|
Jargão e alienação Olavo de Carvalho O Globo, 3 de junho de 2000
Entre 1966 e 1968 fui militante do Partidão e leitor voraz de literatura comunista. Naquela época, a linguagem dos comunistas era bem distinta da linguagem do resto da sociedade. Tão distinta, que a destreza no domínio da gíria especializada distinguia do noviço o militante experiente. Não se tratava, porém, de puro pedantismo. Adaptar-se a uma nova linguagem é adquirir um novo sistema de valores e hábitos mentais. Se um sujeito não sabia falar como um comunista, ele não pensava como comunista e portanto não era verdadeiramente comunista, por leal e obediente que fosse sua conduta exterior. A desenvoltura no uso do jargão partidário era sinal de sinceridade e de integração no grupo, marcando a nítida fronteira entre os de dentro e os de fora. Passadas três décadas e meia, termos, giros frasais e valores semânticos da linguagem do Partidão se impregnaram de tal modo nos usos da imprensa em geral que hoje dificilmente é possível distinguir entre um comunista e um não-comunista pela simples maneira de falar e escrever. Agora são os liberais que têm uma linguagem grupal distinta, um código que permite reconhecê-los à distância. Quando você ouve a palavra “tridentino” usada para qualificar pejorativamente alguma idéia, alguma instituição da sociedade brasileira, pode ter a certeza de que está diante de um liberal. Esse uso reflete a crença, corrente nos meios liberais, de que a influência do Concílio de Trento foi decisiva na formação da ideologia estatista da política nacional. Do mesmo modo, a expressão “na contramão da História” aflora com mais freqüência aos lábios de um liberal que aos das demais pessoas, porque os liberais, como os comunistas de outrora, sentem que o futuro é deles. Em contrapartida — e só para citar um exemplo entre centenas —- o uso do termo “antifascista” como eufemismo de “esquerdista”, que até a década de 60 era marca registrada do jargão do Partido, se tornou tão freqüente nas páginas dos nossos jornais que já não se pode presumir, em quem o emprega, nenhuma intenção comunista consciente. O que se pode não apenas presumir, mas afirmar com razoável certeza, é a geral impregnação inconsciente de valores e hábitos mentais comunistas na mentalidade da classe jornalística. Ora, uma assimilação inconsciente consiste em obedecer, com automatismo hipnótico, a padrões de julgamento e de conduta que ficam fora do alcance de qualquer exame crítico. Um dos resultados é que, quando a mente assim dirigida, raciocinando na linha dos cânones admitidos, desemboca em algum contra-senso monumental, ela o aceita como se fosse a coisa mais lógica e normal do mundo, e nem por sombra percebe a armadilha em que se meteu. Quando um jornalista começa a escrever habitualmente nessa clave, sua mente se tornou escrava de um íncubo ideológico. Só para ilustrar a que prodígios de sonsice pode chegar a docilidade na repetição do absurdo, o uso do termo “nazifascista” como sinônimo de “conservador” se tornou quase obrigatório na nossa imprensa. Até três décadas atrás esse giro era reconhecido como tão forçado e calunioso que só se podia encontrá-lo na literatura de propaganda comunista rasteira — nunca nos escritos de autores comunistas sérios, conscientes da presença maciça de famílias judias nas classes conservadoras da Alemanha, que viram na ascensão das hordas nazistas nada menos que a “invasão vertical dos bárbaros” anunciada por Walther Rathenau. Mas o sacrifício da exatidão vocabular às exigências da retórica pejorativa leva o contra-senso mais longe ainda. Qualquer pessoa que tenha estudado o assunto sabe que o evolucionismo foi um dos fundamentos essenciais da ideologia nazista. A liquidação das “raças inferiores” é transcrição ipsis litteris da doutrina
darwiniana da sobrevivência dos mais aptos. No entanto, quem hoje apareça
levantando objeções científicas ou religiosas à teoria da evolução será
facilmente rotulado pela nossa imprensa de “nazifascista”, por conta de
sua identidade conservadora. Para completar a mixórdia, os mesmos que
empregam esse rótulo para qualificar o protestante antievolucionista não
hesitarão em denunciar, dias depois, o “darwinismo social” dos neoliberais.
É o samba do comunista doido, dançado às tontas por pessoas que não são
nem comunistas nem doidas.Um vocabulário forjado para caluniar inimigos
não pode servir para descrever os fatos. Mas a mente acostumada a usá-lo
— ou a ser usada por ele — acaba por conceber retroativamente os fatos
à luz da propaganda caluniosa. Uma vez consolidado esse vício, mesmo o
conhecimento dos fatos não muda mais a visão estabelecida, porque a linguagem
se compõe de termos gerais (universais lógicos), e nenhuma acumulação
de fatos será bastante persuasiva para impugnar, por indução,o quadro
de referência que os emoldura a priori. O estudo de similar mutação lingüística
e mental ocorrida nos países que caíram sob o domínio de nazistas e comunistas
levou o psiquiatra Joseph Gabel a discernir, em “La Fausse Conscience”
(1962), a identidade de estrutura entre o discurso ideológico e os circuitos
autoconfirmantes da linguagem dos esquizofrênicos. No mínimo esse fenômeno
exemplifica, na prática diária do nosso jornalismo, o diagnóstico de Eric
Voegelin (“Autobiographical Reflections”, 1989), de que a mente impregnada
do feitiço ideológico cria uma linguagem para expressar não a realidade,
mas a sua radical alienação dela, trocando, como diria o nosso poeta Bruno
Tolentino, o mundo-como-tal pelo mundo-como-idéia. |