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O reino do subjetivismo

Olavo de Carvalho
Dirio do Comrcio, 6 de outubro de 2015

          


Embora escrito por um matemtico e lgico de formao – ou talvez justamente por isso --, O Homem  Sovitico, de Alexander Zinoviev, um dos melhores livros de sociologia j publicados no mundo. Sem l-lo ningum jamais compreender o funcionamento da sociedade sovitica ou das muitas que direta ou indiretamente se inspiraram nela.
 Entre outras mil coisas valiosas, o autor a ensina que em toda carreira profissional, majestosa ou humilde, h dois conjuntos de conhecimentos, diferentes e incomunicveis entre si, que o cidado tem de dominar para alcanar algum sucesso.
 O primeiro refere-se, naturalmente, ao objeto ou propsito da tarefa a desempenhar. Se o sujeito trabalha numa fbrica de sabonetes, tem de saber algo sobre sabonetes. Se enfermeiro, algo sobre corpos humanos, doenas e remdios. Se legislador, juiz ou advogado, algo sobre leis. Se escritor ou jornalista, algo dos assuntos sobre os quais escreve e do idioma que emprega. E assim por diante.
O segundo conjunto de conhecimentos, que no pode ser deduzido do primeiro e tem de ser adquirido independentemente, ensina como o cidado tem de tratar os colegas, os chefes e o pblico para sobreviver e, se possvel, subir na hierarquia profissional.
So cdigos de conduta explcitos ou implcitos, modos de falar, hbitos compartilhados, tticas de lisonja e arte da intriga, alianas grupais, projeo da imagem pessoal, etc. etc. Inclui mesmo, por incrvel que parea, a tcnica de preservar um pouco da prpria dignidade no meio dessas manobras.
Zinoviev no d um nome distinto a cada um dos conjuntos, mas, para simplificar, direi que se trata, respectivamente, de requisitos objetivos e subjetivos para o desempenho profissional.
Essa dupla srie de exigncias universal e incontornvel, mas o peso respectivo das duas ordens de fatores varia de sociedade para sociedade e, claro, em diferentes reas da mesma sociedade.
Onde tudo funciona bem e com rentabilidade mxima, o fator subjetivo est subordinado ao objetivo e suas exigncias no pesam muito sobre o desempenho de patres e empregados. As pessoas sobem ou descem na hierarquia conforme sirvam bem ou mal s finalidades do empreendimento. O sucesso segue e reflete a competncia, que por sua vez pode ser mensurada objetivamente.
Numa economia de mercado, descontadas as eventuais distores, como por exemplo os efeitos da propaganda enganosa que pode simular competncia e funcionalidade onde no existe nenhuma, as coisas tendem naturalmente a tomar o rumo da competio objetiva.
O produto melhor e mais barato bem aceito pelo pblico, e melhor e mais barato porque na empresa produtora a objetividade no desempenho prevaleceu sobre os jogos polticos internos.
Numa economia altamente estatizada, onde a sorte das empresas depende menos da aceitao popular que dos favores do governo, a ordem se inverte.
Se os produtos e servios so ruins, os consumidores no tm mesmo os meios de reclamar, mas um sorriso ou uma cara feia do chefe – numa escala que vai do subgerente de departamento aos altos postos do governo federal – podem decidir o sucesso ou fracasso de uma carreira.
A medida de capacidade e eficincia torna-se cada vez mais subjetiva, e as competies polticas, as intrigas de grupos, os jogos de imagens se tornam a principal ocupao de todos.
No preciso dizer que, nessas circunstncias, a situao real da economia e da sociedade torna-se cada vez mais evanescente, e s o que permanece visvel aos olhos de todos a hierarquia dos prestgios, o brilho ou obscuridade das imagens, as simpatias e antipatias, a subida ou descida de indivduos e grupos na escala da fama.
A sociedade torna-se um teatro, e cada um dos agentes sociais e polticos um ator, um farsante.
Esse fenmeno pode chegar a extremos de insanidade que o cidado comum mal consegue imaginar. Hoje sabe-se, por exemplo – Zinoviev no o menciona, mas uma confirmao brutal do seu diagnstico --, que toda a economia estatal sovitica, que professava ser o suprassumo do controle racional em oposio ao alegado “caos” da economia de mercado, se baseava em estatsticas inteiramente imaginrias, concebidas para projetar uma boa imagem do governo e no para dar aos governantes uma viso adequada do que estava acontecendo.
A sociedade era guiada por cegos que no se incomodavam de no ver nada, s ligavam para o como eram vistos. No preciso, na verdade, levar em conta nenhum outro fator para compreender a rapidez com que o sistema desabou. O todo-poderoso regime sovitico no era um dolo de ps de barro. Era uma esttua inteira de barro, pintada de bronze.
No Brasil, com certeza, ainda no chegamos a esse ponto, no que diz respeito economia. Malgrado algumas falsificaes ocasionais, ainda podemos saber mais ou menos o que se passa na realidade: quanto produzimos, quanto vale o dlar, quanto devemos, quanto nos roubaram, etc. etc.
Mas saiam um pouco do mbito da economia, e vero que em tudo o mais reina, absoluto e irrefrevel, o poder do subjetivismo galopante. A realidade no tem a menor chance, s o que conta a impresso, a boniteza da imagem, a moderao pseudo-elegante das palavras, o culto das aparncias tranquilizantes e das receitas anestsicas.
Sabemos, por exemplo, que 50% dos formandos das nossas universidades so analfabetos funcionais, mas, quando um sujeito se apresenta como professor disto e daquilo na faculdade no sei das quantas, ainda o rodeamos de salamaleques e rapaps, sem notar que, em cinqenta por cento dos casos, o que ele est nos mostrando um certificado de analfabetismo funcional.
As universidades tornaram-se fbricas de imbecis, mas continuam a ser respeitadas como usinas do saber, sem que ningum pense em questionar a sua funo na sociedade ou submet-las a um clculo de custo-benefcio.
Sabemos que um governo reprovado pela quase totalidade da populao continua no poder com a ajuda de uma oligarquia financeira voraz e de uma classe poltica na qual os representantes se voltam frontalmente contra os representados, mas continuamos falando em “estabilidade das instituies democrticas”, como se estas no tivessem se convertido precisamente no seu oposto.
Sabemos que, no pas onde vigora talvez o mais rgido sistema de desarmamento civil no mundo, onde at mesmo brinquedos em forma de armas so proibidos, a taxa de homicdios cresce sem parar e j est chegando a 70 mil vtimas por ano. J faz dez anos que o povo, mostrando estar ciente desse descalabro, votou maciamente pela liberao dos portes de armas, mas o Congresso, a Presidncia da Repblica e a grande mdia continuam fazendo de conta que no sabem disso, que nunca ouviram falar nem da matana contnua nem do plebiscito.
Todos sabemos que o PT foi colocado no poder para salvar da extino o movimento comunista no continente e montou para esse fim o mais formidvel esquema de corrupo de que se tem notcia no mundo, mas at agora a quase totalidade dos hericos oradores que denunciam a roubalheira insiste em falar genericamente de “corrupo”, culpando fatores sociolgicos annimos para no dar nomes aos bois.
Sobretudo para no mencionar o nome proibido: Foro de So Paulo. O sr. Hlio Bicudo, que alguns espertalhes exumaram da lata de lixo da Histria para fazer dele o novo heri do antipetismo, chega ao paroxismo da desconversa ao apontar, como causa de toda a safadeza, a “herana do nepotismo portugus”, enquanto outros preferem falar do “mercantilismo”, da “Contra-Reforma”, isto quando no culpam o capitalismo pelos crimes dos comunistas no poder.
As falsidades do dia refletem a deformidade intelectual profunda das "classes falantes" no Brasil. Na investigao de qualquer fenmeno poltico-social, conforme aprendi com Georg Jellinek, a regra mais elementar distinguir e articular os atos voluntrios e a confluncia acidental de fatores gerais e annimos.
No Brasil, a regra esconder os primeiros sob os segundos. Aes que tm uma autoria clara e determinada, atestada em documentos e confisses, so explicadas por foras sociolgicas impessoais, dissolvendo, assim, a figura dos autores. Quando voc ouve falar em "corrupo endmica", nepotismo portugus" e coisas do gnero para explicar o Petrolo, voc est certamente ouvindo um idiota ou um charlato.
O Petrolo, assim como o resto da roubalheira petista, foi planejado com dcadas de antecedncia para dar esquerda o controle hegemnico da sociedade brasileira e salvar da extino o movimento comunista em outros pases, debilitado pela queda da URSS.
Fatores mais genricos podem ter sido usados apenas como causas ocasionais suplementares dentro de uma ao racionalmente planejada e executada. Apelar a esses fatores para explicar o imprio do crime criado pelos petistas como atenuar as culpas de um estuprador atribuindo-as ao fenmeno geral da atrao entre os sexos. Pode-se fazer isso por idiotice ou por vigarice genuna. Por nenhum outro motivo.
Por que as pessoas agem assim? Por que polticos, professores, jornalistas, desviam os olhos dos fatos mais gritantes e preferem apelar a generalidades ocas empacotadas em chaves j gastos e esvaziados pelo tempo?
que o Brasil j se tornou a sociedade disfuncional descrita por Zinoviev, onde cada um s pensa no papel a desempenhar perante os chefes, os colegas e o pblico, consumindo nisso todas as suas energias, sem querer nem poder mais prestar ateno aos fatores objetivos.
o reino do subjetivismo desvairado, o imprio da “boa impresso”, onde os fatos no tm vez e os problemas, em vez de focos de ateno sincera, se tornam apenas pretextos para um desempenho teatral.

 



 

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