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Psicopatia e histeria

Olavo de Carvalho
Dirio do Comrcio, 15 de dezembro de 2014

          


A sade mental de uma comunidade pode ser aferida pela dos indivduos que ela eleva aos mais altos postos e incumbe de represent-la. O mais breve exame do Brasil sob esse aspecto leva a concluses que j ultrapassam a escala do alarmante e se revelam francamente aterrorizantes.
J tivemos um presidente que achava lindo fazer sexo com cabritas, se gabava de haver tentado estuprar um companheiro de cela – prova de macheza, segundo ele – e confessava entre risos as mais cnicas mentiras de campanha. claro que a tropa dos seus guarda-costas e marqueteiros corria, nessas ocasies, para dar a essas declaraes o sentido de meras brincadeiras, mas, supondo que o fossem, igualmente evidente que pessoas adultas normais no se divertem com gracejos to torpes.
Qualquer que fosse o caso, no entanto, a conduta desse cidado no sugeria nenhuma doena mental e sim propriamente uma psicopatia – a deformidade moral profunda que sufoca a voz da conscincia e autoriza o indivduo a viver de manipulaes, trapaas e crimes sem nunca enxergar nisso nada de anormal.
J mencionei, em outros artigos, o livro do psiquiatra Andrew Lobaczewski, Ponerologia: Psicopatas no Poder (Vide Editorial, 2014), em que uma equipe de mdicos poloneses condensa os resultados de dcadas de observao da elite comunista que dominava o pas, e descreve tecnicamente o fenmeno da “patocracia”, o governo dos psicopatas.
Mas, como explica o prprio dr. Lobaczewski, quando uma elite de psicopatas sobe ao poder, ela se cerca de adeptos e militantes que no so psicopatas, mas que, no af de enxergar as coisas como seus chefes mandam em vez de aceitar os dados da realidade, acabam desenvolvendo todos os sintomas da histeria. A histeria um comportamento fingido e imitativo, no qual o doente nega o que percebe e sabe, criando com palavras um mundo fictcio cuja credibilidade depende inteiramente da reiterao de atitudes emocionais exageradas e teatrais.
Um exemplo, j antigo, esclarecer isso melhor.
Todo mundo conhece o deprimente episdio da discusso feia na qual a deputada Maria do Rosrio xingou seu colega Jair Bolsonaro de “estuprador”. Incrdulo, o deputado perguntou:
            -- Agora sou eu o estuprador?
            A deputada, fria e pausadamente, confirmou:
            -- sim.
O deputado, que no l muito famoso pelas boas maneiras, deu-lhe uma resposta brutalmente sarcstica (“no vou estuprar voc porque voc no merece”) e a adversria ameaou dar-lhe uns tapas, deixando de cumprir o intuito ante a promessa de um revide, sendo ento chamada de “vagabunda” e tendo um dos mais clebres chiliques da histria poltica nacional.
Est tudo gravado.

As circunstncias que precederam o acontecimento so muito reveladoras. Bolsonaro tinha apresentado um projeto de lei que previa penas mais severas para os estupradores, inclusive antecipando o prazo de maioridade penal para que a punio pudesse alcanar tipos como Roberto Aparecido Alves Cardoso, o Champinha, um dos estupradores e assassinos mais cruis que este pas j conheceu.
Maria do Rosrio era contra a antecipao da maioridade e defendia penas mais brandas para estupradores e assassinos de menos de dezoito anos.
O projeto do deputado Bolsonaro era aprovado por mais de 90% da populao.
Defensora de uma causa impopular, e cunhada, ela prpria, de um estuprador de menores, Maria do Rosrio tinha todos os motivos para ficar com os nervos flor da pele quando se discutia estupro e menoridade. Chamar de estuprador o algoz maior dos estupradores no fazia o menor sentido, evidentemente, exceto como inverso histrica da situao real.
Do ponto de vista penal, admitindo-se que ambos os parlamentares tenham cometido delitos, o da deputada foi bem mais grave. Nosso Cdigo Penal pune com seis meses a dois anos de deteno o crime de calnia (imputao falsa de ato delituoso) e com apenas um a seis meses de deteno o de injria (ofender a dignidade e o decoro de algum). Pior: a lei concede atenuante ao delito de injria se cometido em revide a insulto anterior, e um segundo e maior atenuante se o revide foi imediato. Os dois atenuantes aplicavam-se conduta do deputado Bolsonaro. Em comparao com Maria do Rosrio, ele estava praticamente inocente no episdio.
Bem, esses so os dados objetivos da situao, mas a reao da esquerda nacional quase inteira, seguida de perto por toda a grande mdia, foi levantar um escarcu dos diabos contra o deputado, chegando a pedir a cassao do seu mandato e apresentando Maria do Rosrio como vtima inocente de uma violncia verbal intolervel.
Por mais intenso que seja o dio poltico que se vota a um inimigo, simplesmente no normal inverter de maneira to flagrante a lgica dos fatos e o seu sentido jurdico para fazer do agredido o agressor e do revide injurioso, por mais grosseiro que fosse, um crime mais grave que o de calnia.
Pior: todos os que incorreram nessa loucura faziam-no em tom de to profunda indignao – alguns chegando at s lgrimas --, que no pareciam, de maneira alguma, estar mentindo deliberadamente. Ao contrrio: a coisa era uma inverso histrica genuna, caracterstica, indisfarvel. E coletiva.
A passagem do tempo no parece t-la curado, mas agravado. Ainda esta semana, como o deputado Bolsonaro relembrasse o episdio, mostrando no arrepender-se do que tinha dito a Maria do Rosrio, a deputada Jandira Feghali viu nisso, no, como seria normal, uma prova de falta de educao, mas – pasmem – uma confisso de estupro. E, aos berros, exigia a cassao do mandato de Bolsonaro, alegando que “no podemos admitir a presena de um estuprador nesta Casa”. No deixa de ser significativo que, nessa mesma semana, uma pesquisa da Universidade da Califrnia revelasse que a incapacidade de perceber o sarcasmo pode ser um sintoma de demncia.
Porm ainda mais significativo que, tambm na mesma semana, a deputada, lendo uma frase minha segundo a qual todos deveramos “atirar cara dos comunistas, em pblico, todo o mal que fizeram”, lanou o alarma: Olavo de Carvalho prega assassinato de comunistas!
O histrico no enxerga o que est diante dos seus olhos, mas o que projetado na tela da sua imaginao pelo medo e pelo dio.

 



 

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