez de dar aos discípulos um exemplo de coragem, como o
acreditam Platão e outros ingênuos, fez pipi nas calças.[10]
Richmond, VA, 7 de abril de 2012.
Notas:
[1] Júlio Lemos, “Sobre uma superstição”, em http://www.dicta.com.br/, 5 de abril de 2012.
[2] O texto completo encontra-se online em http://www.newmanreader.org/works/idea/.
[3] V. C. Stephen Jaeger, The Envy of the Angels. Cathedral Schools and Social Ideals In Medieval Europe, 950-1200, Philadelphia, University of Pennsylvania Press, 1994.
[4] Stenzel, Platone Educatore, trad. Francesco Gabrieli, Bari, Laterza, 1966, p. 17.
[5] A. E. Taylor, Plato: The Man and His Work (1926), Mineola, NY, Dover, 2001, p. 6.
[6] V. Nicole Loraux, The Mourning Voice: An Essay on Greek Tragedy, transl. Elizabeth Trapnell Rawlings. Cornell University Press. 2002.
[7] V. as observações argutas de Eric Voegelin sobre a “antropologia de sonho” que está na base das teorias contratualistas, em Plato and Aristotle. Order and History vol. III, Columbia and London, University of Missouri Press, pp. 129-131.
[8] Op. cit., pp. 119-120.
[9] Id., ibid.
[10] Mais tarde, na área de comentários, o sr. Lemos tentou justificar-se alegando que as fontes de Platão na Apologia de Sócrates são duvidosas. Com base nisso ele se acredita autorizado para afirmar categoricamente, sem fonte nenhuma,
o contrário do que Platão diz. É esse o homem que quer dar lições de
“rigor lógico” a um estupefato mundo. Ainda não aprendeu que entre uma
dúvida e a certeza do contrário a distância é infinita.
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