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As garras da Esfinge

Ren Gunon e a islamizao do Ocidente

Olavo de Carvalho
Verbum, Ano I, Nmeros 1 e 2, Julho-Outubro de 2016

          



I

    As transformaes histricas e espirituais profundas que vo determinar o futuro da humanidade esto to distantes da nossa mdia, da nossa vida universitria e, de modo geral, de todos os debates pblicos neste pas, que com certeza aquilo que vou dizer neste artigo parecer estratosfrico e alheio realidade imediata.
    O doente incurvel que geme de dor num leito de hospital dificilmente se interessar, nessa hora, pelas controvrsias mdicas, bioqumicas e farmacolgicas que se desenrolam em pases longnquos e em idiomas que ele desconhece, mas das quais poder vir, um dia, a cura da sua doena. O que mais de perto diz respeito ao seu destino lhe parece distante, abstrato e alheio sua dor.
    Os que se interessam pelo futuro do Brasil deveriam prestar ateno ao que vou lhes dizer aqui, mas ser muito difcil faz-los ver que que uma coisa tem algo a ver com a outra.
    Vou comear analisando a resenha que um autor desconhecido neste pas  faz do livro de outro autor igualmente ignorado por aqui.
    O livro False Dawn: The United Religions Initiative, Globalism, and the Quest for a One-World Religion, de Lee Penn (Sophia Perennis, 2005), que j recomendei muitas vezes mas poucos leram, por ser um calhamao de documentos longos e chatssimos. O resenhista Charles Upton, autor de The System of the Antichrist (id., 2001), que foi menos lido ainda, j que o recomendei com menos nfase e constncia. A resenha foi publicada num livro mais recente de Upton, Findings: In Metaphysic, Path, and Lore, A Response to the Traditionalist/Perennialist School (id., 2010) e reproduzida na revista eletrnica da editora, http://www.sophiaperennis.com/discussion-forums/sophia-perennis-book-reviews/false-dawn-the-united-religions-initiative-globalism-and-the-quest-for-a-one-world-religion/.
    O livro de Lee Penn descreve e documenta com abundncia de fontes primrias a formao e desenvolvimento de uma religio binica  mundial, com todas as caractersticas de uma pardia satnica, sob os auspcios da ONU, do governo americano, de praticamente toda a grande mdia ocidental e de um punhado de megafortunas. Iniciado em 1995 por William Swing, bispo da Igreja Episcopal, com o nome de United Religions Initiative (URI, v. http://www.uri.org), embora extra-oficialmente existisse desde muito antes (remontando ao Lucis Trust fundado em 1922 por Alice Bailey), o empreendimento, sustentado por recursos financeiros incalculavelmente vastos e apoiado por todo um cast de estrelas do show business e da poltica, conquistou at o apoio informal do Papa Francisco (v. http://remnantnewspaper.com/web/index.php/articles/item/511-pope-francis-and-the-united-religions-initiative).
    Com o lindo objetivo de criar “um mundo de paz, sustentado por comunidades engajadas e interconectadas, comprometidas com o respeito diversidade, com a resoluo no-violenta dos conflitos e com a justia social, poltica, econmica e ambiental”, o movimento rene, em festivas celebraes ditas “ecumnicas”, catlicos, protestantes, judeus, muulmanos, budistas, xintostas, animistas, espritas, teosofistas, ba’hais, sikhs, adeptos da New Age, da Wicca, do satanismo, do Reverendo Moon, dos Hare Krishna e de qualquer culto indgena ou ufolgico que se apresente, dando a tudo um sentido de fraternidade universal que dissolve entre sorrisos de condescendncia mtua as mais bvias e insuperveis incompatibilidades entre essas diversas crenas.
    Todas as religies e pseudo-religies somadas, fundidas e mutuamente neutralizadas reduzem-se assim a um instrumento auxiliar do projeto globalista voltado criao de um Governo Mundial.
    Grosso modo, a ideologia que gruda uns nos outros esses elementos heterogneos e inconciliveis o universalismo low brow da “Nova Era”, que, copiando mal e mal a linguagem da tradio hindu, proclama serem todas as religies nada mais que aspectos locais e acidentais assumidos por uma Revelao Primordial nica, donde se conclui que, por este ou aquele caminho, todo mundo chegar mais dia, menos dia, aos mais altos estgios da realizao espiritual humana ou mesmo sobre-humana.
    Essa ideologia teve precursores no sculo XIX, como Allan Kardec, Helena Petrovna Blavatski, a clebre teosofista e – literalmente – batedora de carteiras, Jules Doinel, fundador da Igreja Gnstica francesa (1890), Gerard Encausse, mais conhecido como “Papus”, Jean Bricaud e, de modo geral, todos os componentes do movimento que viria a se chamar “ocultista”.
    Esse “universalismo”, que no incio do sculo XX soava apenas como uma fantasia extica, acabou por penetrar to fundo no senso comum das multides que hoje a equivalncia de todas as religies em dignidade e valor um dogma subscrito por toda a grande mdia mundial, pelos parlamentos, pelas legislaes da quase totalidade dos pases e pela maioria das prprias autoridades religiosas.
    Longe de ser um fenmeno espontneo, essa radical transformao das crenas coletivas reflete o trabalho incessante dos onipresentes agentes da URI, a cuja interferncia nenhuma organizao socialmente relevante est imune.
    No necessrio, portanto, enfatizar a importncia desse projeto dentro dos planos globalistas, nem, claro, possvel negar o valor do trabalho de Lee Penn ao reunir e ordenar documentao mais que suficiente para provar a unidade de inspirao e de estratgia por trs de fenmenos que ao observador leigo podem parecer dispersos e inconexos.
    O resenhista, Charles Upton, enaltece os mritos do livro e acrescenta-lhe um esclarecimento que, diz ele, j havia transmitido pessoalmente ao autor, com total concordncia deste.
    O esclarecimento este: No se deve confundir o “universalismo” pardico da Nova Era e da URI com o universalismo high brow da escola dita “tradicionalista” ou “perenialista” inspirada em Ren Gunon, Frithjof Schuon, Ananda K. Coomaraswamy e seus continuadores.
    verdade. So muito diferentes. Com muita antecedncia, o fundador da escola, Ren Gunon, j havia submetido a devastadoras anlises crticas toda a ideologia “ocultista” que dcadas mais tarde viria a constituir a base doutrinal – se cabe o termo -- da “Nova Era” e da URI.
    Membro e at bispo da Igreja Gnstica na juventude, Gunon logo saiu atirando e no fez prisioneiros. Nem um pouco mais intactos ficaram o espiritismo de Allan Kardec, a teosofia de Madame Blavatski e mil e um outros movimentos nos quais Gunon via a encarnao mesma daquilo que ele chamava “pseudo-iniciao” e “contra-iniciao” – a primeira constituindo a imitao simiesca da espiritualidade, a segunda a sua inverso satnica.
    Na verdade o contraste entre o universalismo da URI e o da corrente gunoniana-schuoniana vai muito alm da mera diferena entre low brow e high brow, embora essa diferena seja patente aos olhos de quem os compare.
    De um lado vemos um pastiche de sincretismos inconseqentes reforados por alguma retrica humanitria sentimentalide ou futurista (ora “progressista”, ora “conservadora”, para agradar a todos) e adornado no mximo, aqui e ali, pela adeso superficial de algum escritor da moda, como Aldous Huxley e Allan Watts.
    Do outro lado, construes intelectuais sofisticadas, uma compreenso profunda e organizada dos smbolos religiosos e esotricos  de todas as tradies, um domnio cabal das fontes reveladas e uma tcnica comparatista que se aproxima, em preciso, quase que de uma cincia exata. Por acrscimo, algumas das anlises mais consistentes da crise civilizacional do Ocidente nas suas vrias expresses: cultural, social, artstica etc.
    A diferena salta aos olhos de qualquer leitor culto. Em contraste com a mixrdia sincretstica da “Nova Era”, temos aqui um universalismo no sentido forte da palavra, uma viso abrangente e ordenadora que no somente apreende com extrema agudeza os pontos comuns entre as vrias cosmovises espirituais, mas d a razo e fundamento da sua diversidade, de modo que a essa articulao do uno e do mltiplo se subordina, na verdade, toda a histria universal das idias e das crenas, das teorias e prticas, numa palavra: tudo o que o ser humano fez e pensou na sua caminhada sobre a Terra. No h praticamente nada, nenhum fenmeno, nenhum pensamento, nenhum acontecimento fausto ou infausto, que de algum modo no encontre alguma explicao “perenalista” eficiente e persuasiva, quando no irrefutavelmente certa. 
    Do ponto de vista do buscador comum que, proveniente dos meios revolucionrios, modernistas e atesticos, alertado para a importncia dos temas “espirituais” e, aps uma iluso temporria com a “Nova Era”, se desilude com a sua superficialidade e sai em busca de alimento mais nutritivo, a passagem ao tradicionalismo de Gunon e Schuon um upgrade intelectual formidvel, um impacto desaculturante, quase uma transfigurao interior que repentinamente o isolar do ambiente mental em torno, marcado a um tempo pelo descrdito das religies e pela vulgaridade sem fim do ocultismo onipresente, e o deixar sozinho, face a face com a sua conscincia. Cumpre-se assim, na escala individual, a clebre profecia emitida por um bigrafo annimo de Ren Gunon logo aps a morte do mestre:
    “Chegar o momento em que cada um, sozinho, privado de todo contato material que possa ajud-lo em sua resistncia interior, ter de encontrar em si mesmo, e s nele mesmo, o meio de aderir firmemente, pelo centro de sua existncia, ao Senhor de toda Verdade.”1
    Raros, rarssimos so os que chegam a esse ponto – a maioria vai tombando pelo caminho --, mas, para aquele que chega, difcil resistir, ento, ao impulso de fazer contato pessoal com os crculos gunonianos e schuonianos, em busca de alvio, apoio e orientao. por esse processo de seleo espontnea que se forma a “elite intelectual” que, como veremos adiante, Gunon tinha em vista no livro Oriente e Ocidente, de 1924.
    Pois evidente que, entre as vrias cosmovises em luta, a mais abrangente, que absorve e explica todas as outras, est no topo. o cume da conscincia de uma poca, o nec plus ultra  da inteligncia e do inteligvel.
    O que confere ainda mais autoridade ao ensinamento perenialista a afirmao reiterada de seus expositores, de que ele no inveno sua, mas o mero traslado, em linguagem terica atual, de revelaes imemoriais que remontam a uma Fonte originria nica, a Tradio Primordial. Afirmao idntica, na superfcie, dos prceres da “Nova Era”, mas agora fundamentada numa superabundncia de provas documentais, de argumentos racionais, de toda uma cincia organizada do simbolismo universal e do comparatismo, da qual nascem tours de force intelectualmente deslumbrantes como os Symboles de la Science Sacre do prprio Ren Gunon2 e A Treasury of Traditional Wisdom, de Whitall N. Perry,3 um dos mais prximos colaboradores de F. Schuon nos EUA, monumental coletnea de textos sacros organizados de modo a ilustrar, acima de qualquer dvida razovel, a convergncia essencial das doutrinas e smbolos das grandes tradies religiosas e espirituais, a Unidade Transcendente das Religies como a denominava Schuon no ttulo de um livro que ningum menos que T. S. Eliot considerou o maior feito de todos os tempos no campo da religio comparada.
    Toda semelhana com o “universalismo” da URI enganosa.
    Em primeiro lugar, todos os perenialistas, sem exceo, insistem que as doutrinas, smbolos e ritos das vrias tradies em particular, malgrado apontem sempre para uma Realidade suprema que a mesma em todos os casos, tm uma integridade prpria, no podem ser objeto de fuso, mescla ou sincretismo. Ou seja: no podem sofrer o tipo de operao unificante que, precisamente, caracteriza a “Nova Era”.
    Em segundo lugar, nem tudo o que se apresente com o nome de religio, espiritualidade, esoterismo ou coisa parecida pode entrar nessa sntese. Bem ao contrrio, comum a todos os perenialistas a distino precisa, rigorosa e at intolerante entre Tradio, Pseudo-Tradio e Antitradio. Boa parte do material compactado na “Nova Era” entra nestas duas ltimas categorias e, longe de integrar a unidade da fonte primordial, representa a pardia ou negao de tudo o que vem dela.
    Em terceiro e mais importante lugar, a unidade transcendente das religies mesmo transcendente, no imanente. As religies a esto unificadas apenas pelo topo, pelo cume e ncleo vivo das suas concepes doutrinais, e no pela variedade irredutvel das suas liturgias, dos seus cdigos morais e das suas diferentes “vias” de realizao espiritual. E onde, precisamente, est esse ncleo e topo? Est nas suas respectivas concepes metafsicas, que de fato so convergentes, como a simples coletnea organizada por Whitall Perry basta para demonstr-lo acima de toda possibilidade de controvrsia. Nesse sentido, as religies e tradies espirituais podem ser vistas, sem distoro, como adaptaes de uma mesma Verdade Primordial s condies histrico-culturais, lingsticas e psicolgicas dos vrios tempos, lugares e civilizaes. Os vrios exoterismos refletiriam, nas suas diferenas, a unidade de um mesmo esoterismo primordial. Os homens que chegaram a apreender claramente a unidade desse esoterismo superaram, intelectivamente, a diferena entre as religies, mas, como no so feitos de puro intelecto e tm ainda uma existncia histrico-temporal de pessoas de carne e osso, continuam subordinados cada um sua respectiva tradio religiosa, sem poder fundi-la ou mistur-la com qualquer outra. O exemplo clssico o grande mestre sufi Mohieddin Ibn’ Arabi. Afirmando explicitamente que seu corao podia assumir todas as formas – a do brhmana hindu, a do rabino cabalista, a do monge cristo ou qualquer outra --, ele continuava, na sua vida de indivduo real e concreto, inteiramente fiel mais estrita ortodoxia islmica.
    Mas a que comeam os problemas.

II

    Desde logo, essa concepo exige, ao lado da diferenciao “horizontal” entre as vrias tradies no tempo e no espao, uma distino “vertical”, ou hierrquica, entre as partes “inferiores” e “superiores” de cada uma. As “inferiores”, ou exotricas, so historicamente condicionadas e por elas as tradies de afastam umas das outras at o ponto da hostilidade mtua e da total incompatibilidade. As partes “superiores”, esotricas, refletem a eternidade imutvel da Verdade, onde todas as tradies convergem e se encontram.
    H, em suma, uma religio popular, feita de ritos e normas de conduta, igual para todos os membros da comunidade, e uma religio de elite, apenas para as pessoas “qualificadas”, que por trs dos smbolos e das leis podem apreender o “sentido” ltimo da revelao. Pela prtica dos ritos de agregao que os integram na tradio religiosa e pela obedincia as normas, os homens do povo obtm a “salvao” post mortem das suas almas. Por meio de ritos de iniciao, os membros da elite obtm j em vida, e muito acima da mera “salvao”, a realizao espiritual que os arrebata do simples “estado individual” de existncia para transfigur-los na prpria Realidade ltima, ou Deus.
    bom no falar muito dessas coisas perante o pblico em geral, que pode escandalizar-se ante a decifrao de um mistrio que deve permanecer opaco para a sua prpria proteo espiritual. bem conhecida a histria do sufi Mansur Al-Hallaj (858-922), que aps ter chegado ltima “realizao espiritual”, saiu gritando “Ana al-Haqq!” (“Eu sou a Verdade”) e foi decapitado pelas autoridades exotricas. Al-Haqq no quer dizer somente “a verdade” no sentido genrico e abstrato. um dos noventa e nove “Nomes de Deus” impressos no Coro, de modo que a declarao de Al-Hallaj equivalia literalmente a “Eu sou Deus”. Do ponto de vista da ortodoxia esotrica, isso resultava em negar o princpio cornico da unicidade de Deus, constituindo um crime que devia ser castigado com a morte. Mais tarde os juristas islmicos admitiram que afirmaes proferidas por sufis em estado de “arrebatamento mstico” escapavam alada da justia comum e deviam ser aceitas como mistrios indecifrveis.
    No sentido explcito, legal e oficial, a distino entre exoterismo e esoterismo s existe numa nica tradio: o Islam. Corresponde distio entre shari’ah e tariqat. De um lado, a lei religiosa obrigatria para todos; de outro, a “via” espiritual, de livre escolha, s para as pessoas interessadas e dotadas. A aplicao dessa distino a todas as outras tradies meramente sugestiva ou analgica – uma figura de linguagem e no um conceito descritivo apropriado. Com isso o edifcio inteiro do “perenialismo” comea a balanar um pouco.
    Existem, por exemplo, exoterismo e esoterismo na tradio hindu, justamente aquela de cujo vocabulrio Ren Gunon se serve mais freqentemente, por julgar que o hinduismo alcanou clareza mxima na exposio da doutrina metafsica? Evidentemente no. A distino de castas algo de completamente diverso. Primeiro, porque o ingresso na casta superior no de livre escolha: o sujeito nasce shudra, vaishia, kshatyia ou brhmana e assim permanece para sempre. Segundo, porque acidentalmente membros das castas inferiores podem alcanar os mais altos nveis de realizao espiritual sem mudar de casta. Terceiro, porque os ritos da casta superior, ou brhmana, nada tm de secreto ou discreto: qualquer z-man pode conhec-los, s no tem a autorizao de pratic-los.
    Existe um “esoterismo cristo”? A coisa, a, complica-se formidavelmente. Existiram e existem, aqui e ali, organizaes esotricas que se professavam crists e que, por meio de ritos especiais, diferentes dos sacramentos da Igreja, transmitem iniciaes. A Companheiragem, os Fedeli d’Amore, a Maonaria e a Ordem Templria so exemplos. Mais modernamente, inmeros ocultistas, como Madame Blavatski, Rudolf Steiner e Georges Ivanovich Gurdjieff apresentaram seus ensinamentos como modalidades de esoterismo cristo.
    Mas restam alguns fatos que bastam para dar por terra com essas pretenses.
    Desde logo, no h traos de nenhuma organizao esotrica crist nos primeiros dez sculos da Igreja. Em segundo lugar, o prprio Nosso Senhor Jesus Cristo afirmou taxativamente: “Nada ensinei em segredo.” Mesmo Suas parbolas, cujo sentido no era imediatamente evidente a todos, eram ditas em pblico, no a um crculo reservado. Como possvel ento que o ncleo do ensinamento do Salvador fosse conservado em segredo durante dez – ou vinte -- sculos?
    Em contraste, no Islam a diferena de exoterismo e esoterismo aparece nitidamente desde o primeiro momento. Ao ver um grupo de companheiros do Profeta praticando certos ritos estranhos, diferentes das cinco preces dirias, os fiis foram perguntar a ele de que se tratava. Ele explicou que eram devoes voluntrias, meritrias mas no obrigatrias. Esse foi o primeiro sinal da existncia do tasawwuf ou “sufismo”, o esoterismo islmico.4
    Em terceiro lugar, e mais decisivo: os sacramentos da Igreja no so meros “ritos de agregao”. So iniciticos de pleno direito. No do acesso somente comunidade de fiis – ou sua “egrgora” ou  conscincia coletiva --, mas, Deo juvante, ao conhecimento mais ntimo da Realidade Suprema a que um ser humano pode aspirar. “No sou mais eu que existo”, diz o Apstolo, “ Cristo que existe em mim”.
    Joo Paulo II, no seu Catecismo, declara explicitamente que os sacramentos so os passos “da iniciao crist”, e no concebvel que, num texto to formalmente doutrinrio, usasse o termo como mera figura de linguagem.
    O Pe. Juan Gonzlez Arintero, em dois livros memorveis que provavelmente constituem o cume da literatura mstica no sculo XX, demonstra com abundncia de argumentos e exemplos que a via dos sacramentos foi aberta justamente para dar a todos, sem exceo, o acesso aos mais altos patamares da realizao espiritual.5 A distino de exotricos e esotricos s serve a como metfora  para designar o diferente aproveitamento espiritual obtido por este ou aquele indivduo conforme suas aptides, seu empenho e os movimentos da Graa divina.
    Todos os cristos que receberam os sacramentos so, portanto, iniciados, no sentido estrito que o perenialismo d a essa palavra. A diferena entre os vrios resultados espirituais obtidos pode ser explicada por um conceito desenvolvido pelo prprio Ren Gunon, o de iniciao virtual. Nem todos os ritos de iniciao produzem imediatamente os resultados espirituais que lhes correspondem. Esses efeitos podem permanecer retidos por muito tempo at que algum fator externo – ou a evoluo do prprio recipiente -- os convoque plena manifestao.
    Para complicar um pouco mais as coisas, o prprio F. Schuon reconheceu que os sacramentos cristos tinham alcance inicitico. Para vocs avaliarem o quanto essa questo espinhosa para a escola perenialista, basta lembrar que, publicada a opinio de Schuon a respeito, Gunon reagiu com indignao e fria, chegando a romper relaes com o seu discpulo e continuador.6
    Gunon continuou teimando que os sacramentos cristos eram apenas ritos de agregao e que autnticas iniciaes s existiram em determinadas organizaes secretas ou discretas, como a Companheiragem ou a Maonaria. Para sustentar essa tese, inventou uma das hipteses histricas mais artificiosas que algum j viu: o cristianismo teria surgido inicialmente como um esoterismo, mas, em vista da decadncia geral da religio greco-romana, teria sido forado ex post facto a popularizar-se, acabando por reduzir-se a um exoterismo. No h absolutamente nenhum sinal de que isso jamais tenha acontecido. Bem ao contrrio, Jesus falou abertamente s multides desde o incio da sua pregao, e os sacramentos no sofreram nenhuma mudana substancial de forma ou contedo ao longo dos tempos. Quaisquer que possam ter sido os seus erros em outros domnios, nesse ponto Schuon estava com a razo.
    tambm s como figura de linguagem que a distino de exoterismo e esoterismo – ou de ritos de agregao e de iniciao – pode se aplicar ao judasmo, j que os cultores de mistrios cabalsticos ali no so outros seno os prprios sacerdotes do culto oficial.
    To inapropriada a aplicao dessa dupla de conceitos ao territrio extra-islmico, que membros da prpria escola perenianista acabaram tendo de reconhecer a existncia de iniciaes “exo-esotricas” e at “exotricas” ao lado das propriamente “esotricas”,7 o que j basta para mostrar que esses conceitos servem para pouca coisa.
    A falta de argumentos razoveis e a reao desproporcional de Gunon ante o que poderia ter se limitado a uma discusso entre amigos  sugerem que nesse episdio ele podia estar escondendo alguma coisa. No podendo falar claro, apelou a uma hiptese absurda e tentou reduzir o interlocutor ao silncio mediante uma exibio de autoridade, que Schuon educadamente rejeitou.
    Qual a razo pela qual Gunon teria escolhido enquadrar fora  todas as tradies numa dupla de conceitos que no se aplicava apropriadamente a nenhuma delas exceto o islamismo em particular? Por que esse homem, to criterioso em tudo o mais, se permitiu tamanha arbitrariedade, colocando-se assim numa posio vulnervel que se viu posta em risco to logo Schuon levantou a questo das iniciaes sacramentais? Quase com certeza teve, para faz-lo, motivos que, ao menos naquele momento, no podiam ser discutidos abertamente.
    Mas antes mesmo de esclarecer esse ponto preciso levantar uma outra questo.

III

    Que as tradies materialmente diferentes convergem na direo de um mesmo conjunto de princpios metafsicos algo que no se pode mais colocar seriamente em dvida. A tese da Unidade Transcendente das Religies vitoriosa sob todos os aspectos.
    S h um detalhe: Que propriamente uma metafsica? No uso o termo como denominao de uma disciplina acadmica mas no sentido muito especial e preciso que tem nas obras de Gunon e Schuon. Que uma metafsica? a estrutura da realidade universal, que desce desde o Primeiro Princpio infinito e eterno at os seus inumerveis reflexos no mundo manifestado, atravs de uma srie de nveis ou planos de existncia. 
    O fato de que ela seja essencialmente a mesma em todas as tradies indica que existe uma percepo normal da estrutura bsica da realidade, comum a todos os homens de qualquer poca ou cultura.
    Essa percepo exige uma conscincia clara ou ao menos um pressentimento da escalaridade do real, isto , das distines entre diferentes planos ou nveis de realidade, desde os objetos sensveis da percepo imediata at a Realidade ltima, o Princpio absoluto, eterno, imutvel e infinito, passando por uma srie de graus intermedirios: histrico, terrestre, csmico, anglico etc.
    A perfeita submisso da subjetividade humana a essa estrutura est subentendida em todas as tradies como uma conditio sine qua non da vida religiosa e, mais ainda, da realizao espiritual. Sua negao, mutilao ou alterao a raiz de todos os erros e desvarios da humanidade.
    por isso que F. Schuon prope uma distino entre heresia essencial e heresia acidental. A palavra “heresia” vem de uma raiz grega que tem as acepes de “escolher” e “decidir”. Um heresiarca algum que, por vontade prpria, escolhe da verdade total as partes que lhe interessam e ignora as demais.
    Heresia acidental, segundo Schuon, a negao, mutilao ou alterao dos cnones de uma tradio em particular, como por exemplo o monofisismo na Cristandade (a teoria de que Jesus tinha s a natureza divina, no a humana) ou o associacionismo no Islam (associar Deus a outros seres).
    Heresia essencial a negao, mutilao ou alterao da prpria estrutura da realidade – um erro, portanto, que seria condenado no apenas por esta ou aquela tradio em particular, mas por todas elas. O materialismo ou o relativismo, por exemplo.
    Tudo isso est muito bem, mas h um problema lgico. Se a metafsica comum a todas as tradies, como pode ser o topo e a suprema perfeio de cada uma delas? Por definio, a perfeio de uma espcie no pode estar no seu gnero: tem de estar na sua diferena especfica. A perfeio do leo e da pulga no pode residir no simples fato de que ambos so animais.
    admissvel que, na escalada inicitica do indivduo, a chegada Realidade Suprema, que o eleva acima do seu estado individual e o absorve no prprio Ser da divindade, a culminao dos seus esforos. Ela corresponderia tambm, segundo o perenialismo, ao momento em que as diferenas entre as tradies espirituais so definitivamente transcendidas, sem deixar de continuar valendo para a existncia emprica do iniciado no plano terrestre. Mohieddin Ibn ‘Arabi sendo cristo, zoroastriano ou judeu “por dentro” sem deixar de ser ortodoxamente muulmano “por fora”.
    Mas, por isso mesmo, a metafsica s pode ser a culminao das tradies enquanto tais se aceitarmos uma indistino entre a ordem do Ser e a ordem do conhecer, que, segundo ensinava Aristteles, so inversas. O topo da escalada inicitica no pode ser, ao mesmo tempo, a culminao das religies porque, sendo comum a todas elas, apenas o gnero a que pertencem e no a suprema perfeio especfica de cada uma.
    Mais razovel seria supor que a Tradio primordial a base comum no s a todas as tradies espirituais, mas a todas as culturas e, no fim das contas, ao ncleo de inteligncia s presente em todos os seres humanos. Partindo dessa base, ou origem, as vrias tradies se desenvolvem em direes diferentes, cada uma buscando refletir mais perfeitamente o Princpio absoluto e dar aos homens os meios de retornar a Ele. Nesse sentido, a culminao de cada tradio no o Princpio em si, mas o sucesso que obtm na operao de retorno. E no h por que supor que, das vrias espcies, todas expressem igualmente bem a perfeio do gnero: as pulgas e os lees so igualmente animais, mas nem por isso a pulga expressa a perfeio da animalidade to bem quanto o leo, para nada dizer do ser humano.
    Schuon afirma que a pretenso de cada religio de ser “melhor” que as outras s se justifica pelo fato de que todas elas so “legtimas”, isto , refletem a seu modo a Tradio Primordial, mas que vistas na escala da eternidade e do absoluto, essa pretenso se revela ilusria.8 No entanto, se a perfeio de uma espcie no pode residir apenas no seu gnero, e sim na sua diferena especfica, no h nenhum motivo para dar por provado que todas as espcies representem por igual a perfeio do gnero. Todas as religies remetem a uma Tradio Primordial, OK, mas todas a representam igualmente bem? A pergunta inteiramente legtima, e em parte alguma a escola perenialista lhe ofereceu – ou tentou oferecer -- uma resposta aceitvel. Na verdade, nem colocou a pergunta. Ser que at nessas altas esferas encontraremos o fenmeno da “proibio de perguntar”, que Eric Voegelin discerniu nas ideologias de massa?

IV

    “A gerao da Escola Tradicionalista reunida em torno de Frithjof Schuon – escreve Charles Upton – apresentou e revelou as religies em suas essncias celestiais, sub specie ternitatis.”9
    Se as essncias celestiais das religies so substancialmente a mesma, a diferena entre elas puramente terrestre e contingente, as formas particulares de cada uma nada tendo de sagrado em si mesmas  sem a seiva que recebem da Tradio Primordial: s esta, a Religio Perennis,10 verdadeira em sentido estrito. As demais so smbolos ou aparncias imperfeitas de que ela se reveste na suas vrias encarnaes terrestres.
    Mas – prossegue o mesmo Upton – “essas revelaes so consideradas ramos da Tradio Primordial, mas esta Tradio no presentemente vigente enquanto sistema religioso; no uma religio que possa ser praticada. Os nicos caminhos espirituais viveis existem sob a forma – ou dentro – das presentes revelaes viventes: Hindusmo, Zoroastrismo, Budismo, Judasmo, Cristianismo e Islam.”11
    Mas esses caminhos levam somente “salvao” numa vida post mortem. Para subir um pouco mais alto j na vida presente preciso, sem abandon-los, filiar-se a uma organizao esotrica e praticar, alm dos ritos e mandamentos da religio popular, alguns ritos e mandamentos especiais, de carter inicitico.
    Dito de outro modo, a religio popular um atestado de qualificao exigido do postulante na entrada do caminho inicitico. Para o muulmano, isso no um grande problema. Embora tenham uma existncia parte, as tariqas (turuq, em rabe) so em geral reconhecidas como legtimas pela religio oficial, de modo que o fiel interessado pode transitar livremente entre os dois tipos de prticas.
    Para o hindu, tambm no problema: ainda que inexistindo propriamente um esoterismo hindu, o hindusmo aceita e absorve todas as prticas de outras religies, de modo que – descontados os conflitos polticos entre hindustas e muulmanos – nada impede que um hindu se filie a uma tariqa, Maonaria, a uma Trade chinesa ou a qualquer outra organizao esotrica sem mudar de estatuto na sua sociedade de origem.
    No caso de um catlico, porm, a coisa se complica. Segundo Gunon, todas as organizaes iniciticas crists foram desaparecendo depois da Idade Mdia, deixando os pobres fiis limitados a um exoterismo espiritualmente capenga. Sobraram s uns resduos de organizaes extintas e... a Maonaria.
    Acontece que uma sentena do Papa Clemente XII, em 1738, condenou excomunho automtica todo fiel catlico que se filiasse Maonaria (ou a qualquer outra sociedade secreta). A deciso foi reforada pelo Papa Leo X em 1890 e formalizada pelo Cdigo de Direito Cannico de 1917. O novo Cdigo do Papa Joo Paulo II, em 1983, falava somente em “sociedades secretas”, sem mencionar nominalmente a Maonaria, o que por breves instantes deu a impresso de que a excomunho fora suspensa, at que a Congregao para a Doutrina da F, em novembro daquele mesmo ano, esclareceu que no era nada disso, que a proibio de ingressar na Maonaria continuava em vigor.
    Isto , o fiel catlico que lesse Ren Gunon e acreditasse nele, vendo na perda da dimenso inicitica a raiz de todos os males do mundo moderno, era espremido contra a parede pela opo entre desistir de vez do esoterismo, contentando-se com o exoterismo cada vez mais reduzido a um moralismo exterior, e aceitando portanto ser cmplice da degradao espiritual moderna, ou ento buscar uma iniciao manica e ser excomungado, isto , perder a filiao exotrica que, segundo o mesmo Gunon, era a conditio sine qua non do ingresso no esoterismo.
    O conflito no era somente de ordem legal. Embora tivesse origem remota em organizaes esotricas professadamente crists, a Maonaria tinha se tornado, em vrias partes do mundo, uma fora ostensivamente e violentamente anticatlica, incentivando perseguies e matanas de catlicos, principalmente na Frana (durante a Revoluo e depois de novo no princpio do sculo XX),12 no Mxico (onde isso provocou a guerra dos Cristeros) e na Espanha, onde, com a mal disfarada conivncia do governo republicano manico, padres e fiis foram mortos a granel e muitas igrejas destrudas antes mesmo da ecloso da Guerra Civil.
    Quer dizer: o catlico que se filiasse Maonaria no apenas incorria em excomunho automtica, mas se tornava um traidor de seus correligionrios assassinados.
    Gunonianos catlicos como Jean Tourniac fizeram o diabo para provar que as doutrinas manicas eram compatveis com o catolicismo, mas, claro, isso ficou na teoria.13 Conversaes entre lderes catlicos e maons em busca de um acordo no deram em nada. A excomunho continuava em vigor, e o risco moral continuava altssimo.
    A partir dos anos 60, quando esses problemas comearam a tornar-se objeto de discusso mais aberta nos crculos de interessados em  tradicionalismo, o grupo perenialista comeou a sugerir ao catlico encurralado as seguintes solues possveis:
    1. Largue tudo e converta-se ao Islam.
    2. Busque abrigo na Igreja Ortodoxa Russa, onde ainda h um resduo de esoterismo e cujos sacramentos, no fim das contas, so aceitos como vlidos pela Igreja Catlica.
    3. Filie-se tariqa multiconfessional de F. Schuon, onde voc poder praticar ritos iniciticos islmicos sem converso formal e mantendo-se a uma prudente distncia dos muulmanos exotricos.
    A primeira opo era com certeza a mais traumtica. Afinal, o prprio Schuon tinha escrito que “mudar de religio no como mudar de pas: como mudar de planeta”.14
    A segunda era mais confortvel, mas esbarrava num obstculo que jamais vi algum autor perenialista sequer mencionar: a Igreja Ortodoxa Russa estava infestada de agentes da KGB, sendo quase impossvel ao recm-chegado orientar-se naquela selva selvaggia de conspiraes e fingimentos. No por coincidncia, a KGB estava, naquele mesmo momento, organizando e treinando organizaes terroristas islmicas para a guerra contra o Ocidente cristo.15
    Sobrava a terceira, a mais fcil e natural. A tariqa de Schuon estava, de fato, repleta de membros de origem catlica – a comear pelo prprio Schuon e por alguns de seus colaboradores mais prximos, como Martin Lings, Titus Burckhardt e Rama P. Coomaraswamy, dos quais os dois primeiros converteram-se ao Islam, o terceiro continuou catlico ao menos em pblico, sem deixar de prestar ao sheikh o voto regulamentar de obedincia total exigido nas tariqas.16
    Nas almas daqueles que permaneciam catlicos – ex professo ou de corao apenas --, realizava-se assim, em escala microscpica, o plano que, desde 1924, Ren Gunon traara para o Ocidente inteiro.

V
   
    Aps descrever com as cores sombrias de um genuno Apocalipse a degradao espiritual da civilizao no Ocidente, atribuindo-a perda das “verdadeira metafsica” e das ligaes entre a Igreja Catlica e a Tradio Primordial (ligaes que s poderiam ter sido mantidas por intermdio das organizaes iniciticas),17 Ren Gunon prev trs desenvolvimentos possveis do estado de coisas no Ocidente:18
    1. A queda definitiva na barbrie.
    2. A restaurao da tradio catlica, sob a orientao discreta de mestres espirituais islmicos.
    3. A islamizao total, seja por meio da infiltrao e da propaganda, seja por meio da ocupao militar.
    Essas trs opes reduziam-se, no fundo, a duas: ou o mergulho na barbrie ou a sujeio ao Islam, seja discreta, seja ostensiva.
    A ecloso da II Guerra Mundial pareceu mostrar que o Ocidente preferira a primeira opo, sendo um detalhe irnico o fato de que importantes autoridades religiosas islmicas deram apoio total ao Fhrer, especialmente na questo do extermnio dos judeus.19 Coincidncia  macabra ou profecia auto-realizvel? No sei.
    Aps a Guerra, a colaborao ntima entre governos islmicos e regimes comunistas no esforo anti-Ocidental conjunto veio a se tornar to notria que nem preciso insistir nesse ponto. No deixa de ser oportuno lembrar que hoje em dia a esquerda mundial empenhada em corromper o Ocidente “at faz-lo feder”, como preconizava Andr Breton, a mesma que apia ostensivamente a ocupao muulmana do Ocidente pela imigrao em massa, bem como boicota por todos os meios qualquer esforo srio de combate ao terrorismo islmico, de modo que h entre os dois blocos como que um acordo leninista de “fomentar a corrupo e denunci-la”. Novamente cabe a mesma pergunta do pargrafo anterior, com a mesma resposta.
    Para o aspirante de origem catlica, tudo o que a tariqa oferecia era a escolha entre tornar-se muulmano ou ser catlico sob orientao muulmana. A mesma escolha que Gunon oferecia a todo o mundo Ocidental.
    Creio que com isso fica mais clara a inteno de Gunon ao espremer todas as religies, especialmente a crist, no molde forado de um conceito descritivo islmico, a distino exoterismo-esoterismo. De fato, como dominar toda uma civilizao sem enquadr-la primeiro no sistema de coordenadas intelectuais da civilizao dominadora, onde ela deixar de ser uma totalidade autnoma para se tornar parte de um mapa  abrangente? Tambm bvio que no bastava fazer isso em teoria: era preciso conquistar para essa nova viso das coisas os elementos mais valiosos, mais ativos intelectualmente, da elite da civilizao-alvo. S quando esta comeasse a se compreender a si mesma nos termos do dominador, em vez dos seus prprios, ela estaria madura para aceitar, sem maiores reaes, uma operao mais vasta de ocupao cultural. Tanto mais que a reduo do cristianismo ao binmio exoterismo-esoterismo, acompanhada do diagnstico sombrio da perda da dimenso esotrica, culminava inexoravelmente na concluso de que a “restaurao da cristandade”, das suas conexes com a Tradio Primordial e portanto das dimenses mais altas da sua espiritualidade, s poderia realizar-se sob a direo de um “esoterismo vivente”, isto , do sufismo. Para usar os termos do prprio Gunon, era preciso submeter o Ocidente “autoridade espiritual” do Islam antes de submet-lo ao seu “poder temporal”.
    A teoria de Schuon, segundo a qual os sacramentos cristos conservavam o seu poder inicitico, parecia atenuar um pouco a fora do argumento islamizante, mas na verdade no o fazia de maneira alguma. Sem a devida instruo espiritual, que s um “esoterismo vivente” poderia lhe oferecer, o portador de uma “iniciao virtual” permanecia inconsciente de t-la recebido e no apenas ficava paralisado no meio da escalada inicitica, mas se arriscava, com isso, a sofrer toda sorte de distrbios espirituais e psquicos. S a espiritualidade sufi – encarnada, neste caso, na pessoa de F. Schuon – poderia salvar os catlicos de si mesmos.
    A islamizao do Ocidente – discreta ou ostensiva, pacfica ou violenta – o objetivo central e, na verdade, nico, de toda a obra de Ren Gunon. Ela inteira converge para essa meta, no como uma mera concluso lgica, mas como uma espcie de nica sada qual o leitor – e, idealmente, o Ocidente inteiro -- vai sendo levado, entre os muros de uma construo labirntica, por um senso de fatalidade inexorvel. Excludo esse objetivo, ela no passaria de um conjunto de especulaes tericas sem finalidade, um edifcio de belas possibilidades espirituais irrealizveis, coisa que ele sempre negou que ela pudesse ser.
    Se fosse preciso uma confisso explcita para confirm-lo, bastaria lembrar que, justamente no momento em que F. Schuon voltava da Arglia com o ttulo de sheikh, alardeando sua inteno de “islamizar a Europa” (sic), Gunon declarava que a fundao da tariqa de Schuon em Lausanne, Sua, era o primeiro e nico fruto produzido pelo seu esforo de dcadas.

VI

    O que pode tornar esse objetivo nebuloso ou at invisvel aos olhos do pblico so dois fatores:
     Primeiro: Gunon afirma reiteradamente seu total desprezo por qualquer atividade, corrente ou ideologia poltica, assegurando que seus interesses nada tm a ver com a luta pelo poder e se voltam exclusivamente esfera do espiritual e do eterno. Isso parece coloc-lo, aos olhos de muitos, incomparavelmente acima da atual disputa entre os pases islmicos e o Ocidente.
    Esse modo de ver no propriamente falso, apenas vazio. bvio que Gunon no est disputando poder poltico. Est disputando algo que est infinitamente acima disso e do qual, segundo ele mesmo explica, o poder poltico no seno um reflexo secundrio, quase desprezvel: est disputando autoridade espiritual. Est disputando-a com a Igreja Catlica, colocando-se muito acima dela e pretendendo orient-la desde as alturas sublimes da espiritualidade sufi (no necessariamente em pessoa, claro).
    Ele muito explcito quanto a esse ponto. A Igreja Catlica, em algum ponto da sua histria, diz ele, perdeu contato com a Tradio Primordial e j no tem sequer uma compreenso das “partes superiores” da metafsica: detm-se na pura ontologia, ou teoria do Ser, sem penetrar nos mistrios supremos do No-Ser (Schuon prefere dizer “Supra-Ser”).
    J me expliquei em outras ocasies quanto ao que me parece ser a absurdidade intrnseca da doutrina do No-Ser, e no vou voltar a esse assunto aqui. O que interessa no momento salientar que, segundo Gunon, o catolicismo, a partir dessa mutilao inicial, veio decaindo acentuadamente at reduzir-se a uma mera devoo sentimental para as massas.
    Como s quem pode reergu-la desse abismo quem ainda possua a conexo originria com a Tradio Primordial, evidente que a salvao da Igreja e, atravs dela, de todo o Ocidente, s pode vir de fora. De onde, precisamente?
    Do budismo no pode ser, j que Gunon nem mesmo o considera uma tradio inteiramente vlida.
    Do hindusmo tambm no, porque no pode ser praticado fora da ndia nem por quem no seja de nacionalidade indiana. Tudo o que o hindusmo pode fornecer uma compreenso mais aprofundada da doutrina metafsica – e de fato Gunon recorre abundantemente aos textos hindus para isso --, mas a mera compreenso terica, sendo indispensvel, nem de longe pode fornecer por si mesma a autntica “realizao metafsica”.
    Do judasmo, menos ainda, pois seria inconcebvel que a Igreja, tendo nascido dele, voltasse ao ventre materno sem anular-se ipso facto e cessar de existir.
    Da Maonaria? Impossvel, no s por causa das incompatibilidades acima apontadas e jamais superadas, mas porque, segundo Gunon, as iniciaes manicas so apenas de “Pequenos Mistrios”, segredos do cosmos e da sociedade que nem de longe tocam as alturas da suprema realizao metafsica, os “Grandes Mistrios”.
    De obstculo em obstculo – no preciso examinar todas as alternativas --, a concluso inexorvel que o labirinto de impossibilidades s tem uma sada: o catolicismo s pode ser devolvido sua integridade originria se consentir em submeter-se ao guiamento de mestres islmicos. Ou isso, ou a ocupao do Ocidente pelos muulmanos. Tertium non datur.
    Que, en passant, Gunon e seus continuadores tenham feito vrias contribuies valiosas at mesmo compreenso do catolicismo pelos prprios intelectuais catlicos, especialmente no que concerne ao simbolismo e arte sacra, coisa que ningum em seu juzo perfeito poderia negar.20
    Mas, tambm a, nada a estranhar. Que autoridade poderia um mestre sufi pretender exercer sobre os catlicos se, pelo menos em alguns pontos seletos, no provasse compreender a sua religio melhor do que eles mesmos?21
    Os artigos “catlicos” de Gunon publicados na revista Regnabit entre 1925 e 1927 no provam, nem mesmo sugerem, que ele tivesse aceitado a independncia e muito menos a superioridade do catolicismo em relao ao Islam. Prova apenas que, nesse perodo, ele ainda acreditava na possibilidade de dirigir o curso das coisas na Igreja Catlica por meio da persuaso gentil e da infiltrao.22 Sua partida para o Egito, em 1930, com a firme deciso de no mais voltar e de s se comunicar com o seu pblico da por diante por meio da revista tudes Traditionelles, assinala o momento em ele perde essa esperana e, integrando-se cada vez mais nos meios esotricos egpcios (at mesmo casando-se com a filha do prestigioso sheikh Elish El-Kebir), passa a bola de volta s autoridades islmicas que de longe haviam orientado suas aes no quadro europeu. Como as coisas evoluram desde esse ponto at a adoo da poltica de terrorismo e “ocupao pela imigrao” (coisa que, claro, jamais aconteceria sem o beneplcito das autoridades espirituais islmicas), uma histria que ignoramos e que s poder ser contada, talvez, daqui a vrias dcadas. O que absolutamente certo que Gunon, desde o incio da sua atividade pblica, declarou no falar em seu nome prprio mas seguir estritamente as orientao de “representantes qualificados das tradies orientais”, entre os quais, sabe-se hoje, principalmente o prprio sheikh El-Kebir. uma bobagem descomunal dizer que Gunon “se converteu ao Islam” em 1930. Ele j era membro regular de uma tariqa pelo menos desde os vinte e um anos, o que basta para mostrar que foi longamente preparado para a misso dificlima que iria desempenhar.

VII

    O segundo fator que dificulta a percepo da identidade de Gunon como agente islmico o prprio impacto da obra dele sobre os seus discpulos. Qualificada como “o mais deslumbrante milagre intelectual da nossa poca”,23 essa obra lana tantas luzes imprevistas sobre o fenmeno religioso e sobre a decadncia espiritual do Ocidente, e to grande o seu contraste com todo o pensamento moderno ateu ou cristo, que se torna  quase irresistvel a tentao de encar-la realmente como um milagre, uma interveno divina no curso da Histria. Seyyed Hossein Nasr, em Knowledge and the Sacred,24 no hesita em apresentar toda a histria intelectual do Ocidente como se fosse uma longa, tateante e semicega preparao para o advento das luzes gunonianas. Vista desse modo, a obra de Gunon parece uma mensagem supra-histrica vinda da aurora dos tempos, da prpria Tradio Primordial e no de um sheikh egpcio contemporneo.
    O desejo de apagar suas razes contemporneas e pairar acima das contingncias histricas manifesto em vrios trechos dessa obra, e reforado ainda por vrias expresses de desprezo “mera” perspectiva histrica, segundo Gunon um ilusrio vu de aparncias passageiras encobrindo a realidade das coisas eternas. Ele chega a criticar o apego da mentalidade ocidental aos “fatos” como se fosse um vcio de pensamento.
    Jean Robin, caracteristicamente, proclama o guenonismo uma interveno providencial e “a ltima chance do Ocidente”.25 um direito inalienvel do discpulo entusiasta celebrar a obra do mestre com os qualificativos mais enfticos. Mas um qualificativo nada significa quando separado da substncia que ele qualifica. Uma coisa falar, genericamente, de “ltima chance do Ocidente” – e todos bem sabemos que o Ocidente precisa de uma. Mas outra coisa completamente diversa esclarecer que no se trata de uma chance qualquer, de uma abstrata e genrica “restaurao da espiritualidade” e sim de uma salvao pela islamizao. Jean Robin simplesmente omite esse ponto.
    Tambm muito justo privilegiar o eterno e imutvel acima do temporal e transitrio. Mas qualquer fiel catlico habituado ao sacramento da confisso entende que o salto para o eterno, sem passar pela conscincia dos detalhes factuais da vida terrestre, to freqentemente humilhantes e deprimentes, no espiritualidade, angelismo. O apstolo que afirma “J no sou eu quem vivo, Cristo que vive em mim” o mesmo que confessa trazer “um espinho na carne” at o fim dos seus dias.
    O desejo de voar para o mundo dos arqutipos eternos saltando por cima da realidade histrica concreta no aparece somente nos perfis hagiogrficos da “misso de Ren Gunon”, mas em pelo menos trs   livros de importantes autores perenialistas sobre o Islam.
    Ideals and Realities of Islam, de Seyyed Hossein Nasr,26 Comprendre l’Islam, de Frithjof Schuon,27 e Moorish Culture in Spain, de Titus Burckhardt,28 mal escondem sua estratgia retrica de mostrar a vida muulmana s pelos arqutipos eternos que simboliza, contrastando-os, explcita ou implicitamente, com as misrias factuais brutas do Ocidente materialista. A coisa chega mesmo a ser um pouco ingnua. At uma criana percebe que no justo comparar as virtudes de um com os defeitos do outro, em vez de virtudes com virtudes e defeitos com defeitos.
    Tudo isso torna difcil, tanto ao leitor recm-chegado quanto s vezes aos prprios porta-vozes do perenialismo, admitir o bvio: a obra de Ren Gunon pode ter todo o carter providencial e salvador que se deseje, com a condio de que se admita claramente o bvio: que, no fim das contas, ela jamais ofereceu outra via de salvao para o Ocidente exceto a islamizao.
     Tambm certo que qualquer cristo inteligente, catlico ou no, pode tirar proveito dos ensinamentos de Ren Gunon sem aderir ao projeto gunoniano, mas como recusar adeso sem saber ou querer saber que o projeto existe? Todo idiota til idiota e til na medida mesma em que nega a existncia daquele que o utiliza. 
    Muitos cristos, catlicos ou no, sentiram-se to indignados ante os ensinamentos de Ren Gunon que fizeram vrias tentativas de refut-lo e at de achincalh-lo. Essas tentativas s provaram a superioridade intelectual do adversrio e caram no ridculo ou no esquecimento.
    Sob esse aspecto, os discpulos de Gunon no estavam totalmente errados ao consider-lo insupervel (a “bssola infalvel”, dizia Michel Valsn). Mas Gunon no precisa ser combatido nem vencido. Ao adotar o pseudnimo de “Esfinge” nos seus primeiros escritos, ele sabia que aqueles que no decifrassem a sua mensagem seriam engolidos e reduzidos obedincia. Aqueles que esperneiam entre gritos de revolta  no deixam se prestar-lhe obedincia, a contragosto ou mesmo inconscientemente.29 Uma vez decifrada, porm, a Esfinge no tem remdio seno soltar gentilmente a presa, que sair das suas garras no somente livre, mas fortalecida.
   
    Petersburg, VA, 2 de julho de 2016
     


 



 

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