O Imbecil Coletivo

 

Cartas e respostas

 


Carta à revista
Caros Amigos

 

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Helga Helena Monteiro
Suênio Campos de Lucena
Henry Grazinoli Filho

 

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Bárbara Abramo
Rose Villanova
Caio Navarro de Toledo
Oswaldo Porchat Pereira
Gilberto Vasconcellos
Roseli Fischman

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

          Ao comprometer-me a responder, sempre que possível, a todos os leitores, não me escapava o risco de que, indo eventualmente para o lado polêmico, a conversa daí resultante fosse tomada como rixa pessoal entre eu e um determinado cidadão. Mas quem me leia com atenção verá que procuro, em cada caso, salientar o que tem de geral e típico, para fazer dele uma ocasião de meditar sobre o estado da nossa cultura e da nossa psicologia coletiva. Se não fosse para isso, não responderia nada.
          Mas, como a mente humana é constituída de tal modo que concede ao erro o privilégio de poder ser sempre mais breve do que a sua refutação, a consecução desse meu propósito esbarrava na cláusula pétrea do jornalismo atual, que ordena tudo reduzir a pílulas rapidamente digeríveis por quem não goste de ler. Mesmo a revista Bravo!, excelente mensário de cultura que tem recebido meu aplauso e meu apoio incondicional, não escapa dessa limitação, que me obriga, agora, a usar de minha homepage para responder a insultos e provocações veiculados em suas edições de abril e maio de l998. Aproveito para responder também aos demais leitores, seja de Bravo!, seja de outras publicações, seja àqueles que escrevam diretamente para esta homepage.
          Como uma parte ao menos destas respostas consistem de análises de argumentações capciosas, devo advertir que serão transcritas, como apêndices altamente elucidativos, nas próximas edições de meu livro Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão: a "Dialética Erística" de Arthur Schopenhauer. Texto e Comentários (Topbooks, 1998). Assim como os artigos de jornais e revistas analisados em O Imbecil Coletivo dão um mostruário significativo da patologia intelectual reinante no primeiro escalão das nossas classes falantes, as cartas de leitores, que aqui começo a coligir, poderão constituir uma documentação preciosa sobre o segundo escalão, mais discreto mas não menos significativo do espírito dos tempos.
          Reunidos, respondidos e catalogados, os remetentes movidos pelas piores intenções terão tido assim, ainda que a contragosto, a oportunidade de colaborar para uma iniciativa benéfica e, sem falsa modéstia, pioneira, que é a de educar o público brasileiro para a distinção entre argumentar e embromar.
          A todos, pois, honestos e trapaceiros, os meus mais sinceros agradecimentos.

Olavo de Carvalho

 

Bravo!

Helga Helena Monteiro

(São Paulo SP)

Na última edição de Bravo!, D. Helga Helena Monteiro diz que no número de abril de 1998 o Sr. Hélion Póvoa Jr. me convocou para um debate e eu não quis debater. É precisamente o contrário da verdade. O que o sr. Póvoa fez foi apenas sugerir minha exclusão da revista, e portanto do debate. Quem deseja um debate não começa por pedir que o adversário vá embora.

É verdade que ele também me qualificou de "elitista", o que não deixa de ser uma afirmação, gramaticalmente, que segundo D. Helga deveria portanto ser discutida no plano teórico. Mas como poderia um simples adjetivo ser objeto de debate, quando, solto no ar, não responde a nenhuma opinião minha em especial e se reduz a uma interjeição, à expressão geral e vaga de um sentimento confusamente hostil?

O leitor que deseja um debate deve expressar opiniões definidas sobre pontos precisos. Um pedido de cabeça seguido de uma carimbada sumária não é uma opinião que caiba discutir, mas apenas uma ação, muito prática e incisiva, destinada a constranger, humilhar e prejudicar o destinatário.

Responder a isso com uma teoria sobre o elitismo seria tão inadequado e ridículo quanto por-me a discutir a anatomia dos glúteos com um agressor que me chutasse o traseiro.

A resposta que dei ao sr. Póvoa foi, em vista disso, polida demais. Quem sobe à tribuna num estado de rancor pré-verbal não pode exigir que seus apelos e interjeições sejam respondidos como argumentos. Já terá muita sorte se conseguir que sejam diagnosticados como sintomas. De mim o Sr. Póvoa obteve até mais do que isso: passei do diagnóstico à terapêutica, incitando-o, mediante sarcasmo, a elaborar suas reações primárias, a transmutá-las em opiniões debatíveis. O sr. Póvoa que diga, em suma, onde está o meu elitismo, que em seguida passaremos ao debate, se ele permitir que eu continue a escrever aqui.

Se respondi com alguma rispidez, foi por dois motivos, que ali não expliquei por falta de espaço mas que os demais leitores têm agora o direito de conhecer: l) o Sr. Póvoa é um psicanalista, alguém que ganha para ensinar os outros a verbalizar, e de quem, portanto, não se pode verossimilmente esperar que venha com tatibitates; 2) se ele caiu nisto, não foi portanto por incapacidade de expressão, mas sim porque, em vez de me desafiar para um debate, quis apenas ostentar desprezo lacônico, tática de uso corrente no meio intelectual brasileiro para desqualificar o adversário tirando-lhe, ao mesmo tempo, os meios de debater sem fazer de si próprio o objeto do debate. Somados, esses fatores indicavam não se tratar de um caso de burrice espontânea, e sim de malícia auto-imbecilizante, que só cede, quando cede, ao tratamento de choque. Para poder realizar este tratamento de maneira discreta, sem ter de denunciar com todas as letras o truque do Sr. Póvoa, fiz de conta que o considerava apenas um bobão, o que, nas circunstâncias, foi um fingimento piedoso, cujo intuito mais profundo, sem dar na vista do público, não deve ter escapado no entanto ao seu destinatário. D. Helga foi quem pôs tudo a perder, obrigando-me a explicações que são menos dolorosas para mim do que para aquele cuja defesa ela assumiu tão desastradamente.

Quanto a D. Helga em pessoa, não sei se lhe falta acuidade de leitura ou sinceridade, e prefiro não saber. Um indício em favor da primeira hipótese é a interpretação que ela deu à minha ampliação humorística dos desejos do sr. Póvoa, que começando por me tirar da redação terminavam por me excluir da existência terrestre. D. Helga tomou-a de maneira literal, parecendo não perceber ali a óbvia figura de linguagem que subentendia uma dedução ad absurdum. Imaginou que eu atribuía ao sr. Póvoa intuitos homicidas e se pôs, com desvelo patético, a refutar a acusação. Num ambiente de politicismo simplório, proliferam os leitores desprovidos de sintonia fina, que não distinguem entre um juízo formal e a figura verbal que o transporta. Mas em alguns casos essa carência não é natural, e sim premeditada para confundir o ouvinte e produzir nele, artificialmente, uma indignação contra algo que, de fato, não aconteceu.

Em favor desta última hipótese há o fato de que D. Helga, para me acusar de desejar reduzir os leitores a um silêncio passivo, se utilize do espaço mesmo que a revista abriu para que os leitores dialogassem comigo. Nada mais falso do que uma afirmação que nega sua própria possibilidade de ser emitida. Se o amor que certas pessoas alardeiam ter pelo debate democrático fosse sincero, não se limitariam a alardeá-lo, mas tratariam de salvaguardar as condições que o possibilitam. Assinalei algumas delas ao falar do Sr. Póvoa. Mas igualmente indispensável é não apelar a argumentos que boicotem o debate mesmo em que se proferem, usando plenamente o direito de expressão para alegar mentirosamente um cerceamento do direito de expressão. A hipótese da falta de sinceridade explica, ademais, que a linguagem de D. Helga tenha sido tão "serena", como a qualificou o editor. Uma acusação falsa, para se tornar crível, deve ser mesmo proferida em tom de calma imparcial.

Não me cabendo sondar as intenções de D. Helga, paro por aqui mesmo, sugerindo-lhe que retifique sua compreensão de leitura, no primeiro caso, seus critérios morais, no segundo.

Suênio Campos de Lucena

(de algum lugar do passado)

Protestando contra a concessão de espaço a um ilustre desconhecido, o universalmente celebrado Suênio Campos de Lucena, ou coisa assim, refuta com meticulosa argumentação tudo o que eu jamais disse contra Lygia Fagundes Telles, corrige um erro que não cometi — atribuir ao governo brasileiro a seleção dos convidados ao Salão de Paris —, contesta valentemente uma comparação que não fiz (Lygia versus Antônio Torres) e diagnostica os motivos secretos do meu artigo sobre Salão do Livro em Bravo! de março-98, a saber, "frustração, recalque, autopromoção e inveja". Grafa este último termo em maiúsculas, repetindo-o três vezes e fazendo-o acompanhar de outros tantos pontos de exclamação, num elegante giro estilístico que sugere, pelo efeito sinestético, o som do seu pezinho batendo no ritmo correspondente. Em seguida critica o meu estilo descomedido. Por fim, acusa-me de ter uma falsa consciência do "dever comprido" (sic) e profetiza, para alívio geral da macacada, o meu breve falecimento de câncer pulmonar.

Se eu me chamasse Suênio também estaria revoltado.

Henry Grazinoli Filho

(São Paulo SP)

Quanto ao leitor Henry Grazinoli Filho (Bravo!, maio-98), este sim diz alguma coisa debatível: que, no artigo sobre o Salão do Livro, exagerei nas críticas a Chico Buarque. Exagerei, sim, mas só para enfatizar o absurdo da situação — um recurso consagrado não só em argumentação jornalística mas até mesmo em ciência social. Eu poderia portanto responder como Max Weber, quando lhe censuraram o uso de caricaturas no desenho dos "tipos ideais": "Exagerar é a minha profissão."

Em todo caso, parabéns ao Henry por dizer alguma coisa sobre alguma coisa.

 

Folha de S. Paulo

Bárbara Abramo

(São Paulo SP)

A jornalista Bárbara Abramo enviou à Folha de S. Paulo, em 22 de abril, a seguinte carta:

Parabéns, Olavo, pelo artigo "O saber e a pose"! Está na hora de colocar as idéias no lugar e você, mais do que ninguém, soube fazê-lo neste artigo. Nada melhor pra comemorar esta invenção de branco chamada Dia do Índio, que este ano comemora a morte também do chefe Pataxó queimado em Brasília no ano passado e enterrado no alto de uma montanha numa Lua Cheia!

Bárbara Abramo.

Recebeu por e-mail a seguinte resposta do jornal:

Agradecemos o envio de sua mensagem. Pedimos desculpas por não tê-la publicado. É que recebemos no período um volume expressivo de correspondência. Esperamos contar com sua colaboração em outra oportunidade.

Fernanda Ravagnani

Painel do Leitor

e-mail: paineleitor@uol.com.br

Ao enviar-me por e-mail cópia de sua carta, Bárbara anexou este P.S.:

As meninas da lista Artemis enviaram também mensaginhas lá pra "Falha" de Sao Paulo, como papai chamava, mas não saiu nada.

Bárbara é filha do célebre jornalista Cláudio Abramo, já falecido, que foi por décadas chefe de redação da Folha de S. Paulo.

 

Rose Villanova

(Campinas SP)

Rose Villanova, de Campinas SP, enviou à Folha de S. Paulo em 22 de abril a seguinte carta:

Gostaria de parabenizar o jornalista Olavo de Carvalho, pelo seu brilhante artigo "O saber e a pose". Seria preciso que tivéssemos mais pessoas corajosas e desprovidas de preconceitos como ele, para que a ciência e por que não dizer, o jornalismo fossem menos arrogantes e mais esclarecedores. Essa arrogância que presta enorme desserviço ao crescimento da própria ciência que insensivelmente contribui para o enorme vazio e insatisfação do ser. Caso contrário, poderia haver outra explicação para o aumento da violência, do desrespeito e do desamor em face de um "desenvolvimento" tão espetacular desta tão incensada e insensível ciência?

Rose Villanova

Recebeu do jornal a seguinte resposta:

Agradecemos o envio de sua mensagem. Pedimos desculpas por não tê-la publicado. É que recebemos no período um volume expressivo de correspondência. Esperamos contar com sua colaboração em outra oportunidade.

Fernanda Ravagnani

Painel do Leitor

e-mail: paineleitor@uol.com.br

Agradeço a Bárbara Abramo e a Rose Villanova, bem como a todos os autores de elogios impublicados.

Caio Navarro de Toledo

(São Paulo SP)

Porque, chamado de "fascista" por uma leitora insolente, respondi, para abreviar a conversa, "É a mãe", o historiador Caio Navarro de Toledo escreveu à Folha, indignado, proclamando que eu ofendera a progenitora da remetente e mostrara "incapaz para o debate democrático". Sua carta foi publicada em 9 de abril de 1998.

Resposta, não publicada:

1 — Que debate democrático pode começar com uma rotulação insultuosa?

2 — Existe algo mais democrático do que o direito de responder a uma grosseria com outra equivalente?

3 — Qualquer professor de português poderia explicar ao democrático missivista que a expressão "É a mãe" não tem, nesse contexto, o sentido direto de uma ofensa à progenitora de quem quer que seja, mas é uma ênfase retórica destinada a fazer sentir, a um interlocutor desbocado, a gravidade da ofensa que me dirigiu. (Por exemplo, posso aqui responder ao Prof. Toledo, sem a mínima referência à sua progenitora: Incapaz para o debate democrático é a mãe.)

Tal como no caso do Sr. Póvoa, o Prof. Toledo não é nenhum iletrado, que possa alegar ignorância de coisas tão óbvias.

Trata-se, novamente, de um caso de malícia inspirada em preconceitos políticos. É um velho costume da esquerda arrogar-se todos os direitos, não deixando nenhum para o adversário. Essa gente acha a coisa mais natural do mundo falar o que quer sem ter de ouvir o que não quer.

Mas não é só um hábito: é uma técnica, fartamente usada em campanhas de desmoralização que tornaram célebre a eficácia da máquina difamatória esquerdista.

O truque, padronizado e rotineiro, é simples: insulta-se um sujeito. Se ele nada responde, diz-se que fugiu ao debate. Se ele devolve o insulto, afirma-se que é grosseiro, arrogante e autoritário. Se, para não cair nem no silêncio covarde nem na rispidez indigesta, ele responde de maneira polida, fica na posição suspeitíssima e comprometedora do acusado que tem de arcar com o ônus da prova. É uma forma típica de argumentação erística, que explico no livro Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão (Topbooks, 1997): o insulto é a premissa, a desmoralização do insultado é a conseqüência. O acusador ganha sempre.

Seu uso é tão costumeiro nas esquerdas, que funciona de modo automático, sem necessidade de prévio acordo entre os agentes: onde quer que um militante coloque a premissa, logo aparece outro para enunciar a conclusão.

Contra esse joguinho malicioso, não há defesa senão expor meticulosamente a artimanha, analisando-a com rigor lógico e denunciando-a para que a platéia não se deixe enganar pela fala mansa de agressores sorrateiros.

Aqui, novamente, a bitola minimalista da imprensa colabora com a mentira, querendo tudo reduzir a um troca-troca de frases lacônicas, onde prevalecerá o jogo de palavras em vez da argumentação fundamentada.

 

Oswaldo Porchat Pereira

 

Difamação ou calúnia?

 

A propósito de um artigo meu publicado em Bravo! de junho de 1998, que comentava suas declarações a Livro Aberto de agosto de 1997, Oswaldo Porchat Pereira acusa-me de difamador, truculento, pérfido, e indigno de confiança. Tentando dar alguma substancialidade a estes adjetivos, acrescenta que: (1o) operei em suas palavras uma "montagem", (2o) amputando-as do contexto, (3o) para lhes impor "uma interpretação estapafúrdia" com a finalidade de fazer parecer que "estivessem revelando um fato lamentável no que concerne ao ensino de filosofia na USP".

Sendo Porchat um conhecedor profundo da análise de textos, não é cabível que se enganasse tanto na interpretação de suas próprias palavras, bem como do texto jornalístico que as comentava. O problema pode portanto ser equacionado assim: ou eu alterei as palavras de Porchat para danar sua reputação, ou ele é que está mentindo de caso pensado para me atribuir um crime que não cometi. Sou eu o difamador ou Porchat o caluniador? Como diriam os escolásticos, tertium non datur: não há terceira hipótese.

Mas será normal que um homem culto e no seu juízo perfeito, ao lançar acusações de tal porte, não faça em seguida a mais ínfima tentativa de prová-las, mas se limite a afirmá-las, a jogá-las no ar com a presunção insana de quem imagina ter o direito divino de ser crido sob palavra?

Pois foi exatamente isso o que fez Porchat. Não digo que apresentasse provas falsas, ou débeis, ou fúteis. Nada disso: ele não apresentou nenhuma.

Isso é tanto mais estranho porque provar aquelas acusações, se fossem verazes, teria sido bem fácil. Bastaria cotejar algumas frases da entrevista com sua transcrição espúria, e pronto: estaria demonstrada a "montagem", a perfídia do truculento difamador.

Se Porchat não fez isso, tendo à sua disposição quase uma página inteira da Folha para explicar-se, foi por uma única razão: porque sabia que suas palavras transcritas em Bravo! eram idênticas, na forma e no sentido, às de Livro Aberto. Não o fez porque sabia que, desse cotejo, quem sairia esmagado seria o acusador e não o acusado. Não o fez porque sabia que estava mentindo.

Farei eu, portanto, o que ele não fez. Onde ele preferiu planar no genérico e no alusivo para espalhar discretamente veneno no ar evitando os riscos de um confronto direto, vou descer aos detalhes do texto.

I

"Montagem" é desmembrar as partes de um texto para arranjá-las numa nova ordem que pode, eventualmente, alterar o sentido do conjunto. As frases de Oswaldo Porchat citadas no meu artigo foram as seguintes:

Primeira: "Nenhum estímulo é dado [no departamento de Filosofia da USP] para a reflexão pessoal e original – mais do que isso: desaconselha-se vivamente qualquer veleidade de proceder a uma elaboração crítica do próprio pensamento".

Segunda: "Exerci uma influência certamente nefasta sobre meus alunos na USP, na medida em que eu defendia essa proposta."

As frases são duas e apenas duas. Ora, entre duas frases, como aliás entre dois elementos quaisquer, só pode haver duas e não mais de duas ordens: da primeira para a segunda e da segunda para a primeira. E as duas frases de Porchat, seja numa ordem, seja na inversa, significam exatamente a mesmíssima coisa. Montagem, pois, se houvesse, seria inócua: dando na cabeça ou na cabeça dando, o que ele disse foi que o ensino da filosofia na USP inibe a capacidade crítica de seus alunos, que isto é uma coisa lamentável, e que ele próprio contribuiu para produzi-la com sua influência pessoal, mais que lamentável, nefasta. E "influência nefasta" é expressão dele, não minha.

II

Quanto à segunda acusação, de que separadas do contexto as declarações tinham seu sentido alterado, ela é o contrário simétrico da verdade. O contexto não faz senão enfatizar o sentido unívoco e inquestionável das duas sentenças. Para demonstrá-lo, cederei a meu acusador o espaço de que disponho, para lhe dar a oportunidade de se enforcar com sua própria corda. Transcrevo aqui, por extenso, o trecho de onde saíram as duas frases:

Livro Aberto: É possível afirmar que isso ainda é fato no curso de filosofia da USP?

Porchat: (Eu vou responder a essa pergunta daqui a pouquinho...) Assim, eu não tive tempo de fazer opções próprias de leitura e muito menos de elaborar uma reflexão pessoal. Bom, sob a influência da doutrina estruturalista, eu deixei de acreditar na reflexão pessoal.... O estruturalismo funcionou de maneira extremamente castradora sobre mim e meus colegas, isto é, o que é lícito fazer é estudar o sistema, é compreendê-lo, aprofundar a análise interna das obras. Nós podemos eventualmente tornar-nos bons historiadores da filosofia, mas nenhum estímulo é dado para a reflexão pessoal e original – mais do que isso: desaconselha-se vivamente qualquer veleidade de proceder a uma elaboração crítica do próprio pensamento. Em filosofia, só cabe conhecer e analisar estruturas de pensamento filosófico – essa é, vamos dizer, a orientação fundamental do estruturalismo filosófico. Sob influência desse estruturalismo eu fui vítima daquilo que chamei, há pouco, de uma "castração" intelectual: ser filósofo era, para mim, ser um bom historiador, ser capaz de analisar estruturas. E durante muito tempo eu me consagrei a fazer história da filosofia, entendendo que isso era fazer filosofia. O problema das opções pessoais, de elaborar um pensamento crítico – tudo isso foi abandonado; mais do que isso, eu tornei-me um defensor encarniçado do método estruturalista e dessa postura, exercendo uma influência certamente nefasta sobre meus alunos na USP, na medida em que eu defendia essa proposta, batalhava por ela. Ocorreu que muitos de meus colegas foram – "graças" ao Gianotti e a mim – levados a receber essa mesma influência do Goldschmidt. Vários professores do Departamento foram para a França estudar com Goldschmidt por nossa sugestão e os que não foram se formaram aqui conosco, de modo que se desenvolveu, no Departamento de Filosofia, toda uma postura estruturalista no ensino da filosofia, que até hoje, a meu ver, é dominante. E esse me parece um fato bastante infeliz, na medida em que se privilegia o estudo dos autores, deixando-se totalmente de lado o estímulo à reflexão filosófica pessoal e original. É claro, é fundamental que os autores sejam estudados, eu não vejo como se possa fazer uma filosofia pessoal e criadora sem bons e sólidos conhecimentos históricos. Acho uma felicidade que o Departamento de Filosofia da USP tenha tão bons historiadores e tão bons cursos de história da filosofia como tem (o que não acontece em muitos lugares do Brasil e fora dele), mas acho uma infelicidade que, ao lado disso, floresçam pouco outras formas de ensinar filosofia e, sobretudo, que a elaboração filosófica pessoal, a elaboração crítica, fique tão prejudicada. Os alunos não são estimulados a reagir intelectualmente.

Há alguma dúvida quanto à identidade de sentido do texto e do contexto? Responda-o o próprio leitor: o que acaba de ler é ou não "a revelação de um fato lamentável no que concerne ao ensino de filosofia na USP" e o mea culpa de quem reconhece haver ajudado a produzi-lo?

III

A terceira acusação, enfim, é que seria uma "interpretação absurda" afirmar que essas palavras "estivessem revelando um fato lamentável". Para ver o quanto isto é coisa falsa e de má-fé, basta reparar que, no final do trecho, Porchat, após descrever o estado reinante no ensino de Filosofia da USP, faz dele, literalmente, a seguinte avaliação: "Esse me parece um fato bastante infeliz."

Pode haver a mais leve dúvida de que a infelicidade é lamentável e de que a "interpretação estapafúrdia" que ele me atribui é dele mesmo?

A única coisa que falta, não no meu artigo, mas na entrevista mesma, é a longa introdução oca e laudatória que Porchat agora acrescentou às suas declarações para tentar disfarçar a gravidade do que denunciavam. Ou seja: não fui eu que amputei as declarações do contexto, foi Porchat que lhes enxertou um contexto postiço para dar a impressão de que não disse o que disse e de que disse o que não disse. Se ele deu a entrevista num arroubo fugaz de sinceridade, e em seguida, acometido de um ataque de temor servil, resolveu voltar atrás, é problema dele, mas é aliás coisa que não me espanta num adepto do pirronismo filosófico, o qual é, por definição, a filosofia dos indecisos.

Para encerrar, três lembretes:

1) Malgrado algumas gozações que lhe fiz no meu artigo, Porchat emergia dele na condição afinal honrosa de quem dissera parte da verdade onde todos a calavam por completo. Ao recuar, temeroso, das conseqüencias do bem que fizera, ele trocou meia honra pela completa desonra.

2) Ele lança suas acusações sem nome do destinatário mas com indicações suficientes do seu endereço, sob a forma de alusões. É procedimento típico do caluniador malicioso, que se abriga por trás de um discurso aparentemente genérico para poder ferir, sem ser apanhado, um alvo muito preciso e determinado.

3) Após espalhar seu veneno, ele pretende dar o debate por encerrado e sair de fininho. Imagina que pode divulgar uma acusação caluniosa e depois ir para casa como se nada tivesse acontecido. Julga portanto que é coisa normal ficar isento das conseqüências de seus atos. Mas devo informar-lhe que, desta vez, ele não tem autoridade ou poder para conferir a si mesmo semelhante isenção. O que ele fez contra mim foi acusar-me de um crime do qual sabe que estou inocente – e esta acusação é crime maior ainda. Não cabe a Porchat dar o caso por encerrado. Isto é atribuição exclusiva da Justiça, da qual nem os mais escorregadios subterfúgios da sofística universal poderão salvá-lo.

 

Gilberto Vasconcellos

 

Ao supor que refuta O Imbecil Coletivo mediante a alegação de que o emburrecimento das massas não é culpa das esquerdas e sim da TV, o sr. Gilberto Vasconcellos dá uma prova cabal de que não leu ou não entendeu, do livro, nem mesmo aquele mínimo indispensável para captar, ainda que por alto, o teor geral do assunto.

O Imbecil Coletivo II, como aliás também o I, não aborda nem de raspão a suposta imbecilidade popular, cuja análise e revelação correm por conta da fértil imaginação do sr. Gilberto Vasconcellos. Ambos os volumes tratam unicamente da estupidez de elite, da burrice letrada e acadêmica, da qual, como se vê, não é preciso ir muito longe para encontrar exemplos.

Que a TV estupidifique as massas incultas em vez de educá-las é provavelmente um fato, mas, não podendo acreditar que o sr. Vasconcellos atribua seu próprio emburrecimento ou o de seus pares acadêmicos ao mau hábito de assistir Faustão e Xuxa, só me resta concluir que o livro afirma uma coisa e o crítico refuta outra, imaginando que é a mesma.

Não tendo razões para imputar ao sr. Vasconcellos a premeditada intenção de falsear a conversa para me prejudicar, só posso concluir pela hipótese da inépcia: o sr. Vasconcellos lê mal e, rigorosamente, não sabe do que está falando.

Tão deslocadas são as opiniões dele ante o livro nominalmente incumbido de posar como objeto de sua crítica, que me vejo desarmado para respondê-las. Ele afirma, por exemplo, que meu discurso neoliberal teria a obrigação de tomar como ponto de partida as reflexões de José Guilherme Merquior. Não tendo escrito jamais algum discurso neoliberal, e não tendo tido outra participação nessa ideologia política senão uma conferência feita no Instituto Liberal do Rio sob o título "Por que não sou neoliberal", que é que hei de responder? Só me ocorre, de passagem, observar que o sr. Vasconcellos não encontrou no livro outros indícios de meu suposto neoliberalismo senão o fato de eu criticar a esquerda e elogiar, de passagem, alguns escritores liberais – o que mostra que o crítico não conhece outra leitura senão a lambida superficial e que, em matéria de compreensão de textos, o único instrumento hermenêutico à sua disposição é a catalogação dualista mecânica e sumária, burra até o limite do indizível. Logo, irrespondível.

Também nada posso responder a suas ponderações sobre a "ditadura liberal" dos militares, pela simples razão de que não atino com o sentido dessas palavras: se tomadas na acepção econômica, não podem designar o regime mais centralizador e estatizante que já tivemos; na acepção política, só podem querer dizer que a ditadura não foi ditatorial o bastante. Em ambos os casos, estão aquém do entendimento humano.

Que o sr. Vasconcelos não faz a mínima questão de saber do que fala é coisa que aliás já havia sido assinalada pelo jornalista Reinaldo Azevedo, o qual, mesmo num artigo elogioso (República, dezembro de 1997), não pôde deixar de observar que o professor da UFMG "não se incomoda de ser injusto ou impreciso se isso valer uma boa frase". Eis aí a definição mesma do charlatanismo intelectual, já tantas vezes denunciado na nossa literatura, desde Machado de Assis e Lima Barreto, como a encarnação mesma da peste que nos atrofia o pensamento. Verboso e inconseqüente, embriagado pelo próprio discurso, desprovido daquele mínimo de autofiscalização sem o qual a vida da inteligência não pode sequer começar, o sr. Vasconcellos provou, com seu arremedo de crítica, ter as qualificações intelectuais requeridas de um aspirante a cabo eleitoral do PDT.

Que em larga medida a vida intelectual brasileira ainda seja dominada por essa oratória de psitacídeos, é coisa da qual não se pode culpar o Sr. Gilberto Vasconcellos. Culpado é o governo, que dá emprego universitário a sujeitos como ele e depois, para não se desmoralizar, tem de ajudá-los a fingir que são intelectuais. E as piores vítimas deste engodo são eles próprios: recebendo mensalmente do governo federal um contracheque que os confirma nas mais ilusórias convicções acerca de si mesmos, esses indivíduos tanto mais se afastam da realidade quanto mais se aproximam da aposentadoria.

Mas a auto-ilusão do sr. Vasconcellos vai ainda mais fundo. Hipnotizado pela sua própria fala, ele perde todo o senso das proporções e chega ao paroxismo de declarar que sente pelos seus desafetos ideológicos nada menos que "asco" – sim, "asco" –, sem perceber que a própria escolha da palavra pomposa e teatral denota menos fanatismo sectário do que afetação, pose, histrionismo de um infeliz que, tendo perdido todo respeito por si mesmo, necessita fingir um sentimento hipertroficamente elevado da própria dignidade. Que exista platéia para levar a sério espetáculo tão miserável, eis aí o sinal de que, na vida intelectual como em tudo o mais, a sociedade subdesenvolvida não tem fundo: pode-se cair indefinidamente.

Deixarei sem resposta, por conta de tão abissal patologia, a ofensa direta, brutal e grosseira que ele faz à minha honra pessoal ao incluir-me implicitamente entre os objetos do seu posadíssimo asco – os liberais que a seu ver só escrevem "com o interesse posto no jabaculê argentário". Não responderei nada. Não perguntarei sequer qual será a fonte argentária da qual aguardo o tal jabaculê, e muito menos que raio de coisa poderia ser, mesmo na estilística gosmenta do meu crítico, um jabaculê não argentário. Não respondo, em suma, nem pergunto. O artigo do sr. Vasconcellos não me motiva a uma coisa nem à outra. Lendo-o, não sinto nada, nem mesmo asco, já que tão forte sentimento de repugnância tenderia a manifestar-se sob a forma de convulsões estomacais, e a escrita vasconcellina, bem feitas as contas, não vale o vômito.

 

Roseli Fischman

 

D. Roseli Fischman (Folha de SP, 15 set. 98) apresenta-se como militante, e de fato não escreve como uma cidadã comum, e sim como pessoa versada na técnica da difamação indireta, arma de precisão das tropas de assalto psicológico a serviço das ideologias modernas. Ela não discute um só de meus argumentos, não toca aliás nem de longe no assunto do meu artigo. Saltando sobre esses desprezíveis detalhes teóricos, reage a minhas opiniões com um ato político: aponta-me à platéia de pessoas boas e anti-racistas como a personificação do inimigo a ser abominado. Responde a argumentos com uma ordem de combate e transfere a discussão do terreno da "verdade versus falsidade" para o do "nós versus eles", amigo versus inimigo. Sendo "nós" os representantes da tolerância e do anti-racismo, quem quer que seja designado como inimigo está automaticamente identificado como intolerante e racista, sem que seja preciso declará-lo. Mil vezes repetido - por ela mesma ou por solícitos companheiros de militância -, o discurso de D. Roseli acabará por me fazer passar por um racista: a calúnia absurda, de início tão inverossímil que não ousa vir à tona senão como um leve sussurro, terminará por ser proclamada do alto dos telhados como um dogma inquestionável e universalmente admitido, podendo eventualmente servir de prova judicial de si mesma, a título de "fato notório".

Quem não conhece esse truque? Mais que mera inculcação do ódio sob uma retórica de tolerância fingida, é a política de Carl Schmitt praticada com a técnica de Joseph Goebbels. É esse tipo de peste mental que, se quisermos ter uma vida cultural saudável, tem de ser eliminada dos nossos debates públicos.

Quanto à observação puerilmente irônica de que certas estruturas permanentes da percepção humana seriam, no meu entender, uma criação de aristocratas iluminados, governantes superiores do processo temporal humano, é apenas tentativa maldosa de me atribuir uma opinião imbecil e preconceituosa que não tenho nem poderia ter. A percepção espontânea do claro e do escuro não é evidentemente uma criação cultural, mas uma reação biológica comum a homens e bichos, e por isto mesmo qualquer tentativa de alterá-la por meios políticos é empreendimento de uma engenharia comportamental demente e autoritária, esta sim, obra de pretensos iluminados que se arrogam a autoridade de gerentes da evolução animal. O parentesco dessa engenharia social com o fascismo é demasiado óbvio, aliás, para ter de ser enfatizado.

 

Carta à revista Caros Amigos

 

Rio de Janeiro, 24 de Agosto de 1998
Ilmo. Sr.
Sérgio de Souza
Editor de Caros Amigos
Editora Casa Amarela
R. Fidalga, 174
São Paulo 05432-000 SP
fax: 011 816 1276
e-mail: casamar@uol.com.br

 

Prezado senhor,

 

Já que sua revista não respeita mesmo o direito de resposta, não tenho alternativa senão divulgar pela minha homepage – sem prejuízo das providências legais cabíveis no caso – a seguinte

Resposta a André Forastieri e Carlos Ribeiro

Não respondi de imediato ao sr. André Forastieri porque me pareceu mais justo aguardar que alguém viesse em seu socorro, de modo que os dois, somados, perfizessem um leitor inteiro e eu não fosse acusado de entrar na peleja com superioridade numérica.

Que o sr. Forastieri é apenas meio leitor, ele mesmo o declara, ao assegurar que não lê em hipótese alguma – não sei se por princípio ou por impossibilidade intrínseca – livros que tenham citações em francês e/ou latim. Como se não bastasse tão austera renúncia, que exclui de seu horizonte legente praticamente toda a literatura filosófica, econômica, histórica, jurídica etc., ele proclama ainda que se abstém rigorosamente de qualquer obra que tenha recebido aval de Roberto Campos, com o quê o seu estado de privação bibliográfica começa a raiar o calamitoso, tendo em vista a notória afeição do ex-ministro aos clássicos das letras.

Já o sr. Carlos Ribeiro, de Londrina, PR, é inequívocamente um leitor – no sentido, é claro, de que não faz parte do corpo de redatores. É um leitor, também, no sentido de ter lido a página 326 do livro do Maestro Júlio Medaglia, Música Impopular, e o título inteirinho do meu livro Astros e Símbolos. Do primeiro ele concluiu que a contingência de o maestro ter usado ali a expressão "imbecilidade coletiva" em 1988 prova que foi pura auto-repetição casual, sem a mais remota alusão mesmo inconsciente a O Imbecil Coletivo, o fato de que voltasse a usá-la nove anos depois, em plena efervescência de uma polêmica nacional em torno desse livro e no contexto de um debate sobre o mesmíssimo assunto dele. Do segundo, concluiu que se tratava de "um livro de astrologia". A primeira conclusão demonstra que o sr. Ribeiro tem razões que o próprio cálculo das probabilidades desconhece. A segunda demonstra que a leitura não passou do título, já que a obra citada trata de simbólica metafísica nas Artes Liberais, e não de "astrologia" no sentido corrente do termo, como há de percebê-lo, entre vãos espasmos cerebrais, qualquer astrólogo que o tente ler confiado numa formação humanística haurida nas obras de Zora Yonara e Walter Mercado – os parâmetros bibliográficos que o sr. Ribeiro parece ter tido em mente ao falar do caso.

Não é de espantar que, com esse cabedal de informações, o sr. Ribeiro alcance tão pífio desempenho na sua função, auto-atribuída, de meu biógrafo. Sondando o meu passado com as asas da imaginação, proverbialmente amplas em quem de fatos não saiba nem deseje saber, ele informa aos leitores que, tendo estreado somente em 1983 com o supracitado "livro de astrologia", e não havendo publicado O Imbecil Coletivo senão em 1996, não posso estar bem da cabeça ao alegar minha condição de veterano na crítica da cultura brasileira.

Já o meu curriculum vitae, do qual eu teria cedido de bom grado uma cópia ao eminente inventor da vida alheia, documenta que estreei como crítico de assuntos culturais na revista Brasil-Israel em 1969; que em 1976, além de vários artigos sobre cultura e sociedade saídos no Jornal da Semana de São Paulo, publiquei ainda, na obrinha coletiva Imprensa Hoje, suplemento do mesmo jornal, um longo ensaio onde, sob o título "Imprensa e Cultura", se anunciavam com antecedência de duas décadas alguns dos temas básicos de O Imbecil Coletivo, inclusive a propensão imperial – então apenas nascente – com que o jornalismo de cultura ia subjugando as manifestações culturais em vez de refleti-las. Entre o ano de publicação de Astros e Símbolos e o de O Imbecil Coletivo, a revista Sala de Aula, distribuída a todas as escolas secundárias do país pela Fundação Victor Civita, publicou vários artigos meus sobre crise da educação, ilusões da intelligentzia, etc. E no próprio Astros e Símbolos o sr. Ribeiro encontraria, caso o tivesse lido, algumas páginas relativas à dissolução da inteligência nacional pela influência corrosiva das pseudo-religiões, observações que depois seriam retomadas não apenas em O Imbecil Coletivo como, antes dele, em A Nova Era e a Revolução Cultural (1994). Não foi, portanto, em 1996 que resolvi – para usar o termo do sr. Ribeiro – "dar uma de" observador crítico da cultura brasileira.

O leitor há de compreender que, se entro nestes detalhes, não é por afeição nostálgica a meus feitos passados, mas simplesmente para ilustrar o grau de confiabilidade que têm as especulações bisbilhotógrafas do sr. Ribeiro. Escritas, ademais, naquela típica "eloqüência canina" de moralista de palanque, de um mau gosto atroz, sem o mínimo senso de humor ou das proporções, elas não poderiam terminar senão numa desvairada coda onde o sujeitinho, jogando sobre mim todos os dejetos de sua atividade, digamos, cerebral, sente os arrebatamentos de emoção cívica de quem assinasse a libertação dos escravos ou proclamasse diante do espelho, vestido de Robespierre, com a meia da avó na cabeça a título de barrete frígio, a sentença de morte de todos os malvados. Sou aí, em gran finale, acusado de nada menos que "a mais infame e escandalosa tentativa de difamação que um intelectual já ousou perpetrar" – o que, confesso, nem ouso responder, tamanha a glória que semelhante asneira me confere.

Depois disso, voltar ao sr. Forastieri é um anticlímax. É cair de Lord Byron a Amado Batista, de tuba sonorosa a reco-reco.

Vamos, pois, às miudezas.

A primeira delas é o próprio Sr. Forastieri. Tendo marcado presença num trecho de O Imbecil Coletivo II apenas na condição modestíssima de exceção parcial às críticas que eu fazia à orientação geral da revista, ele proclama, contra toda evidência, que é o alvo principal delas, "o grande alvo". Tão intenso é seu desejo de remover-se da periferia para o centro, que ele chega ao paroxismo de declarar que o título desse trecho, "O Imbecil Imitativo", é uma referência direta à sua pessoa.

Não sei se o tranqüilizo ou se o irrito mais ainda ao dizê-lo, mas o fato é que, por definição, a exceção parcial a uma afirmação geral não pode ser o objeto central dela. Não discutirei este tópico, pois é coisa que, se já não fosse ponto pacífico na lógica de Aristóteles, pelo menos se pode dar por definitivamente resolvida desde o advento da moderna teoria dos conjuntos.

Quanto ao título, "O Imbecil Imitativo", longe de aludir à pessoa de quem quer que seja, não designa sequer a revista Caros Amigos em especial, mas o hábito geral de parasitar o discurso alheio em vez de contestá-lo lealmente. Esse hábito está tão disseminado entre os políticos de esquerda e direita que se pode considerá-lo, sem erro, um dos pilares do Estado moderno. Sua introdução nos debates culturais é efeito da politização sectária da vida intelectual. A suspeita de que no caso de Caros Amigos se tratasse precisamente disso é justificada pela seguinte consideração: quando a revista foi lançada, ou os orientadores da revista conheciam o debate aberto pel’O Imbecil Coletivo e decidiram entrar na luta fingindo ignorar que ela já havia começado, ou, ao contrário, ignoravam realmente a mais ruidosa polêmica cultural dos últimos meses e estavam portanto muito mal qualificados para dar palpites sobre atualidade cultural brasileira. As duas hipóteses são deprimentes e uma delas é necessariamente verdadeira. Pode-se, como o faz aliás o próprio sr. Forastieri, alegar que tudo foi pura coincidência. Mas é preciso ser realmente muito burro para não perceber que isto apenas confirma a segunda hipótese.

Quanto à alegação pretensamente indignada de que o acusei de plágio, só revela na ótica do sr. Forastieri um grave caso de paralaxe – o deslocamento entre o foco e o objeto. Imitar esquemas da argumentação alheia com o propósito de inverter-lhe o sentido não pode ser plágio em hipótese alguma: vai aí toda a diferença entre a cópia servil e a elaboração criativamente maliciosa. Foi disto, e não daquilo, que acusei Caros Amigos. O sr. Forastieri, não podendo defender a revista da acusação que lhe fiz, julgou mais fácil, com razão, defendê-la de uma que não lhe fiz. Não tendo argumentos, apelou para o fingimento.

A prova de que ele sabe que está fingindo é que, logo após refutar a imputação que nunca lhe fiz, ele anuncia sua intenção de aguardar que o autor de O Imbecil Coletivo enriqueça com seus livros para então, no momento propício, "tomar-lhe uma grana" (sic), usando para esse fim os serviços de advogados, os quais, assegura, "afinal foram feitos para essas coisas".

Ora, quem com sinceridade se sentisse acusado injustamente de plágio e contemplasse seriamente a possibilidade de obter uma reparação na justiça não iria desmoralizar de antemão a própria causa, apresentando-a como se fosse um tipo de extorsão premeditada e descrevendo-a em termos cafajestes que, apresentados a um juiz, não renderiam ao autor da ação senão um processo por desacato.

O sr. Forastieri finge que foi acusado de plágio, finge que está ofendido, finge que se defende, finge que vai me processar. Fingidor sem ser poeta, finge a dor que não sente para não ter de revelar a que sente. Encena um arremedo de indignação para não mostrar que está apenas com vergonha.

Ora, tudo o que é puro fingimento é sumamente tedioso e sem sentido como um teatrinho de velhas esclerosadas num asilo.

O sr. Carlos Ribeiro, malgrado sua condição de escriba amador, é muito mais interessante. Pelo menos é o bastante destituído de senso de humor para se tornar engraçado involuntariamente, ao passo que o sr. Forastieri, querendo parecer engraçado com seu humorismo ginasiano, nos dá apenas o melancólico espetáculo de uma falsa consciência que se debate entre as garras do irrespondível.

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